OPINIÃO
08/02/2019 10:53 -02 | Atualizado 08/02/2019 10:53 -02

'No Portal da Eternidade' é um retrato mais da alma que da obra de van Gogh

Por mais artifícios estéticos que Julian Schnabel utilize no filme, a atuação incrível de Willem Dafoe ofusca tudo.

Divulgação
William Dafoe interpreta com maestria o pintor atormentado van Gogh.

O mundo das artes plásticas não é uma novidade para o Julian Schnabel. Também conhecido por seu trabalho como pintor, o cineasta que agora retrata a vida de Vincent van Gogh em No Portal da Eternidade, já levou ao cinema a história de Jean-Michel Basquiat, em 1996.

Tanto van Gogh quanto Basquiat foram artistas que romperam barreiras, mas assim como os dois filmes de Schnabel, tiveram trajetórias e estilos bem distintos.

Engolido pelo mundinho badalado do East Village na passagem da década de 1970 para 1980, Basquiat ganhou um registro mais urbano e focado na entourage de personagens típicos daquele meio. Já van Gogh, um homem solitário e atormentado por seus demônios internos que busca no interior da França a luz perfeita para seus quadros, é representado por um registro caótico que confunde a natureza em si com a natureza da mente errática do pintor holandês.

A câmera na mão de Schnabel em No Portal da Eternidade - que estreou nos cinemas brasileiros nesta semana - lembra a dos tempos de Dogma 95, movimento dinamarquês que curiosamente surgiu junto com o lançamento de Basquiat. Ela pode incomodar o espectador, mas é um artifício em total harmonia com a proposta de fazer uma biografia de van Gogh de dentro para fora.

Divulgação
Diretor aposta nas luzes para explorar relação de van Gogh e mundo externo.

Outro ponto chave no filme é a luz. Ela funciona aqui como um contraponto à escuridão que atormentava a mente do artista. A pintura para van Gogh era sua vida, e a luz era seu vínculo com o mundo exterior. Um meio de mostrar a sua visão a quem não o compreendia.

No entanto, por mais floreios técnicos que Schnabel use para enfatizar sua própria visão sobre van Gogh, a sincera interpretação de Willem Dafoe ofusca tudo. Ele é o filme.

No final das contas, o filme acaba sofrendo da mesma confusão que tomava os pensamentos de seu protagonista, dividido entre os valores estéticos e suas questões existenciais. No Portal da Eternidade é mais uma viagem pela mente de um homem perdido entre dois mundos do que sobre o pintor genial, e esse é o grande trunfo do filme.