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15/10/2019 02:00 -03

Filipe Martins nega rixa entre militares e olavistas: 'Mistificação'

Assessor de Assuntos Internacionais da Presidência da República e discípulo de Olavo de Carvalho diz ao HuffPost que há menos divergências no governo do que a mídia tenta retratar.

Reprodução/Instagram/@filgmartin
Escritos Olavo de Carvalho e o assessor de Assuntos Internacionais da Presidência da República, Filipe Martins

“Mistificação”. Essa foi a palavra mais usada pelo assessor de Assuntos Internacionais da Presidência da República, Filipe Martins, em entrevista exclusiva concedida ao HuffPost no fim de semana. 

O aluno do escritor Olavo de Carvalho não é de conceder entrevistas e explicou: “Não gosto de falar. Sou assessor. Não sou eu quem tem que falar”. Aceitou, contudo, responder algumas perguntas do HuffPost após sua participação na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em São Paulo, durante a qual falou justamente sobre seu mestre

Logo de cara, negou-se a falar sobre reportagem da revista Crusoé segundo a qual ele interage com grupos de WhatsApp que articulam ataques contra adversários de Jair Bolsonaro. “Você vai perder a pergunta, porque eu vou entrar na Justiça, pedir direito de resposta. Então, não vou falar nada”, disse. 

O que se diz sobre o funcionamento da política externa foi o primeiro ponto sobre o qual Martins disse haver “mistificações”, bem como sobre as pessoas que estão próximas ao presidente Jair Bolsonaro

Considerado um conselheiro presidencial, ele negou que haja ou sequer tenha ocorrido uma rixa entre olavistas e militares no governo. “Isso é total fantasia. Acho que a mídia criou esquemas tentando compreender um modelo fácil de interpretação do governo. Mas é um modelo fácil, simples, até elegante eu diria, porque tem ali grupos que interagem, disputam, mas é um modelo errado”, afirmou, já tentando dar por encerrada a conversa. 

Simplesmente não existe conflito entre generais ou militares e ala ideológica, e ala olavista e ala política. O que há, evidentemente, são discordâncias que ocorrem de tempos em tempos. Então isso tudo não passa de mistificação.

Questionado porém como poderiam surgir informações por ele classificadas como “fantasiosas” de fontes de dentro do governo, Filipe Martins retrucou:  “Se estão dentro do governo, ou estão erradas, ou estão equivocadas, ou estão mentindo”.

Acontece que o confronto foi público. A rixa com a ala militar se acirrou com os ataques direcionados ao general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que acabou demitido em junho, após ter virado alvo de inúmeras críticas públicas de Olavo de Carvalho. Ele foi literalmente fritado nas redes sociais, onde seguidores do escritor pediam que fosse nomeado para Secretaria de Governo, no lugar do então ministro, Carlos Bolsonaro, o filho 02 do presidente. 

A perseguição motivou uma manifestação do braço direito do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. O ex-comandante do Exército general Villas Boas foi ao Twitter e chamou Olavo de “verdadeiro Trotsky de direita” e disse que, no momento em que o País busca coesão, o “guru” age no sentido de acentuar as divergências.

Leia a entrevista na íntegra com o assessor de Assuntos Internacionais da Presidência:

HuffPost: Como é seu envolvimento na política externa? Há quem diga que o senhor é até mais presente que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo... 

Filipe Martins: Existe uma série de mistificações sobre como funciona a política externa. Eu e o ministro Ernesto e os demais que participam disso, em alguns momentos isso inclui o Eduardo [Bolsonaro], somos uma equipe muito coesa. Todo mundo trabalha junto, tem um pensamento muito parecido, uma forma de ver desafios muito igual. No que diz respeito ao ministro Ernesto, especificamente, é um sujeito que eu admiro muito. Eu tive a honra de apresentar ele ao presidente, sabendo que ele era a pessoa certa para o ministério, que ele deveria ser o formulador de política externa. Evidentemente, como amigos, nós conversamos, ele tem grande consideração por mim, motivo pelo qual eu sou muito grato a ele. Mas a minha função é basicamente de assessorar o presidente em todas as questões internacionais, acompanhar o diálogo que ele tem com chefes de Estado, acompanhar as correspondências, preparar essas correspondências quando elas são por escrito, acompanhar ligações, acompanhá-lo nas viagens, organizar essa agenda internacional dele, e também, evidentemente, ajudar ali nas falas, nos pontos de conversação e tudo o mais. 

Agora, diz-se que o senhor está presente em mais do que nas questões internacionais, que tem atuado também em aconselhamento ao presidente Jair Bolsonaro. É verdade? 

O presidente é uma pessoa que escuta todo mundo, muito aberta a sugestões, ideias. Mas evidentemente tem um grupo de pessoas que ele conhece há mais tempo, pessoas que ele sabe que têm um comprometimento com as mesmas ideias e os mesmos valores de quem ele se socorre com frequência. Mas normalmente isso é exagerado ou distorcido. Tem muitos ministros, muitas pessoas que são ouvidas neste processo mais íntimo que acabam ficando de fora, outros são inclusos sem participar. E acontece assim: o presidente tem seu círculo interno, confia nessas pessoas, e a mídia tenta fazer essa mistificação, falando em gabinete do ódio, gabinete da raiva, e coisas do tipo. Mas na verdade o que há é um diálogo franco do presidente com toda a sua equipe. Ele consulta das pessoas mais simples, dos cargos mais baixos, até os cargos mais altos, para pegar o pulso realmente do momento, da situação, para poder fazer as melhores decisões. Lembrando sempre que as decisões são efetivamente dele. Eu digo isso como uma espécie de testemunho pessoal, porque eu já acompanhei esse processo todo. Ele ouve perspectivas contraditórias, coloca as pessoas para debater, conversar, e chega a uma decisão. 

Em determinado momento deste ano, há alguns meses, houve embates entre o que se convencionou chamar da ala olavista e os militares do governo... 

Isso é total fantasia. Dentre os melhores amigos que eu fiz ali no governo, tem pessoas como o general [Augusto] Heleno, o general [Luiz Eduardo] Ramos, pessoas de todas as camadas — eu não vou citar aqui vários nomes... Mas simplesmente não existe conflito entre generais ou militares e ala ideológica, e ala olavista e ala política. O que há, evidentemente, são discordâncias que ocorrem de tempos em tempos. Mas eu diria que eu e o general Heleno discordamos muito, muito menos do que eu discordo, às vezes, de pessoas que são colocadas na mesma ala ali a que eu pertenço [olavista]. Então isso tudo não passa de mistificação. Acho que as pessoas que estão analisando o governo estão sendo um pouco preguiçosas. Elas acham que existe um esquema redondinho, fechadinho, que explica tudo, essa interação entre os grupos. E no fundo não. São pessoas muito abertas, muito sinceras, honestas, que compartilham ali o mesmo interesse de fazer o bem pelo País e que têm backgrounds diferentes, têm perspectivas diferentes e essas perspectivas são debatidas e confrontadas com toda a tranquilidade. 

Por que o senhor acha, então, que têm surgido essas notícias? De onde vêm? 

Acho que a mídia criou esquemas tentando compreender um modelo fácil de interpretação do governo. Mas é um modelo fácil, simples, até elegante eu diria, porque tem ali grupos que interagem, disputam, mas é um modelo errado.

Mas para serem publicadas, essas informações saem de algum lugar, são ditas por alguém... Pessoas do governo, certo? 

Bom, não sei se são. Mas se estão dentro do governo, ou estão erradas ou estão equivocadas ou estão mentindo.