COMPORTAMENTO
04/05/2019 19:13 -03

Seus filhos poderão te processar no futuro por ter compartilhado posts demais?

Os “sharenters” – pais que compartilham demais – estão criando uma pegada digital das crianças antes que elas possam consentir.

Westend61 via Getty Images

Gwyneth Paltrow se meteu em uma enrascada com sua filha adolescente Apple no mês passado quando compartilhou com seus 5,4 milhões de seguidores no Instagram uma selfie dela e da adolescente numa estação de esqui.

“Mamãe, já discutimos isso”, compartilhou Apple, cujo próprio perfil é privado, na seção de comentários do post de Paltrow. “Você não pode postar nada sem meu consentimento.”

A mídia imediatamente repercutiu a história da “selfie não consensual” – uma história que se encaixou perfeitamente com outro relato que surgiu alguns dias mais tarde envolvendo outra celebridade que teria compartilhado demais.

Desta vez foi a cantora Pink que atraiu o repúdio de alguns internautas depois de compartilhar uma imagem de seu filho de 2 anos sem fralda. Em um segundo post revisado, as partes íntimas do garotinho estavam cobertas estrategicamente por rabiscos.

“Há algo de seriamente errado com muitos de vocês aí fora”, escreveu Pink sob a foto editada. “Criticando o pênis de meu bebê? Falando em circuncisão? Vocês estão falando sério? Como qualquer mãe normal na praia, eu nem reparei que ele havia tirado a fralda de nadar.”

A popstar disse a Ellen DeGeneres que, depois da repercussão negativa, decidiu parar de compartilhar qualquer foto de seus filhos nas redes sociais.

Quer você pense que as fotos deveriam ter sido postadas, quer não, os exemplos de Paltrow e Pink ressaltam uma diferença de visão entre pais que não poderia ser mais moderna.

De um lado estão os chamados “sharenters”, pais que não poupam nenhum detalhe quando postam sobre seus filhos, geralmente começando com o primeiro ultrassom pouco nítido (a palavra “sharenting” vem de “share”, compartilhar, e “parenting”, ou seja criar os filhos).

Do outro lado estão os pais que se preocupam com a privacidade e preferem conservar fotos pessoais apenas nos seus celulares.

Mesmo os pais que optam por não postar entendem o desejo de fazê-lo. Abbey Sharp é nutricionista em Toronto, blogueira que escreve sobre criação dos filhos e YouTuber no canal “Abbey’s Kitchen”. Quando seu filho nasceu, alguns anos atrás, ela e seu marido decidiram postar informações e imagens sobre o recém-nascido apenas em um grupo privado no Facebook compartilhado apenas por amigos e familiares que realmente se importam com o bebê.

“Essa foi minha escolha, mas eu entendo aquele desejo de postar”, ela comentou. “Como influencer nas redes sociais, minha vida inteira é documentada e compartilhada online. Foi doloroso pensar que eu não poderia compartilhar aquela parte importantíssima e fundamental de minha vida.”

Jenny Hutt, que é radialista e mãe de dois adolescentes, adotou a abordagem oposta sobre o compartilhamento. Ela publica posts frequentes sobre seus filhos, hoje com 19 e 20 anos, e chega a falar deles em seu programa na rádio SiriusXM, “Just Jenny”. Ela diz que não entende toda a repercussão em torno dos posts de Pink e Gwyneth Paltrow.

“Aposto que Apple Martin estava ironizando a mãe dela, como minha filha faria comigo. Quanto a Pink, ela é ultracool. Não acredito que ela tivesse a intenção de postar uma ‘dick pic’ (foto de pênis)”, disse Hutt.

Mas mesmo ela, que se orgulha de compartilhar tanto, admite que é preciso haver limites aprovados por seus filhos.

“Meus filhos têm 20 e 19 anos e eu ainda peço a autorização deles antes de postar alguma coisa sobre eles nas redes sociais ou falar deles no meu programa na SiriusXM”, disse. “Sou totalmente a favor da verdade e vulnerabilidade nas redes sociais, mas não deixo de me precaver contra a exposição excessiva.”

Compartilhar informações pessoais nas redes sociais – e correr o risco da superexposição – é um perigo. Na melhor das hipóteses, Facebook e Instagram oferecem à avó que mora longe um vislumbre de momentos importantes ou simpáticos da vida de seu filho.

Nos piores casos temos assustadoras invasões de privacidade e crianças que já têm um enorme banco de dados de informações a seu respeito compilado antes mesmo de estarem matriculadas na pré-escola.

(E há ainda casos que vão muito além disso, como a mamãe blogger que viralizou no ano passado por lamentar que seu filho de 6 anos recebe poucas curtidas em comparação com seus irmãozinhos.)

Nicole Katano via Getty Images
Críticos dos pais que cometem sharenting excessivo dizem que não é justo que as crianças tenham uma pegada digital criada antes de elas poderem opinar sobre a questão.

Tudo isso nos leva a questionar: será que deveríamos deixar as crianças viverem sem que cada instante seu seja documentado online? Até que ponto as crianças devem poder opinar sobre a criação de suas pegadas digitais?

E, mesmo que elas já tenham idade suficiente para autorizar você a postar fotos delas, será que uma criança de 5 ou 6 anos realmente compreende as complexidades de como as coisas são compartilhadas, comentadas e como viralizam online?

“Venho me deparando com esse problema cada vez mais nos últimos anos. Isso é algo que causa preocupação e ansiedade aos teens”, comentou a psicóloga Genevieve von Lob, autora do livro “Happy Parent, Happy Child: 10 Steps to Stress-free Family Life”.

“É compreensível que adoramos nossos filhos e podemos querer compartilhar o máximo possível sobre eles”, disse von Lob. “Mas quando compartilhamos uma infinidade de imagens, criamos uma espécie de ‘tatuagem digital’ que pode acompanhar nossos filhos pelo resto da vida.”

Tatuagem digital essa que, dependendo das configurações de privacidade de sua conta, autoridades universitárias, recrutadores de empregos, potenciais namorados ou namoradas e todo mundo poderá visualizar pelo resto da vida de nossos filhos. Será que os recrutadores do emprego dos sonhos de Aiden precisam realmente ver uma foto de Aiden bebê sentado no peniquinho?

 

Jovens processando seus pais por compartilhar informações: isso pode acontecer de fato?

Algumas pessoas sugerem que uma pegada digital permanente pode ter consequências legais para os pais quando seus filhos chegarem à idade adulta. Na França, em 2016, uma campanha viral online exortou os pais a postar menos sobre seus filhos, em nome da privacidade das crianças.

A polícia francesa sugeriu que as imagens podem atrair predadores sexuais. Um especialista jurídico avisou que os pais podem vir a ser processados por seus filhos no futuro por violar a privacidade deles.

Sob as leis francesas de privacidade, qualquer pessoa condenada por publicar e distribuir imagens de outra pessoa sem o consentimento dela pode ser sentenciada a até um ano de prisão e a uma multa equivalente a mais de US$ 50 mil. A lei se aplicaria também aos pais que postam imagens de seus filhos online.

Existe a possibilidade de um processo por “sharenting” ser levado adiante nos EUA algum dia? É provável que não, na opinião do especialista em direito cibernético Mark Bartholomew, da Universidade de Buffalo.

Para começar, há a doutrina da imunidade pais-filhos – a ideia legal de que um filho não pode mover ações na justiça contra seus pais por delitos cíveis cometidos pelos pais contra ele enquanto o filho é menor de idade.

Além disso, como disse Bartholomew ao HuffPost, não existem precedentes nem leis que tratem especificamente do compartilhamento excessivo cometido por pais online (um pai ou uma mãe poderiam alegar que um pedido de remoção de uma foto online violaria seu direito à livre expressão, garantido pela primeira emenda constitucional).

Johner Images via Getty Images
Para um especialista legal, é pouco provável que tenhamos algum processo judicial por sharenting.

Bartholomew disse que um filho que se sentisse prejudicado pelo sharenting teria que encontrar um “gancho” legal ao qual atrelar sua queixa.

“O que me vem à mente são alegações de sofrimento emocional, difamação ou outras violações de privacidade, mas o nível de comprovação pedido seria muito alto”, ele explicou. “Uma filha que afirmasse que as fotos postadas online por seus pais lhe causaram sofrimento emocional teria que comprovar que o comportamento dos pais foi ‘extremo’ ou ‘altamente lesivo’”, explica.

Em vista de como hoje é comum os pais postarem tudo sobre a vida de seus filhos no Instagram ou Facebook, Bartholomew opinou que é pouco provável que uma ação judicial desse tipo tivesse êxito.

 

Mães blogueiras devem ser julgadas segundo outros critérios?

O que Bartholomew pensa das “mommy bloggers” (mamães blogueiras) e influencers que ganham a vida fazendo uma espécie de performance online tipo O Show de Truman, em que tudo da vida delas é conteúdo, não importa quão pessoal possa ser ou quão potencialmente embaraçoso para seus filhos?

“Os pais que agem assim deveriam pensar em usar pseudônimos para falar de seus filhos”, disse Bartholomew. “O problema é que os leitores curtem o que pensam ser revelações genuínas, de modo que usar os nomes reais pode fazer o pai ou mãe blogger parecer mais autêntico. Há um conflito entre a conquista de público e a preservação de espaço privado para a criança crescer.”

Um exemplo perfeito desse conflito foi visto com Christie Tate, uma mommy blogger que fez manchetes no ano passado quando escreveu um texto no Washington Post explicando por que continua a blogar sobre seus filhos, apesar de sua filha que está na quarta série escolar odiar.

A filha teria perguntado a Tate se todos os textos e as fotos que encontrou quando fez uma busca no Google poderiam ser tirados do ar. “Falei a ela que isso não é possível”, escreveu Tate. Além disso, “falei que ainda não terminei de escrever sobre ser mãe”.

Uma criança que tem páginas e páginas de incidentes constrangedores a seu respeito publicados online teria uma chance melhor de ganhar uma ação judicial contra seus pais?

“Sim, quanto mais informação existe postada online sobre o filho, maior é o potencial de alguma espécie de infração legal”, disse Bartholomew. “Como os influencers e bloggers sobre comportamento querem parecer provocantes e autênticos, eles podem acabar passando dos limites e postando algo que a lei considere extrema demais.”

Isto dito, diante de um tribunal, uma imagem (por exemplo um nu frontal embaraçoso de seu filho) possui mais poder de chocar que um texto postado em um “mommy blog”.

“Podemos imaginar um pai ou uma mãe postando uma foto de seu filho em seu blog sobre criação dos filhos que seja uma imagem tão perturbadora que um juiz considerasse isso um comportamento repulsivo por parte do pai ou mãe”, disse Bartholomew. “Que eu saiba ainda não houve uma ação judicial desse tipo movida nos Estados Unidos, mas isso é algo que pode acontecer, sem dúvida.”

 

Alguns pais estão ficando mais sensatos em relação ao que publicam

Quanto mais falamos sobre a cultura do compartilhamento online, mais refinados ficam nossos limites em relação a isso. Os pais e mães bloggers continuam a expor seus pontos de vista mais que nunca, mesmo os que não divulgam nada sobre a vida de seus próprios filhos. Para cada mãe ou pai que posta uma selfie mostrando o bumbum peladinho de seu bebê ou seu macacão coberto de vômito, há outra mãe ou outro pai ansioso para explicar por que publicam posts em moderação ou então não publicam nada.

Ray Fitzgerald é um coach de criação de filhos que dirige o site “Raise a Legend” e não posta o nome ou a idade de sua filha online. Ele costuma recomendar a seus leitores que sigam “as três regras do P relativas aos posts online”.

A primeira delas é a privacidade – “não deixe suas configurações de privacidade serem públicas. Trate as imagens particulares de seu filho como você trata seu número de Previdência Social e não o distribua por aí como se fosse um doce digital.” A segunda é a percepção – “se você não gostaria que uma imagem semelhante sua fosse compartilhada, provavelmente não deveria compartilhar uma de seu filho”. A terceira delas é a permissão, uma regra que ele admite que se aplica principalmente às crianças mais velhas.

A filha de Fitzgerald vai completar 20 anos em algumas semanas. A pegada digital dela foi criada inteiramente por ela. Embora Fitzgerald admita que a política de não postar nada seguida por ele e sua mulher não seja do gosto de todos, diz que gostaria que os pais pensassem um pouco mais sobre o que compartilham.

“A melhor coisa que um pai ou uma mãe podem fazer antes de postar online uma foto de seu filho é fazer uma pausa primeiro”, ele comentou. “Se, passadas algumas horas, você ainda acha que é importante postar aquela notícia ou imagem, vá em frente. Mas frequentemente demais jogamos coisas nas redes sociais movidos por um capricho, sem pensar nas consequências de longo prazo.”

Reconheça que você é o único guardião da imagem pública de seu filho, por enquanto, e não apenas um pai ou mãe orgulhoso que morre de vontade de compartilhar.

“Não crie uma situação em que seu filho futuramente seja obrigado a explicar um post feito por seu pai ou mãe no passado”, disse Fitzgerald. “Simplesmente não vale a pena.”

* Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.