COMPORTAMENTO
17/04/2019 21:05 -03

Como criar seus filhos para que eles sejam adultos autoconfiantes

Os especialistas concordam: Quem abre mão do controle absoluto sobre as vidas dos filhos garante a independência deles quando adultos.

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Uma abordagem ‘mão pesada’ pode ter consequências devastadoras no que diz respeito à saúde mental e à independência dos filhos.

O recente escândalo das vagas compradas em universidades americanas ressalta algumas verdades importantes sobre privilégio, saúde mental e, é claro, o papel dos pais.

Embora a imensa maioria dos pais não recorram ao suborno para garantir que seus filhos estudem nas melhores escolas, esse caso completamente extremo ilustra a tentação a que muitos estão sujeitos: assumir o controle completo da vida dos filhos e buscar resolver todos os seus problemas.

Mas essa abordagem pode ter consequências devastadoras no que diz respeito à saúde mental e à independência dos filhos. 

“Esses pais achavam que seus filhos eram incapazes de administrar as próprias vidas. Acho que não existe outra mensagem desse ato que não seja: Olha, não tenho confiança na sua capacidade de lidar com sua própria vida”, explica o neuropsicólogo William Stixrud em entrevista ao HuffPost. 

Stixrud é um dos autores do livro The Self-Driven Child: The Science and Sense of Giving Your Kids More Control Over Their Lives (Crianças que se motivam sozinhas: a ciência e o sentido de dar aos filhos mais controle sobre suas próprias vidas, em tradução livre). Ele escreveu o livro com Ned Johnson, presidente da PrepMatters.

Os autores conversaram com o HuffPost sobre a importância de abrir mão desse controle e, ao invés disso, atuar como “consultor”, não gerente dos seus filhos.

 

Entenda até onde vai o seu poder de controle

Em sua pesquisa, Johnson e Stixrud identificaram a importância de os pequenos sentirem controle sobre suas próprias vidas.

“Temos essa epidemia de problemas relacionados ao estresse, como ansiedade e depressão, e vários deles têm a ver com o fato de que as crianças sentem que têm pouco controle sobre suas próprias vidas”, diz Stixrud. “Elas pensam: ‘Eis um roteiro de como entrar na faculdade, eis como vai ser sua vida’. É incrivelmente estressante e desencorajador.”

Para desenvolver uma automotivação saudável, os jovens precisam ter autonomia, que deve ser incentivada por educadores e pais.

Temos essa epidemia de problemas relacionados ao estresse, como ansiedade e depressão, e vários deles têm a ver com o fato de que as crianças sentem que têm pouco controle sobre suas próprias vidas.”William Stixrud, neuropsicólogo

“O objetivo é criar filhos que se sintam motivados e que queiram lidar com seus problemas e contribuir. Por outro lado, não queremos crianças completamente preguiçosas e pensando: ‘Quem está preocupado com o que eu faço?’”, diz Stixrud.

Permitir que a criança tenha controle de sua própria vida significa que os pais têm de estar um pouco menos no comando.

“Pais estressados e ansiosos podem acabar com a motivação e a autonomia de seus filhos quando querem assumir o controle de tudo”, afirma Johnson.

Ele acredita que a solução é ajudar os pais a entender que o crescimento não é algo linear, então não há por que se preocupar tanto com o futuro dos filhos.

“Os pais têm medo que seus filhos ‘sejam nota 6 entrando no sétimo ano e a trajetória vai ser linear, ou seja, ele vai ter uma vida nota 6’. Mas, como o corpo, o cérebro se desenvolve em ritmos diferentes”, explica Johnson. “Vemos muitos meninos e meninas que tinham problemas aos 12, 17 ou 22 anos, mas depois progridem.”

Se mais pais compreendessem isso, perceberiam que é completamente OK se seus filhos tiverem dificuldades de vez em quando.

“Eles podem enxergar o período do ensino médio como alguns anos em que eles podem ajudar a criança a se desenvolver, em vez de sacrificar tudo para ajudar seus filhos a entrar numa faculdade que seja a ‘de prestígio’”, afirma Johnson.

 

Seja o consultor do seu filho

“Nossa sugestão é que os pais atuem mais como consultores, não como gerentes, chefes ou apenas a patrulha da lição de casa. É uma maneira muito diferente de pensar no seu papel como pai ou mãe”, diz Stixrud. “Como consultor, seu papel não é dizer: ‘Você tem de ser assim’. Em vez disso, ajude a criança a entender o que ela quer ser.”

Ele aconselha os pais a incentivar os filhos a tomar suas próprias decisões, muito antes de chegar a época da faculdade. É importante perguntar constantemente: “A vida é de quem?” e entender que a resposta correta é: “Do meu filho”.

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“Nossa sugestão é que os pais atuem mais como consultores, não como gerentes, chefes ou patrulha da lição de casa”, diz o neuropsicólogo William Stixrud.

“A melhor mensagem a dar para um adolescente é: ’confio na sua capacidade de tomar decisões sobre sua própria vida e de aprender com seus erros. Quero que você tenha muitas chances de praticar essa tomada de decisões e a administração da sua vida antes de chegar a hora de ir para a faculdade”, acrescenta Stixrud.

O papel de um pai ou uma mãe “consultor” é oferecer ajuda. Em vez de achar que tudo é da maior importância, entenda que algumas coisas podem dar errado. É uma chance para que eles aprendam.

“Idealmente, eles conseguem resolver seus próprios problemas e lidar com seus próprios fracassos no contexto de uma família afetuosa e amorosa. Não estamos afirmando que você tem de armar ‘arapucas’ para seu filho, mas sim que é importante dar um passo para trás e deixá-los lidar com as dificuldades sozinhos”, aconselha Johnson.

 

Deixe seu filho treinar a tomada de decisões

Stixrud recomenda dar poderes de tomada de decisão para seu filho desde cedo. Quando a criança é pequena, isso pode ser tão simples como perguntar: “Você quer usar a camisa azul ou a verde?”. E, é claro, respeitar a opinião dele.

“Diga algo como: ‘Você é o especialista em você mesmo, então sabe quando está com fome ou está satisfeito’. Ou, para decidir que roupa usar, diga: ‘Você sabe o que é passar frio e pode decidir’”, explica Stixrud. Ele diz também que as crianças desenvolvem o senso de autonomia nas brincadeiras na escola.

Conforme vão crescendo, é hora de fazer escolhas acadêmicas, como aulas particulares e de línguas, por exemplo. É imperativo que as crianças sejam parte do processo decisório, para que sintam a necessidade de provar que fizeram a escolha correta.

Se eu tomo a decisão pelo meu filho, ele não vai se sentir responsável. Eu é que vouWilliam Stixrud, neuropsicólogo

“Se eu tomo a decisão pelo meu filho, ele não vai se sentir responsável. Eu é que vou”, afirma Stixrud. “E, se algo der errado, ele pode dizer: ‘Eu avisei que isso iria acontecer, pai!’”

Stixrud sugere que os pais deem aos filhos a chance de administrar suas próprias vidas antes de ir para a faculdade, quando serão forçados a fazê-lo. Ele menciona como exemplos marcar consultas médicas, cozinhar para si mesmos e trabalhar em meio período.

“O importante é tratá-los com respeito”, diz Stixrud. “As crianças têm cérebros dentro das cabeças e querem ser bem sucedidas. Elas querem que suas vidas deem certo. Confiar nelas e apoiá-las é muito melhor que achar que você sabe o que é melhor e forçar seus filhos a se adequar aos seus ideais.”

 

Não seja motivo de ansiedade

O terapeuta e consultor de liderança Edwin Friedman escreveu sobre a importância de ser uma “presença não ansiosa” – o que Stixrud e Johnson acreditam ser um bom modelo para os pais.

“Ele argumenta que organizações como escolas, igrejas, famílias e corporações funcionam melhor quando os líderes não são ansiosos e emocionalmente reativos”, explica Stixrud. “É muito mais fácil lidar com um chilique da criança se você mantiver a calma. Se seu filho foi mal na prova, você vai ajudá-lo muito mais se continuar calmo.”

Estresse e ansiedade podem ser contagiosos. Ser uma presença não ansiosa é mais construtivo para os filhos do que um pai ou mãe que fica abalado quando a criança tem alguma dificuldade.

Kim Metcalfe, professora aposentada especializada em educação infantil e psicologia, concorda.

“Quando as crianças fracassam, incentive-as a persistir. Isso desenvolve resiliência. Encorajar é muito diferente de desencorajar, que envolve culpa, provocação, humilhação, degradação e punição”, diz Metcalfe.

“Diga para a criança que você está do lado dela, que você a ama incondicionalmente e que está ali para apoiá-la, apesar dos erros”, acrescenta ela.

 

Entenda que entrar na faculdade não é um bilhete premiado

Não é preciso dizer que a pressão de entrar numa universidade envolve pensamentos e sentimentos nada saudáveis para os jovens.

“Muitos pais e filhos têm essa ilusão de que você tem de ir para uma universidade de elite para ter sucesso na vida. Eles acreditam que, se entrarem em uma dessas escolas, tudo se justifica”, afirma Stixrud.

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O escândalo do suborno nas universidades de elite americanas mostra até onde os pais podem chegar para garantir que seus filhos recebam educação de elite.

“Parte é cultura, parte são os pais e parte são as escolas de ensino médio hipercompetitivas. Mas há um medo enorme de não conseguir entrar em um certo tipo de universidade”, acrescenta ele.

É claro que entrar numa universidade de prestígio traz algumas vantagens, mas a ideia de que elas são necessárias para você ter uma carreira de sucesso ou uma vida satisfatória é uma ilusão. E essa pressão afeta a saúde mental dos jovens. Johnson e Stixrud lembram de casos de suicídio de alunos de Stanford e da Universidade da Pensilvânia, além de outras universidade de ponta.

“As pessoas dizem: ‘Não entendo. Ela era uma aluna tão boa, líder, ótima atleta, tinha tantos amigos’ – como se as pessoas que fazem isso [suicídio] o fizeram porque perderam a corrida da meritocracia”, diz Johson. “Mas a pressão crônica e extrema a que eles são submetidos permite que eles tenham grandes conquistas e, ao mesmo tempo, sofram de problemas de saúde mental.”

Em vez de tratar a universidade como um bilhete premiado para uma vida de sucesso, os pais deveriam se concentrar em criar filhos que tenham cérebros saudáveis e um forte sentido de si mesmos.

Juliet Lythcott-Haims, ex-reitora da Universidade Stanford e autora de How to Raise an Adult (Como criar um adulto, em tradução livre), diz que muitos alunos exemplares são “existencialmente impotentes” – ou seja, eles são movidos pelo medo de fracassar, não pela liberdade intelectual ou emocional.

“O ensino médio deveria ser uma época de crescimento, de descobrir o que você faz bem, de desenvolver essas habilidades”, diz Johnson. “Os jovens deveriam estar tentando entender o que querem fazer, em vez de se perguntar: ‘Será que isso vai me ajudar a entrar na faculdade?’”

No fim das contas, o mais importante é manter tudo em perspectiva.

“As crianças vão passar por tantas dificuldades quando crescerem – doença, divórcio, demissões”, afirma Johnson. “Se a pior coisa que acontecer na vida delas é não entrar na faculdade dos seus sonhos, que linda vida ela deve ter.”

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.