LGBT
13/11/2019 20:39 -03 | Atualizado 13/11/2019 21:11 -03

Mesmo com corte de 40%, Festival Mix Brasil tem vasta programação LGBT em 2019

"Apesar do corte, a gente conseguiu deixar a programação toda gratuita. Essa é a maior vitória", afirma Josi Geller, diretora do Mix.

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Longa "Música Para Morrer de Amor", de Rafael Gomes foi exibido com exclusividade do NewFest -- festival de cinema LGBT de Nova York.

Diante de incertezas que rondam alguns festivais de cultura no Brasil ― como Anima Mundi e Festival do Rio, por exemplo ― e de ofensivas do governo federal frente a produções culturais de temática LGBT, um evento persiste em voltar toda sua programação para questões de gênero e sexualidade. Em 2019, o Festival Mix Brasil chega à sua 27ª edição com verba limitada, mas com programação cultural vasta que inclui produções nacionais e estrangeiras.

O Mix Brasil, que é considerado o maior festival deste tipo da América Latina e quiçá do mundo, sofreu com o corte de 40% de seu orçamento em 2019. Este valor era destinado pelo Proac, programa do governo do Estado de São Paulo que, segundo organizadores, não apoiou o festival neste ano com a justificativa de “realocação de recursos”. Por isso, o quadro de funcionários foi enxugado, assim como a duração do festival ― que de 11 dias, passou para oito.

“Festival Mix Brasil nunca foi muito fácil de organizar. Não são todas as empresas ou governos que patrocinam um festival com a temática LGBTQI+”, aponta Josi Geller, diretora executiva do festival, ao enfatizar que o corte neste ano foi realizado justamente porque o evento trata destas questões ― e foi vítima de uma espécie de “censura prévia”. “A desculpa [do governo] foi de que essa verba seria direcionada para museus e reformas de ambientes tombados. (...) É muito claro o corte e o tipo de censura que está tendo no Brasil”, aponta.

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Cena de "Que os olhos ruins não te enxerguem", que discute gênero, classe e raça dentro da comunidade LGBTQIA+ na cidade de São Paulo.

Não por acaso, a 27ª edição do festival tem como tema a persistência de quem trabalha no setor, de quem apoia e pertence à comunidade LGBT. Este tema dá continuidade à tônica do ano passado, que foi ”(R)Existo”. Em 2018, o Mix Brasil aconteceu logo depois da eleição do presidente Jair Bolsonaro, que coleciona um histórico recente de declarações homofóbicas e cuja agenda conservadora coloca em risco conquistas e pleitos da comunidade LGBT. 

Em função do que aconteceu no ano passado, e do que a gente viu acontecer com a produção do audiovisual e também do teatro hoje, entendemos que é um passo adiante da resistência. É para dizer que ’olha, não é só uma coisa passiva, de fincar o pé. A gente vai persistir na nossa caminhada”, afirma André Fisher, diretor do evento e que também está à frente da coordenação do Centro Cultural da Diversidade (CDD), localizado no Itaim Bibi, em São Paulo, ligado à Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

O ponto positivo é que, mesmo com o corte de verbas públicas, o festival coletou apoio da iniciativa privada e a programação continua vasta como nos anos anteriores ― com maior ênfase para as produções nacionais.

“E ela está bem forte esse ano exatamente para discutir e bater de frente com todo esse tipo de censura e de cortes que a gente anda sofrendo. Apesar do corte, a gente conseguiu deixar a programação toda gratuita. Essa é a maior vitória”, comemora a diretora executiva do festival.

Divulgação/Festival Mix Brasil
Cantora e compositora Marina Lima será homenageada com o prêmio "Ícone Mix", durante Festival Mix Brasil.

Cerca de 110 filmes de 26 países compõem a seleção deste ano, além das atrações inéditas de teatro, música, literatura e games que enriquecem a programação. O destaque fica para a programação cinematográfica que, com menos filmes internacionais, cedeu espaço para longas e curtas brasileiros.

Entre as produções internacionais, está o longa do “queridinho do cinema queer”, Xavier Dolan. O canadense é diretor do drama Matthias e Maxime, que conta a história de dois jovens que podem se tornar mais do que amigos e foi não só exibido em Cannes, mas levou a “Queer Palm” no evento.

Ouça o podcast do HuffPost em parceria com o Mix Brasil: 

Inédito no Brasil, o longa O Príncipe, de Sebastián Muñoz, que recebeu o Leão Queer no Festival de Veneza está na programação do Mix, assim como o filme Então Nós Dançamos, representante da Suécia no Oscar, e O Chão Sob Meus Pés, e Breve História do Planeta Verde, ambos destaque no Festival de Berlim.

Neste ano, o Mix traz o maior número de estados brasileiros já representados em sua seleção. A mostra competitiva do evento reúne produções de Goiás, Mato Grosso, Pará, Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, com temas que vão de afetividades até as lutas da população LGBTQI+.

Entre os que terão a sua première nacional no Mix estão os longas Música Para Morrer de Amor, de Rafael Gomes, que foi exibido pela primeira vez no NewFest, festival de cinema LGBT de Nova York, Uma Garota Chamada Marina, sobre a cantora Marina Lima, de Candé Salles e Transamazonia, de Renata Taylor, Débora Mcdowell, Bea Morbach, além de Eu, Um Outro, de Silvia Godinho e A Batalha de Shangri-lá, de Severino Neto, Raphael de Carvalho.

Toda a programação, que é gratuita e vai desde cinema, teatro, música e literatura, acontece de 13 a 20 de novembro no CineSesc, Spcine Olido, Espaço Itaú Augusta, Centro Cultural São Paulo, MIS, Centro Cultural da Diversidade, Biblioteca Mario de Andrade e Auditório Ibirapuera. 

Você pode ver a programação completa do Festival Mix Brasil aqui.