OPINIÃO
22/05/2019 18:51 -03 | Atualizado 22/05/2019 18:58 -03

Festival de Cannes 2019: Os filmes mais estranhos (e os mais emocionantes) exibidos até agora

Já teve horror que não é exatamente horror, sátira que não é exatamente sátira e violência que é violência.

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Cena do filme 'Little Joe', de Jessica Hauser.

O Festival de Cannes, que se encerra no próximo sábado (25), reuniu até agora alguns filmes estranhos.

Teve horror que não é exatamente horror. Caso de Little Joe, longa da inglesa Jessica Hauser sobre planta que faria as pessoas mais felizes mas atenua traços de personalidade, como um psicotrópico exagerado.

Sátira que não é exatamente sátira, como Lux Æterna, de Gaspar Noé, que volta a Cannes em grande antecipação depois do sucesso de Clímax no ano passado. Trata-se de um filme dentro do filme, com as atrizes Charlotte Gainsbourg e Béatrice Dalle interpretando elas mesmas, e discutindo - na melhor cena, talvez - o que significa ser queimada como bruxa.

Os minutos finais são quase insuportáveis - com um banho de luzes néon e ruído - o que fez muita gente sair antes do filme acabar. A gente fica sem entender se é uma crítica ou uma paródia a crenças religiosas antigas.

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Cena de "Chicuarotes", de Gael García Bernal.

E violência que é violência. O filme mais desconfortável e desagradável até agora foi Chicuarotes, estreia de Gael García Bernal atrás das câmeras, na mostra Fora de Competição. Já nos primeiros minutos, conhecemos dois palhaços, que na verdade são meninos de uma comunidade bem pobre do México. A maquiagem no rosto é gasta, então sabemos que não são palhaços bem-sucedidos. Dois minutos de quase comédia dentro do ônibus e ninguém dá uma moeda. Um dos palhaços, então, tira a arma do bolso e os assalta. A cena, aparentemente banal e repetida tantas vezes na história do cinema, é cruel nas mãos de Bernal e dá o tom do filme inteiro.

Mas a última semana também reuniu filmes emocionantes.

Bacurau, do brasileiro Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi muito bem-recebido por público e crítica, e aplaudido por vários minutos após a exibição. Espécie de ficção científica western anacrônica, a trama começa com o retorno de Teresa (Bárbara Colen) para a fictícia Bacurau em um caminhão-pipa, para ir ao enterro da avó, Dona Carmelita. Aprendemos que o acesso à água foi interrompido na cidade, e Tony, o prefeito almofadinha, tenta se reeleger à base de mantimentos vencidos e livros despejados como lixo. A comunidade tem um pouco de tudo: médicos, cientistas, professoras, putas e gigolôs. E vive em harmonia até a chegada de dois motoqueiros em roupas cor-de-rosa. Bacurau some do mapa e, aos poucos, todos perdem o sinal dos smartphones. É só o começo.

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Cena de "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Como todo grande cinema, Bacurau tem algumas cenas nunca antes vistas. Há um momento em que dois mercenários estão à espreita de Damiano – que faz os trabalhos do lado de fora da casa, nu. Um vira para o outro e diz: “Ele tinha que ser velho desse jeito, e nu?”. O que acontece depois - e eu não vou contar - vai contra as nossas expectativas e recebeu muitos aplausos. O filme concorre à Palma de Ouro e pode ser a chance brasileira, que só ganhou uma Palma até agora, em 1962, pelo filme O Pagador de Promessas. No entanto, divide os críticos internacionais - os franceses, por exemplo, acham que o filme seria muito violento.

Dor e Glória, filme de Pedro Almódovar com Antonio Banderas no papel de seu alter-ego Salvador Mallo, é outro forte candidato à Palma. Homenagem à arte cinematográfica - em uma das frases, Salvador diz que “cinema o salvou” - reúne o melhor de Almódovar, com emoção e uma performance extraordinária de Banderas. O erotismo fica restrito a duas cenas, fortes e elegantes: em uma delas, ele mostra o despertar da sexualidade de um menino de oito anos, e a sensibilidade com que foi filmada faz todo o filme valer a pena. É provável que o júri aproveite essa oportunidade para dar a primeira Palma ao diretor, que presidiu o júri em 2017.

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A Hidden Life, de Terrence Mallick, talvez seja seu primeiro filme não-fragmentário. Com a fotografia linda de toda a sua obra, conta a história de um camponês austríaco que não quer jurar lealdade a Hitler no meio da Segunda Guerra. O contraste entre o núcleo da família simples e feliz e o absurdo da guerra tem a assinatura de um grande diretor.

Já vi muitos filmes de Mallick, sempre com alguma distância - as histórias entrelaçadas e os diferentes pontos de vista normalmente me fazem perder o fio da narrativa. Nesse, temos pela primeira vez uma história do início ao fim, mas talvez a falta de conflito seja um problema.

A melhor cena não é uma grande cena, nem ambientada no cenário idílico das montanhas austríacas. O juiz pede para conversar com o personagem a sós durante o julgamento. Então pergunta se ele o julga, ao que ele responde que não. Quando ele sai da sala, o juiz senta-se em sua cadeira. No rosto, vemos a expressão de quem tenta enxergar sob a perspectiva do outro. O que, nesse caso, não precisa significar que vai mudar sua perspectiva.