MULHERES
19/09/2020 06:00 -03 | Atualizado 19/09/2020 06:00 -03

O novo romance de Elena Ferrante captura a desilusão da adolescência feminina

Em “A Vida Mentirosa dos Adultos”, uma adolescente busca em quem acreditar.

Illustration: HuffPost; Photos: Random House/Getty Images
Montagem realizada com capa da edição norte-americana do novo livro de Elena Ferrante.

Na adolescência, Giovanna Trada se apaixona repentinamente por um homem devoto chamado Roberto, um estudante de teologia que ela vê falar numa missa. Criada numa família de intelectuais seculares, ela não foi batizada e não sabe rezar, mas, arrebatada ela fé do seu novo amado, ela decide ler o Evangelho.

Mas a Palavra de Deus é uma decepção. “Comecei a ler com a ideia de que eram fábulas que me levariam a um amor a Deus como o de Roberto”, reflete. “Mas esses textos não seguiram o caminho de uma fábula, eles se desenrolaram em lugares reais, as pessoas tinham empregos de verdade, eram pessoas que realmente existiram. E a ferocidade se destacou mais do que qualquer outro sentimento. Sim, era uma história perturbadora.” Ela fica horrorizada com o Deus punitivo descrito na Bíblia, com a maneira como Jesus desrespeita a mãe, mas permite que seu pai celestial o torture sem uma palavra de reprovação. As histórias, que ela imaginou que inspirariam um amor esclarecedor e penetrante, trazem confusão e repulsa.

A Vida Mentirosa dos Adultos é a história da chegada de Giovanna à maioridade, um romance sobre a miserável e fragmentada iluminação da adolescência. As dores da puberdade compõem o núcleo das explorações ficcionais de Elena Ferrante, juntando seu olhar astuto sobre os tensos relacionamentos entre pais e filhos, a sensibilidade aos desejos físicos e às repulsões e seu interesse no amor próprio e na auto-representação. É um romance guiado pelo melodrama e pela confusão da mente adolescente, mas, como se trata de Ferrante, a história é contada de maneira clínica e resolutiva.

No começo do livro, a infância encantada de Giovanna está terminando. Ela está acostumada a ser a menina dos olhos de seu pai e o interesse mais profundo de sua mãe, mas seus pais também são casados e felizes e sempre interpretam para ela a história do seu romance. Ambos são professores e bonitos. Nella é editora de livros de ficção, enquanto Andrea é um intelectual de esquerda de pouco destaque. Os amigos próximos da família, Mariano e Costanza, têm duas filhas bonitas e cultas, Angela e Ida, suas melhores amigas.

Nos romances de Ferrante, como na vida, a adolescência é um processo degradante e traumatizante. Seu corpo começa a mudar; ela fica constrangida, um pouco alienada pelos seios que repentinamente começam a desabrochar. Suas notas estão piorando, inexplicavelmente. Um dia, quando seus pais estão falando dela e não sabem que Giovanna está ouvindo, o pai geralmente amoroso dá um diagnóstico cruel: “Ela está ficando a cara da Vittoria”.

Vittoria é a irmã distante do pai, considerada por ele uma mulher  monstruosa por dentro e por fora. Embora Andrea tenha deixado para trás a pobreza da juventude, Vittoria ainda está lá, no lugar onde eles cresceram, trabalhando como empregada doméstica. Eles se encontram tão raramente que Giovanna nem se lembra o rosto da tia. Apavorada com o fato de que seu pai, cuja aprovação é a única fonte de sua autoestima, esteja começando a achá-la horrível, ela fica obcecada em encontrar Vittoria novamente.

Os pais de Giovanna tentam tranquilizá-la, dizendo que “a cara da Vittoria” é só uma piada interna entre eles, um lembrete de como eles avançaram em relação ao passado difícil. Mas Giovanna não está satisfeita. Eles também temem, com razão, que as histórias maldosas de Vittoria sobre eles vão afastar a filha altamente impressionável.

Ela disse que eu tinha viseiras como as de um cavalo, olhava, mas não via as coisas que poderiam me perturbar.Trecho de "A vida mentirosa dos adultos"
Divulgação
Imagem da capa da edição brasileira do novo livro de Elena Ferrante, publicado pela editora Intrínseca, em setembro de 2020.

Mas Giovanna insiste, e um encontro é marcado. O problema se agrava quando ela vê a tia e, em vez de achá-la feia, pensa que ela tem “uma beleza tão insuportável que considerá-la feia vira uma necessidade”. Mesmo nessas pequenas coisas, Giovanna começa a perceber que seus pais podem não ser autoridades absolutas, que eles podem errar ou até dizer coisas enganosas, por autopreservação.

Vittoria, ao contrário, parece totalmente direta; ela ganha a confiança da jovem sobrinha conversando com Giovanna como se ela fosse uma colega, narrando em detalhes gráficos seus 11 encontros sexuais com Enzo, um amante que era casado e morreu há muito tempo. Vittoria despeja bile sobre seu irmão, que contou do caso para a mulher de Enzo, destruindo o romance e o matando de coração partido. A estranha amizade entre as duas leva Giovanna a um mundo novo e mais bruto, centrado em sua tia e sua família improvisada: a viúva de Enzo, Margherita, de quem ela acabou se tornando próxima, e os três filhos do casal, Corrado, Tonino e Giuliana. Eles moram em Pascone, um bairro de classe trabalhadora, onde a intelectualidade e o italiano refinado valorizados no círculo de seus pais são substituídos por sentimentos francos ― sexo, raiva, amor – e pelo dialeto que Giovanna sempre foi proibida de falar.

Pela primeira vez, Giovanna tem de lidar com narrativas conflitantes  ― não somente seus pais contra sua tia, mas o que seus pais lhe diziam diretamente contra as palavras duras que ela entreouviu. Andrea e Nella sempre incentivaram a filha a se dedicar aos livros. Vittoria também acredita na educação; ela diz que Giovanna tem de prestar muita atenção nas outras pessoas, principalmente nos seus pais, para ver como as coisas realmente são.

“Ela disse que eu tinha viseiras como as de um cavalo, olhava, mas não via as coisas que poderiam me perturbar”, lembra Giovanna. Vittoria quer que a sobrinha reúna evidências da deslealdade de seus pais. Giovanna descobre que sua mãe e seu pai traíram o casamento que ela tanto idealizou. Andrea sai da casa da família, e Nella definha; Giovanna fica enojada com a devassidão do pai e com a submissão da mãe.

Apesar de tudo, ela não consegue deixar de acreditar no pai. Chamá-la de feia plantou uma sementinha em Giovanna, e ela passa a acreditar que é tão feia que seria melhor abraçar a feiura. A descrição da angústia da puberdade salta das páginas, sem jamais deixar de lado a agonia das pequenas humilhações, como quando Giovanna se esforça para fazer sentido quando está cara-a-cara com sua paixão, ou as mais violentas, como quando ela descobre que um colega de escola disse que “a bunda dela também não é ruim, é só colocar um travesseiro na cara dela e será uma ótima trepada”. Giovanna começa a se comportar como uma adolescente convencional: usando roupas provocantes, sendo mal-humorada com seus pais, negligenciando a escola e flertando com meninos mais velhos. Os homens começam a olhar para seus seios. Ela fica extasiada com esse poder, mas ao mesmo tempo revoltada com a lascívia que ele provoca.

Ela se volta à autoridade de sua tia incrivelmente forte, mas também começa a questioná-la, decepcionada com um lado sentimental que estava escondido e começa a se revelar. “Talvez eu devesse ter observado minha tia com a mesma atenção com que ela disse que eu precisaria para a espionar meus pais”, pensa Giovanna. Ela teria percebido que, “por trás da aspereza que me encantou, havia uma mulher vulnerável e mole”, com “a feiura da banalidade”.

Por fim, ela olha para Roberto, menino que cresceu em Pascone e agora estuda teologia em Milão, mas é noivo da amiga mais velha de Giovanna, Giuliana. Seu objeto de estudo especial é a compunção, que ele descreve como “uma agulha que teve de puxar o fio através dos fragmentos espalhados da nossa existência, a faca que fura a consciência para impedi-la de dormir”.

Ao longo de A Vida Mentirosa dos Adultos, Giovanna procura essa agulha e essa linha. A adolescência lhe trouxe conhecimento, mas, em vez de ingressar numa narrativa adulta lindamente formada, seu mundo ruiu. Ela descobre grandes mistérios da vida adulta, mas eles só causam mais confusão. Ela descobre que os adultos mentem, mas então em quem acreditar? Ela descobre o sexo, mas como entender algo que não possa ser descrito com um único adjetivo, mas aceite “tantos – constrangedor, sem graça, trágico, feliz, agradável, repulsivo ― e nunca um de cada vez, mas todos juntos”? Há um grande abismo de autoridade em sua vida, e ela ainda não está preparada para viver sem ela.

É esse tipo de confusão que leva as pessoas à religião e, na fé de Vittoria e Roberto, Giovanna vê o potencial para a clareza. Em vez disso, entretanto, ela encontra outra história de dominação masculina e sofrimento sem sentido. Todos os caminhos parecem levar de volta à autoridade masculina ― até mesmo Vittoria, que se apega à memória das crenças de Enzo como um farol. Toda autoridade masculina parece destinada a oprimir, foder e depois foder com as mulheres.

As estruturas que ordenam a vida em torno de Giovanna, da fé cristã à academia e à família patriarcal, são todas suspeitas, mas também inescapáveis ― ou, pelo menos, cada fuga é uma fuga falsa, que leva a um novo inferno. A Vida Mentirosa dos Adultos segue uma certa trajetória circular, da maravilha da iluminação à dúvida.

Pode ser frustrante, mas Ferrante garante que nunca será chato. Essa espiral da busca por respostas tem toda a urgência de um drama em série e é pontuada por revelações chocantes. No fim do livro, Giovanna pode ainda estar procurando maneiras de costurar sua própria narrativa, mas Ferrante sabe exatamente como contar uma história.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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