POLÍTICA
24/01/2019 01:00 -02 | Atualizado 24/01/2019 01:00 -02

Fernando Holiday: ‘Criou-se uma espécie de racismo que é atacar o negro que pensa diferente’

Em entrevista ao HuffPost, o vereador e coordenador do MBL endossou críticas ao governo Bolsonaro e rebateu as possíveis contradições entre ser negro, gay, católico e de direita.

Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Negro, gay, católico, de direita, vereador mais jovem de São Paulo e um dos coordenadores do MBL (Movimento Brasil Livre), Fernando Holiday (DEM-SP) afirma que há no Brasil um novo tipo de racismo. “É como se a senzala que existia no Brasil escravocrata tivesse sido transferida para o Brasil no século 21, mas como uma senzala ideológica”, compara.

“Os negros não podem ter uma opinião que divirja muito daquilo que o Movimento Negro acredita, consequentemente daquilo que a esquerda acredita. Acho que se criou uma espécie de um novo preconceito, uma espécie de racismo que é atacar todo aquele negro que pensa de forma diferente”, argumenta um dos mais conhecidos rostos da jovem direita que tomou as ruas do País em 2015 e 2016 contra a então presidente petista Dilma Rousseff.

No país em que a taxa de homicídios de negros registrou aumento de 23% nos últimos 10 anos, segundo o Atlas da Violência 2018, Holiday resume: “Isso é inevitável porque nós temos uma maioria de negros no Brasil, então naturalmente aqueles que mais morrem seriam negros”.

Para ele, em vez de ajudar a combater o preconceito, o movimento negro acaba por reforçá-lo. Contra as cotas, o vereador defende políticas públicas de combate à desigualdade social. “Tendo uma educação de maior qualidade independentemente da cor, seja ele branco, pardo ou negro, [o pobre] conseguiria melhores empregos e assim ascender socialmente”, defende.

Holiday recebeu o HuffPost Brasil, em seu gabinete, na terça-feira (22), logo após o primeiro discurso internacional do presidente Jair Bolsonaro, em Davos. O democrata, que apoiou a candidatura de Bolsonaro, fez críticas às falas genéricas do presidente, à falta de uma justificativa convincente de Flávio Bolsonaro no caso Queiroz e ao bate-cabeça dentro da direita.

A viagem a convite do Partido Comunista Chinês foi um exemplo do “desacordo” entre novos deputados do PSL e o que o presidente pregou na campanha. Para ele, Bolsonaro precisa tomar cuidado com algumas pessoas e, “se for o caso, se afastar dessas pessoas”.

Apesar dos embates, o vereador faz um balanço positivo da atuação da direita. “A divergência política dentro da própria direita ou dentro do próprio governo, acho que pode fazer bem porque é a direita tomando espaço de discussão que deveria estar sendo ocupado pela esquerda. Nesse cenário, a esquerda acaba ficando apenas como espectador dessas brigas políticas.”

 

A seguir, leia a entrevista na íntegra:

HuffPost Brasil: O presidente Jair Bolsonaro discursou ainda há pouco em Davos. O MBL tem demonstrado afinidade com a pauta econômica do governo, o que o senhor achou?

Fernando Holiday: Foi um discurso bom, extremamente liberal, convidativo a investidores externos, mas acho que pelo fato de ter sido muito curto e genérico, com respostas também muito superficiais, pode ter deixado ainda algumas dúvidas no ar. Essa tem sido uma das marcas do presidente, com declarações mais superficiais.

Havia uma expectativa em relação à reforma da Previdência...

Como o discurso dele foi todo genérico, quando falou de reformas econômicas, ele, de certa forma, encaixou a reforma da Previdência. De qualquer forma, poderia ter sido um pouco muito mais profundo, um pouco mais longo e aí dentro desse discurso encaixaria a reforma da Previdência.

A proposta atual do governo agrada ao MBL?

Ao que tudo indica, até pelas declarações mais recentes do presidente em exercício general Mourão, acho que de fato eles vão apresentar uma reforma que procure sanar o problema para as próximas gerações. A ideia do Paulo Guedes de criar um sistema de capitalização para cada um dos servidores cuidar da sua aposentadoria mostra que a reforma realmente vai ser profunda. A sinalização do Mourão de que os militares devem entrar também é um sinal de que a reforma deve atingir a todos. Esse é um cenário muito melhor do que aquele que o próprio presidente tinha colocado na entrevista ao SBT,  quando ele disse que não ia mexer tanto na idade mínima e tinha reservas quanto a colocar os militares da reforma.

O senhor tem feito algumas críticas ao governo. Em que o presidente está errando?

Os principais equívocos são na comunicação interna do próprio governo. Acho que um dos momentos mais enfáticos disso foi quando o presidente deu uma declaração sobre reforma da Previdência e logo depois teve que ser corrigido pela sua equipe econômica, também sobre o IOF, que teve que ser desmentido por um de seus ministros. Acho que esse tipo de coisa precisa melhorar muito.Ele tem acertado principalmente com sua equipe econômica. A equipe que Paulo Guedes montou é de alta qualidade e vem trabalhando pra fazer uma reforma decente, é uma equipe experiente nessa área. Na parte econômica, definitivamente não tenho do que reclamar. Eu diria até que a maior parte de seu ministério é de figuras de alta capacidade técnica, e acho que é uma boa sinalização.

Uma das maiores defesas do MBL - e sua - foi contra PT e os esquemas de corrupção relacionados ao partido. Qual a posição do MBL neste momento em que se investiga um esquema de depósitos suspeitos para o filho do presidente eleito com a plataforma anticorrupção?

A gente cobrou as explicações do Flávio Bolsonaro da mesma forma que a gente cobraria em qualquer outro caso. Acho que ele demorou muito pra se explicar. A escritura do apartamento deveria ter vindo antes do recurso que ele apresentou ao STF. Acho que isso prejudicou muito o governo. Agora ele apresentou uma justificativa, mas ainda faltam muitas explicações. A data da escritura diverge, por exemplo. O pedido da suspensão da investigação é uma estratégia que pode até ser juridicamente bem pensada, mas politicamente é ruim pra imagem do governo. Espero que quando as investigações forem abertas, ele consiga explicar todas essas dúvidas que ainda pairam no ar.

Tem também a notícia de que Flávio Bolsonaro empregou familiares de milicianos…

Olhei bem superficialmente esse novo caso, mas ao que me parece a relação dele com o chefe da milícia é uma relação muito superficial. A ligação de fato é com Fabrício Queiroz. Acho que esse caso específico não vai atingi-lo tanto. O que gerou mais questionamentos e deixou a situação mais grave foram justamente os depósitos relatados pelo Coaf. Já relação dele com a Marielle [Franco, vereadora do PSol assassinada em 2018], acho que é uma tentativa da oposição de gerar uma relação forçada. O próprio Flávio falou que homenageia diversas figuras na área de segurança, acho que a relação é muito frágil nesse caso.

Estamos vendo um bate-cabeça dentro do grupo da renovação política do PSL. Um exemplo foi a viagem à China…

Do ponto de vista econômico e político, a gente acha que o Brasil tem que se aproximar de todos os países que estiverem dispostos a fazer negócios com Brasil, desde que respeitando a nossa soberania. Mas evidente que essa comitiva que foi a convite do Partido Comunista Chinês está em completo desacordo com o que o presidente pregou durante a campanha e em completo desacordo com aquilo que o núcleo intelectual do governo pensa. A declaração do Olavo de Carvalho, acho que foi o melhor exemplo disso, desse ponto de vista.

Essa comitiva do PSL que foi a convite do Partido Comunista Chinês, está em completo desacordo com o que o presidente pregou na campanha.

Esse embate coloca as propostas do Planalto em risco no Congresso?

O governo precisa tomar cuidado com algumas pessoas ali dentro. O advogado do Alexandre Frota, por exemplo, chegou a dar uma declaração dizendo que o governo deveria tomar cuidado com os deputados que viajaram para a China porque eles também votariam a reforma da Previdência. Ou seja, de fato, ameaçando o governo. Acho esse tipo de ameaça baixa, mesquinha, se você considerar que está vindo bem de dentro do próprio partido do presidente da República… Isso o governo realmente precisa prestar atenção, se for o caso, se afastar dessas pessoas.

Agora, a divergência política dentro da própria direita ou dentro do próprio governo, acho que pode fazer bem porque é a direita tomando espaço de discussão que deveria estar sendo ocupado pela esquerda. Nesse cenário, a esquerda acaba ficando apenas como espectador dessas brigas políticas.

Que tipo de posicionamento você esperava da esquerda?

Acho que a esquerda está fazendo suas críticas em torno do Bolsonaro, mas não estão percebendo que estão perdendo espaço no debate público. As grandes divergências que houve no governo até agora foram também com a direita. No caso do decreto sobre as armas, por exemplo, a grande discussão nas redes sociais não era esquerda versus direita, era entre uma direita que queria uma flexibilização maior e uma direita que defendia o decreto como foi feito. O mesmo caso agora com o Flávio Bolsonaro, parte da direita defendia que ele não tivesse ido ao Supremo uma parte defende a posição dele. Mais uma vez uma esquerda alheia ao debate. Nesse sentido está perdendo espaço em um governo onde eu esperava que eles tivessem tomado por completo a oposição. Estão sendo incompetentes nesse sentido; se continuarem nessa toada e o governo seguir nesse nível de popularidade, acho que vão falhar novamente em 2022.

Muita gente que discorda de seus posicionamentos, te tacha de “capitão do mato” e de “negro racista”. Como recebe esse tipo de “classificação”?

Depois de um tempo, eu comecei a perceber que de fato são declarações racistas, que é como se a senzala que existia no Brasil escravocrata tivesse sido transferida para o Brasil no século 21, mas como uma senzala ideológica. Os negros não podem ter uma opinião que divirja muito daquilo que o Movimento Negro acredita, consequentemente daquilo que a esquerda acredita. Acho que se criou uma espécie de um novo preconceito, uma espécie de racismo que é atacar todo negro que pensa de forma diferente. Por isso que eu tenho processado sempre que posso pessoas que se referem a mim como “capitão do mato”, “negro da casa” ou qualquer coisa desse tipo. Sendo aquele que está me ofendendo negro ou branco, ainda assim é uma manifestação de racismo.

Concordo que existe racismo no Brasil. Mas acredito que esses movimentos negros e essas pautas que eles defendem acabam reforçando o racismo, mais que combatendo.

Como você vê os alertas de entidades como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, que denunciam o genocídio dos jovens negros no Brasil?

Acho que isso é inevitável porque nós temos uma maioria de negros no Brasil, então naturalmente aqueles que mais morrem seriam negros. De qualquer forma, independente dos lados, concordo que existe o racismo no Brasil. Só que eu acredito que esse movimentos negros e essas pautas que eles defendem acabam reforçando o racismo, mais que combatendo.

No caso das cotas raciais, por exemplo, acho que a gente deveria começar uma agenda que de fato tratasse os brasileiros, independentemente da cor da sua pele, como iguais. A partir do momento em que o Brasil consiga tratar todos assim, naturalmente os outros preconceitos por consequência vão acabar diminuindo e seus efeitos vão acabar sendo minados.

Já que o senhor é contra as cotas, quais medidas defende para combater o preconceito?

A gente defende o voucher para educação, que é basicamente trazer o modelo educacional do Chile e que vários países utilizam. Em vez de submeter todas as pessoas que não conseguem pagar uma educação e recorrem ao ensino público — que é de péssima qualidade —, você ofereceria a essas famílias uma espécie de vale, com o qual elas poderiam pagar uma escola privada para o seus filhos ou pelo menos direcioná-los para uma escola. E esse vale-educação geraria investimento na escola, essa seria uma forma de burlar a desigualdade social e fazer com que essas pessoas consigam ascender socialmente. Tendo uma educação de maior qualidade independentemente da cor, seja ele branco, pardo ou negro, [o pobre] conseguiria melhores empregos e assim ascender socialmente. Essa é uma das formas para superar essas dificuldades.

O senhor é autor da Escola sem Partido (ESP) em São Paulo. Tanto na Câmara de Vereadores quanto no Congresso Nacional, há uma enorme resistência ao projeto. Como o senhor vê as críticas?

Pensei muito nisso até porque eu quero ser professor, estou me formando em História, mas ainda assim não vejo como a ESP restringe a ação do professor. Na prática o que o projeto propõe é colocar um cartaz na sala de aula, não implica uma nova regra. O objetivo é que o aluno e também a sua família tenham conhecimento de quais são seus direitos. O professor é uma autoridade dentro da sala de aula, não pode ser desrespeitado de forma alguma, mas ele também tem seus limites, que são chamados limites da liberdade de cátedra.

O que eu costumo dizer, como autor da ESP, é que se não for aprovado, em nenhum lugar, mas se for amplamente discutido e gerar inúmeros debate diferentes, o projeto já teria cumprido seu objetivo. O que nós queremos é que os alunos e as famílias tenham consciência dos direitos do aluno e dos deveres do professor.

 

 

O senhor é abertamente gay e católico. Como concilia a religião e a sexualidade?

A igreja tem o seu posicionamento histórico e ela não vai mudar. Acho que ninguém vai mudar até por conta de ser uma instituição fundada pela tradição, ou seja, as mudanças devem ser muito bem pensadas. Mas acho que o julgamento final vai ser algo muito individual e pessoal. Deus não vai julgar você pela foto, por algo que você fez em momentos específicos da sua vida; Ele vai te julgar pelo filme, como foi a sua vida ao todo.

Ao longo da leitura dos textos bíblicos, o que a gente percebe é que sempre há uma condenação aos pecados de uma forma geral quando essas pessoas acabam se afastando de Deus, por conta disso, portanto, deixando de amar ao próximo como a si mesmo e deixando de amar a Deus acima de todas as coisas. Então, acredito que enquanto eu não me afastar de Deus, enquanto amar o próximo como a mim mesmo e amar a Deus acima de todas as coisas, terei oportunidade da salvação, e isso [homossexualidade] definitivamente não é incompatível com o cristianismo.

O MBL vai se tornar um partido político?

O MBL vai se manter como movimento, mas a gente considera a possibilidade de ter um braço partidário. Continuaríamos nossa militância e até mesmo com certa independência em relação ao partido, mas isso vai depender de uma série de questões legais. Mudaram as regras pra montar um partido, teríamos que nos preparar e fazer uma grande operação para isso. É uma possibilidade, a gente está discutindo, mas definitivamente, independentemente de ter partido ou não, nós vamos continuar lançando os nossos candidatos e tentando implementar o que a gente defende.