MULHERES
08/07/2020 22:23 -03 | Atualizado 09/07/2020 08:41 -03

Feministas protestam contra ministros de Macron acusados de estupro e machismo

“Se você é acusado de estupro, pode se tornar um novo ministro na França”, diz manifesto de grupos de mulheres no país europeu.

“Se você é acusado de estupro, pode se tornar um novo ministro na França.” Em tom assertivo, feministas francesas repudiaram formalmente e foram às ruas em meio à pandemia do novo coronavírus para protestar contra a nomeação de dois novos ministros pelo presidente Emmanuel Macron.

Gerald Darmanin, ministro do Interior, é acusado de estupro e Eric Dupond-Moretti, ministro da Justiça, é conhecido pela de defesa de criminosos, agressores sexuais e por repudiar o movimento #MeToo.

Em comunicado divulgado nesta semana, organizações e coletivos de mulheres denunciam a escolha do governo. Em nota, elas afirmam que “não poderíamos imaginar um cenário pior” e acusam Macron de sustentar estrutura misógina.

Na última terça-feira (7), dezenas de manifestantes foram às ruas do centro de Paris, na Praça da Madeleine, utilizando máscaras de proteção e levando cartazes afirmando que o “governo não se importa com a vida das mulheres”. Outros também pediam a demissão de ambos os ministros.

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A primeira manifestação contra as nomeações foi realizada nesta semana e outros coletivos prometem continuar com a mobilização nos próximos dias.  

Três ativistas que foram identificadas como do grupo radical “Femen”, protestaram no Palácio do Eliseu, também em Paris. Uma delas estava com a frase “RIP The Promises” (Promesas, descanse em paz, em tradução livre) escrita na pele. A ação aconteceu pouco antes de Macron realizar sua primeira reunião de gabinete com a nova equipe. As três foram detidas pela polícia.

“Três anos após o #Metoo, o governo nos leva a um caminho que nos condena a uma marcha reversa”, diz texto dos coletivos feministas, publicado pelo Coletivo Nacional pelos Direitos das Mulheres na França. “As mulheres já não podem confiar na polícia ou no sistema de justiça, a sociedade as silencia e as condena a sofrer violência de uma sociedade que deixa impune agressores.” 

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“Três anos após o #Metoo, o governo nos leva a um caminho que nos condena a uma marcha reversa”, diz texto dos coletivos feministas.

Composto por 14 mulheres e 17 homens, os nomes que compõem a nova equipe ministerial do governo francês foram divulgados no início da noite da última segunda-feira (6). Macron trocou ministros de sua equipe para “dar um novo impulso” a seu mandato em meio à crise sanitária devido à pandemia.

Segundo a Reuters, o governo prevê o fechamento de 800.000 postos de trabalho nos próximos meses, o que representa 2,8% do total. A medida, que marcou a saída de políticos entendidos como “macronistas”, é vista como uma alteração do viés político do governo, que aponta para guinada conservadora.

A primeira manifestação contra as nomeações foi realizada nesta semana e outros coletivos prometem continuar com a mobilização nos próximos dias.

“Precisamos de um governo impecável, que dê o exemplo e mostre liderança. As nomeações dos ministros da Justiça e do Interior desmascaram a masculinidade da classe política dominante e desconsideram a palavra das vítimas e os direitos mulheres”, finaliza o comunicado dos grupos feministas.

Os casos de Darmanin e Eric Dupond-Moretti

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Gerald Darmanin, é um dos símbolos da direita na França e agora vai assumir um dos principais ministérios do país. Porém, também é acusado de estupro, assédio sexual e abuso de poder. Em junho deste ano, o tribunal de apelação de Paris ordenou a reabertura de uma investigação sobre uma acusação de estupro contra ele, dois anos após um juiz ter negado diligências ao caso.

Em 2009, uma jovem acusou Damanin, que era ministro da Fazenda, de estupro. Sophie Patterson-Spatz afirmou que Darmanin teria oferecido sua ajuda em um dossiê judiciário em troca de favores sexuais.

Em sua defesa, Darmanin reconheceu ter mantido relações sexuais com a jovem, mas alega que houve consentimento. Em 2017, ele abriu um processo de denúncia caluniosa contra a vítima. Segundo a Reuters, o inquérito inicial sobre as acusações foi retirado em agosto de 2018 quando os promotores disseram que não podiam estabelecer “ausência de consentimento”.

Eric Dupond-Moretti, de 59 anos, é um advogado conhecido no país europeu pelo temperamento explosivo e por defender criminosos ao longo dos anos. Ele, que já foi ministro do Orçamento na França, ganhou fama por suas declarações recentes contra o movimento #MeToo, em que mais de 80 mulheres acusaram o ex-produtor Harvey Weinstein, de assédio sexual

Entre os nomes, estão o fundador do site Wikileaks, Julian Assange; o rei do Marrocos, Mohammed VI; além de diversos políticos acusados de corrupção. Dupond-Moretti ainda virou celebridade na TV francesa, ao participar de programas em que tinha reações exageradas e acessos de raiva.

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Gerald Darmanin (ao centro), é novo ministro do Interior da França. 

Em texto, os coletivos feministas destacam declarações dele no passado. “Senhoras e senhores jurados, se o filho de vocês tocar o joelho de uma amiga dentro de um carro, isso vai ser considerado uma agressão sexual?”, questionou Dupond-Moretti. “Há homens que são predadores, talvez, mas também há mulheres que são atraídas pelo poder, que gostam disso.”

Em novembro de 2018, ele avaliou as medidas contra o assédio de rua adotadas pelo governo Macron. “Tem uma senhora bem velhinha que eu adoro e que me disse: ‘eu sinto saudades de quando assoviavam para mim’”, afirmou. ”É da educação de cada um, mas, no fundo, será que é dever do Estado regulamentar isso? Acho que não”, reiterou.

Dupond-Moretti disse à revista GQ francesa em 2019 que, embora o movimento #MeToo tenha ajudado as vítimas a falarem sobre violências, existem “mulheres loucas” que dizem “bobagens” sobre homens indefesos.

Questionado no parlamento sobre comentários controversos que fez antes de ser nomeado, Dupond-Moretti disse nesta quarta-feira (8) que não deveria ser julgado pelo que disse durante seu tempo como advogado. “Quando estou no café local, não uso gravata; na Assembléia Nacional, uso uma”, afirmou.

Em uma coletiva de imprensa após a reunião de gabinete o novo porta-voz do governo, Gabriel Attal, disse que Darmanin “merece a presunção de inocência” e acrescentou que Dupond-Moretti agiu como advogado em todos os casos.

(Com informações da Reuters, Agência EFE e HuffPost França)

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