MULHERES
13/08/2019 16:03 -03 | Atualizado 09/09/2019 19:20 -03

Por que falar em feminismo não é um consenso entre mulheres indígenas

Lideranças indígenas dizem o que pensam sobre feminismo e pelo que lutam. "Nossa luta é antes do conceito e vai ser pós-conceito."

NELSON ALMEIDA via Getty Images
Célia Xakriabá, da Apib (Articulação dos Povos Indígenas) se juntou às manifestações feministas durante a eleição de Jair Bolsonaro pedindo #EleNão.

O movimento de mulheres que lutam por seus direitos em um contexto urbano está organizado e desenvolvido de norte a sul do Brasil ― e já conta com protagonismo em diferentes espaços de poder na sociedade. Mas a realidade das mulheres indígenas é diferente; são muitas as lideranças que hoje vêm lutando para fortalecer suas comunidades e conquistar seu lugar fora dela.

Foi só depois de quase 200 anos de Câmara dos Deputados que o Brasil elegeu uma mulher indígena para deputada federal: Joênia Wapichana (Rede-RO)foi eleita com cerca de 8 mil votos em 2018. Também pela primeira vez, ano passado, a líder indígena Sonia Guajajara concorreu à vice-presidência ao lado do canditado Guilherme Boulos, do PSol.

Tanto no Congresso ou fora dele, nas aldeias, as lideranças femininas indígenas formaram linha de frente para elevar suas vozes e ocupar espaços, algo que comumente é ligado às pautas do movimento feminista ― mas falar em “feminismo indígena”, para elas, não é um consenso.

“Existem mulheres indígenas que se organizam de uma forma diferente e, talvez, para nós, isso não seja o tão falado ‘feminismo’. Então, é um tema muito delicado para ser tratado”, explica Maura Arapiun, 25 anos, coordenadora do departamento de mulheres do Conselho Indígenas Tapajós Arapiuns (CITA).

Lideranças femininas de cerca de 110 povos estão reunidas em Brasília (DF) desde o último dia 9 para um fórum e para a 1ª Marcha das Mulheres Indígenasno País, que se juntará à Marcha das Margaridas nesta quarta-feira (14). Elas querem chamar a atenção do governo de Jair Bolsonaro para causas como a demarcação de terras, acesso à educação e à saúde de qualidade.

O HuffPost Brasil conversou com três lideranças femininas de povos distintos para saber como elas enxergam o movimento feminista ― que luta por direitos iguais para homens e mulheres ― e quais são suas principais reivindicações.

Ro’Otsitsina Xavante, 34 anos

Articuladora política da Namunkurá Associação Xavante (NAX) e colaboradora da Rede Juventude Indígena. É autônoma e tem mestrado em Desenvolvimento Sustentável pela UnB (Universidade de Brasília).

UNFPA Brasil/Débora Klempous
Ro’Otsitsina Xavante é uma das lideranças femininas indígenas do cerrado mato-grossense.

″É uma questão muito particular. Porque sim, existem mulheres indígenas que são feministas. Mas também existem mulheres indígenas que não são ― que é o meu caso. Muitas pessoas pensam que eu sou feminista, inclusive, porque ‘ah, o feminismo é a questão de igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, é sobre a não-violência contra as mulheres’. Eu também acredito nessa perspectiva. Mas quando se fala de igualdade de oportunidades, nós, indígenas, temos que lembrar que isso é algo externo. Porque, talvez, internamente, essa questão pode gerar conflitos, principalmente em determinadas questões culturais. Existem rituais, por exemplo, que são só os homens que fazem. E outros que são só as mulheres. 

Mas eu também reconheço a importância do feminismo para a garantia de direitos que nós, mulheres indígenas, temos. Algumas coisas eu concordo, mas eu não me sinto uma feminista. Eu sei que existem várias vertentes e algumas mulheres indígenas que eu conheço dizem que seguem a linha do “feminismo comunitário”, que considera a questão do território e territorialidade. Só que isso é o que eu sei que elas falam, tá? Eu não sou uma estudiosa do assunto para poder debater de fato sobre o tema.

Eu também reconheço a importância do feminismo para a garantia de direitos que nós, mulheres indígenas, temos.Ro’Otsitsina Xavante

Mas, o que eu consigo observar, é que algumas mulheres indígenas, que falam que são feministas, conheceram o feminismo em espaços acadêmicos e conversam sobre a questão em um contexto urbano e não em realidades da comunidade, de fato. Então, para mim, isso é complicado. Levar essa perspectiva do feminismo na comunidade ali, do dia a dia, é diferente, sabe?

Porque eu até penso, se o próprio feminismo fala a questão dos direitos humanos da mulher... eu acredito que quem deve falar se eu sou feminista ou não, sou eu; e não o outro simplesmente querer me enquadrar em determinada vertente porque a minha ação é igual ou parecida com a atuação feminista.

Qual a necessidade de dizer se o movimento indígena é feminista ou não? Vai mudar algo, de fato? O que eu observo ― isso eu, não outras mulheres indígenas ― é uma pressão externa muito grande em relação a isso. Mas é mais do que uma questão da própria mulher se ela se considera ou não feminista.” 

Maura Arapiun, 25 anos

Coordenadora do departamento de mulheres do Conselho Indígenas Tapajós Arapiuns (CITA) e uma das organizadoras da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas. 

EVARISTO SA via Getty Images
Mulheres indígenas marcham por "nosso corpo, nosso território", em Brasília.

“Nós temos nossos modos diferentes de se organizar, pensamentos e opiniões diferentes quanto a algumas temáticas, mas nos encontramos quando nós falamos de nossos direitos enquanto mulheres indígenas. E, enquanto mulheres, independente de ser indígena, quilombola ou branca, a gente fala dos nossos direitos.

Quais são esses direitos? O meu direito de viver, de fazer aquilo que eu me sinto bem. É nesse momento que a gente se encontra. E, principalmente, na defesa do nosso território. A gente se encontra quando fala de saúde, de violência contra a mulher ― mesmo que tenha uma abordagem diferente. Porque independente de ser indígena ou não, o nosso território, por si só, enquanto mulher, ele está ameaçado. 

Dentro do próprio movimento indígena existem parceiras mulheres que não fazem parte desse grupo [que luta por direitos], mas que nos entendem. E a gente acaba entendendo uma a outra. É sobre isso também. Na maioria das vezes, a gente acaba passando pela mesma situação. A gente precisa construir mais laços com essas mulheres; embora a gente venha de uma cultura diferente, embora a gente venha de um modo de se organizar diferente.

Nós, mulheres, nos organizamos de uma forma diferente. Enquanto mulheres indígenas guerreiras. Isso nós somos.Maura Arapiun

Eu não posso falar de movimento [feminista]. Nós, mulheres indígenas, nos organizamos de uma forma diferente. Não posso falar em movimento indígena feminista porque a gente não entende isso como existência. Mas é uma discussão muito pertinente para nós enquanto mulheres indígenas; porque a gente ainda precisa entender muito esse processo de “ah, existem mulheres indígenas feministas”.

Existem mulheres indígenas que se organizam de uma forma diferente e, talvez, para nós, isso não seja o tão falado ‘feminismo’. Então, é um tema muito delicado para ser tratado. Eu não posso falar que existe [feminismo indígena] enquanto a minha opinião, eu não tenho liberdade para falar isso. Essa construção de movimento feminista indígena tem que vir na base. E a minha base não compreende isso. Nós, mulheres, nos organizamos de uma forma diferente. Enquanto mulheres indígenas guerreiras. Isso nós somos. 

Hoje a gente vem fortalecendo muito essa questão: mulher indígena na política, mulher indígena ocupando seu espaço dentro da sociedade. Ela ser protagonista de sua própria história. Nós estamos lutando por nossos direitos, pelo nosso espaço, construindo junto com nossos parceiros, guerreiros e assim, sucessivamente. A gente vai ocupando todo esse espaço criando a nossa própria história.”

Célia Xakriabá, 30 anos

Membro da coordenação da Apib (Articulação dos Povos Indígenas) e única indígena a cursar doutorado na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) 

Reprodução/Facebook/celia.xakriaba
Célia Xakriabá é a primeira de seu povo a ter um mestrado. Ela está à frente da organização da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas.

“Eu vejo que quando uma pessoa se reafirma como feminista em um contexto mais urbano da luta social em geral, quando ela fala ‘feminista’, ela pode se definir como feminista sozinha. Mas nós, indígenas, quando eu digo ‘feminista’, eu, enquanto Célia Xakriabá, não me consideraria ‘feminista’ sozinha. Por isso que é difícil. Em nenhum momento eu me reafirmei nesse lugar do conceito.

O que eu digo é que nós, mulheres indígenas, lutamos pelo direito territorial, pela igualdade. Porque, para mim, não existe direito de igualdade se não existe a garantia do nosso vínculo com a terra. Então, é uma discussão complexa.

Eu digo que a nossa luta é antes do conceito e vai ser pós-conceito.Célia Xakriabá

Quando as pessoas falam assim ‘ah, mas tantas coisas que vocês lutam que estão alinhadas com essa potência do movimento feminista’, eu digo que a nossa luta é antes do conceito e vai ser pós-conceito. Então, mesmo nós, mulheres indígenas, precisamos discutir isso e entender outros jeitos de chamar essa luta dialogando com mulheres que estão no território. Porque, na maioria das vezes, as mulheres mais velhas, elas nem conhecem esse conceito e para elas se definirem nesse lugar é preciso ter profundidade.

Existem algumas mulheres indígenas, principalmente as que estão nas universidades, que se reafirmam nesse lugar, como feministas. Mas, enquanto mulher que está nesse coletivo, dizer que nós nos definimos em um conceito... Eu ecoo a voz da outra e posso dizer que não existe um único jeito de chamar. Existem vários outros jeitos de se unir na luta.”