MULHERES
27/07/2019 13:00 -03 | Atualizado 27/07/2019 13:40 -03

Por que o assassinato de Sara Emanuele pelo padrasto é um feminicídio

Faz uma semana que menina de 9 anos desapareceu em Londrina (PR). Pedreiro confessou ter estuprado e matado enteada.

Reprodução/Arquivo Pessoal
Sara Emanuele Martins foi encontrada morta na zona leste de Londrina.

Faz exatamente uma semana que a menina Sara Emanuele Martins desapareceu em Londrina, no norte do Paraná. Ela sumiu “misteriosamente” de sua casa na manhã de sábado (20), enquanto o padrasto tomava banho. Um dia depois, o corpo da criança foi encontrado em um fundo de vale com sinais de estrangulamento e ferimentos nas partes íntimas.

Na segunda-feira (22), policiais desvendaram o caso: Machado confessou ter estuprado e matado a menina. Ele responderá pelos crimes de abuso de vulnerável e feminicídio.

O comportamento do acusado chamou a atenção durante os depoimentos, de acordo com o delegado-chefe da 10ª Subdivisão Policial de Londrina, Osmir Ferreira Neves Junior.

“Ele relatou o episódio de forma muito natural”, explicou o delegado ao HuffPost. “Trata-se de um caso de feminicídio típico, já que o autor faz parte do contexto familiar. Foi um crime chocante.”

Já fazia oito anos que Machado morava com Sara e era o responsável pela educação e criação da menina ao lado da mãe dela. É a vulnerabilidade da garota dentro de casa, dependente do padrasto, que levou Osmir Ferreira ao entendimento de que o crime teve um recorte de gênero. 

Em depoimento à Polícia Civil, Sandro de Jesus Machado admitiu o estupro ocorrido em um fundo de vale no Jardim Abussafe 2, na zona leste de Londrina. Ele ofereceu R$ 5 para que Sara Emanuele não contasse à mãe dela.

Diante da recusa da enteada, o pedreiro decidiu esganá-la. “Eu estuprei ela e depois dei dinheiro para ela não falar nada. Só que aí, depois, ela falou que ia falar com a mãe. Aí, eu fiz essa loucura de matar. Fiquei com medo das consequências”, afirmou aos policiais.

Machado foi preso em flagrante e encaminhado à Penitenciária Estadual de Londrina. A Justiça determinou prisão preventiva e, com isso, ele vai permanecer em cela isolada por tempo indeterminado.

Divulgação/Polícia Civil
Sandro de Jesus Machado teve prisão preventiva determinada pela Justiça.

Mobilização por Sara Emanuele

De acordo com o boletim de ocorrência, a mãe de Sara saiu logo pela manhã e deixou a menina aos cuidados do companheiro. Machado teria levado a menina para buscar “vasilhames” e também comprar galinha para um churrasco. Retornou à casa, por volta das 10 horas, e foi tomar banho. Ao sair do banheiro, disse não ter visto mais a enteada.

Moradores do Conjunto Alexandre Urbanas, na zona leste de Londrina, se organizaram para encontrar a garota no fim de semana passado. Chegaram a procurá-la em diversos terrenos. Mas coube à mãe de Sara elucidar o caso. 

Resolveu chamar a polícia ao constatar respingos de sangue na parede do banheiro e ver a camisa do companheiro suja de terra e “com marcas de dedos”. “Não queria acreditar inicialmente, mas a verdade apareceu”, afirmou ao HuffPost a mãe de Sara Emanuele, pedindo para não ser identificada. 

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Divulgação/Prefeitura Municipal de Londrina
Assassinato de Sara foi terceiro feminicídio em Londrina deste ano e chocou população da cidade.

Feminicídios no Paraná

O assassinato de Sara Emanuele Martins é considerado o terceiro caso de feminicídio neste ano em Londrina. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Paraná, no primeiro semestre de 2019 foram registrados 38 feminicídios em todo o estado.

Em 2015, o Código Penal Brasileiro incluiu a Lei 13.104, que tipifica o feminicídio como homicídio em função do gênero. Quando um assassinato é caracterizado assim, o crime é considerado hediondo – a pena prevê de 12 a 30 anos de reclusão, uma pena mais dura para o agressor.

Desde que a lei entrou em vigor, o Sistema de Registro e Gerenciamento de Procedimentos do Ministério Público do Estado do Paraná registrou 777 inquéritos policiais referentes a feminicídios, entre tentativas e crimes consumados.

Já a Central de Atendimento à Mulher (180) registrou mais de 200 protocolos de atendimento sobre feminicídios e tentativas no Paraná entre janeiro de 2018 e junho de 2019.

Neste ano foi celebrado, pela primeira vez, o Dia Estadual de Combate ao Feminicídio no Paraná. A data foi instituída por meio da Lei 19.873/2019 no dia 22 de julho, dia em que a advogada Tatiane Spitzner foi encontrada morta, em 2018, após queda do 4º andar do prédio em que morava na cidade de Guarapuava, no sul do estado. O marido foi acusado pelo Ministério Público no Paraná de cometer crime de feminicídio e irá a júri popular.