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15/03/2019 15:18 -03 | Atualizado 15/03/2019 15:18 -03

Após viver 4 dos 8 anos de guerra na Síria, Fatima refez sua história no Brasil

Conflito completa 8 anos nesta sexta (15), com mais de 5,6 milhões de refugiados e 6 milhões de pessoas deslocadas dentro da Síria.

Divulgação/Flavio Maneira/Acnur
Fatima morava com seus três filhos mais velhos e o marido em Aleppo, no norte da Síria.

*Texto de Nina Borges, da ACNUR.

Fatima tem 42 anos e cinco filhos. Quatro meninos, Hussen, 21, Mohamde, 20, Lawand, 15, Laith, 7, e uma menina, Simaf, de 4 anos, que nasceu no Brasil. Eles moram há 4 anos em São Paulo, onde estão reconstruindo suas vidas dia após dia. “Graças a Deus a gente conseguiu, eu consegui trazer meus filhos, isso é o importante da vida. O importante é que as crianças estão todas bem.”

Fatima morava com seus três filhos mais velhos e o marido em Aleppo, no norte da Síria. Sua família era dona de uma fábrica de roupas e ela trabalhava no negócio da família, como costureira. Descendente de uma família curda, ela chegou a dar aula de árabe para os familiares que chegavam na sua cidade e não sabiam falar a língua. Na época, a vida era um paraíso, como ela mesma define. Até a guerra começar.

“Eu amava aquela cidade. Você olhava e podia ver os anos de história. Eu passeava muito. Tinha os castelos de Aleppo, com mais de 7 mil anos. Eu sempre ia lá, porque, da casa da minha família, você conseguia ver o castelo bem longe. Era a cidade que eu mais gostava da Síria, eu amava. E no interior de Aleppo minha família plantava azeite, uva, algodão, trigo, pistache.” 

No início, ela acreditava que tudo ia passar, mas seu marido a abandonou por conta da guerra e levou seus dois filhos mais velhos, que na época tinham 12 e 13 anos. Fatima ficou sem notícias das crianças até que um dia um conhecido da família contou que tinha visto os meninos em um bairro, morando na rua.

Era a cidade que eu mais gostava da Síria, eu amava. E no interior de Aleppo minha família plantava azeite, uva, algodão, trigo, pistache
Divulgação/Flavio Maniero/Acnur
A crise na Síria continua a ser a maior crise de deslocamento no mundo e atingiu a história de Fátima.

“Ele deixou meus filhos na rua. Meus amigos me contaram que ele tinha deixado as crianças na rua. Meu filho quase morreu até minha família conseguir encontrá-los. Ficaram nessa situação por seis meses.”

A crise na Síria continua a ser a maior crise de deslocamento no mundo. Mais de 12 milhões de pessoas tiveram que deixar suas casas: metade da população. São 8 anos de guerra, mais de 5,6 milhões de refugiados sírios registrados e mais de 6 milhões de pessoas deslocadas dentro da Síria.

A esperança de que os conflitos fossem passageiros foi grande por muito tempo, até que ela não aguentou mais. Sozinha e com o filho de 8 anos para cuidar, Fatima conheceu seu atual marido. Por um tempo, ele morou na Jordânia enquanto ela continuava na Síria. Mas o conflito foi se agravando e eles decidiram viver todos no mesmo lugar.

“Eu estava grávida e era perigoso. No meu bairro, todo mundo fugiu. A minha mãe não queria sair de casa, eu morava perto dela, mas liguei para o meu marido e sai de lá. Peguei meu filho e a gente fugiu para a Jordânia.”

Quando entrei no consulado brasileiro, nos receberam com um alegre: 'Oi, bem-vindo!'. Eu não esqueço esse momento
Divulgação/Flavio Maniero/Acnur
Fátima mora há 4 anos em São Paulo, onde está reconstruindo sua vida dia após dia.

A família viveu na Jordânia por 4 anos, esperando que a guerra acabasse. Sofreram muita discriminação no país. Seus dois filhos mais velhos, depois que foram reunidos a ela, precisaram trabalhar para ajudar a sustentar a família. Apenas o mais novo estudava. Tudo era muito caro e eles viviam em condições precárias, apertados em um cômodo. Se sentindo sem saída, foram até a embaixada brasileira.

“A gente queria sair da Jordânia por causa dos estudos do meus filhos, a gente queria dar uma vida melhor para eles. Fomos no consulado da Austrália, da Suíça, da Armênia: todas pessoas secas. Quando entrei no consulado brasileiro, nos receberam com um alegre: ‘Oi, bem-vindo!’. Eu não esqueço esse momento.”

Chegar ao Brasil não foi fácil. Fatima conta que eles queriam ir para um lugar onde tivessem família, e não conheciam ninguém aqui. Mas hoje já se adaptaram, todos os filhos estão estudando e os 2 mais velhos estão fazendo curso superior, de enfermagem e comissário de bordo.

“Quando entendemos a cultura daqui, a gente se acostumou mais. Agora meus filhos amam arroz e feijão, e eu tenho que fazer. Mas no início a gente pensava ‘por que sempre arroz e feijão?’. Agora nos acostumamos, mas só uma vez por semana - todo dia, como os brasileiros, não dá”, completa rindo.

Aleppo está destruída. Meu bairro, Ashrafieh, não existe mais, está completamente destruído
Divulgação/Flavio Maniero/Divulgação
Os filhos de Fatima já se adaptaram ao Brasil. Todos estão estudando e os dois mais velhos fazem curso superior.

Até 2017 havia 2.770 refugiados sírios no Brasil. Eles são o maior grupo dentre os solicitantes de refúgio que já tiveram seus vistos reconhecidos.

Fatima traz os sabores e aromas que sente falta para o dia a dia da família. Sua saborosa comida também é desfrutada pelos brasileiros, que fazem encomendas de salgados e doces com ela. Assim, consegue gerar uma renda extra para ajudar a família.

As receitas da mãe a ajudam a lidar com a saudade de uma casa que não existe mais. Seu bairro foi bombardeado e restaram apenas destroços. Dói saber que seu lar não está mais lá. Quando lembra da guerra, se entristece.

“Aleppo está destruída. Meu bairro, Ashrafieh, não existe mais, está completamente destruído. A minha mãe está na Síria ainda, mas em outro bairro”, diz.

“Agora lá é assim: eles entram nas casas, limpam e as pessoas podem morar até o dono voltar. Se o dono chega, a pessoa tem que sair e ir para outra casa que esteja vazia. Isso é vida?”, questiona.

Fatima diz que sua mãe não aguenta mais ficar no País. “Antes a minha mãe era gorda. Agora, se você olhar para ela, está muito magra. Às vezes é difícil falar com eles porque é muito triste, e você acaba ficando triste também.” 

 

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

O ACNUR atua na emergência da Síria desde o começo. Somos a principal agência da ONU em proteção, abrigo, serviços comunitários e distribuição de itens essenciais dentro da Síria. Mas não é só isso: estamos ao lado dos refugiados em todos os passos da sua jornada. No Brasil, apoiamos através de nossos parceiros locais cursos de português, revalidação de diploma, documentação, atuando para que as famílias se integrem e tenham a chance de viver em melhores condições.

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