Tamo Junto

Assim como Harry e Meghan, às vezes se distanciar da família pode ser necessário

A verdade é que todos poderíamos nos beneficiar do exemplo do duque e da duquesa de Sussex.

Desde que virou a duquesa de Sussex, Meghan Markle vem dando um exemplo e tanto. Como mulher americana birracial, ela modernizou a monarquia britânica. Através de organizações de caridade, ela trabalha em defesa das mulheres. Meghan desmontou mitos sobre a gravidez depois dos 35 anos.

Agora ela e seu marido, o príncipe Harry, estão demonstrando como cuidar da própria saúde mental, mesmo quando isso implica adotar algumas mudanças difíceis com relação à própria família.

Você já deve saber que o duque e a duquesa de Sussex anunciaram em sua página no Instagram que vão “recuar um passo como membros seniores da família real” para assumir um papel novo e progressista em sua família. Em meio às especulações sobre o que está acontecendo, não sabemos de todos os detalhes sobre a decisão que tomaram, mas uma coisa está clara: eles estão definindo alguns limites.

Tudo bem passar menos tempo com seus pais se essa é uma relação tóxica. Tudo bem se mudar para o outro lado do planeta e começar a ignorar seu pai. Tudo bem casar-se com um príncipe e ensinar a ele o que são limites. Tudo bem desmontar uma dinastia porque eles são colonizadores tóxicos. Faça o que for preciso para lidar com a situação.

Brincadeiras à parte, é um passo muito válido. Embora o caso de Meghan e Harry seja singular e único, considerando que eles vivem com a família real e tudo o mais, o que eles estão passando não é tão raro assim. A maioria de nós provavelmente já enfrentou alguma dinâmica familiar complicada em algum momento da vida.

Definir limites claros perante seus familiares – dizer a eles o que você aceita e com o que se sente bem e o que não aceita – nem sempre é muito fácil, mas no longo prazo vai deixar sua vida (e a deles) muito mais tranquila.

Entenda por que precisamos de limites

Quando somos crianças e adolescentes, nossos pais ou responsáveis mandam na nossa vida. São eles que tomam as decisões, enquanto nós temos que aceitar. Mas quando nos tornamos adultos começamos a adquirir independência e vida própria.

“Recebemos informações da família, mas também as recebemos do mundo. Digerimos todas essas informações e as aplicamos a quem somos. E começamos a aprender mais sobre nós mesmos no contexto de tudo isso”, explicou a psicoterapeuta Mayra Mendez, coordenadora do programa de deficiências intelectuais e de desenvolvimento e serviços de saúde mental no Centro Providence Saint John de Desenvolvimento Infantil e Familiar.

À medida que vamos ganhando uma compreensão maior do mundo que nos cerca e de como nos encaixamos nele, vamos desenvolvendo uma ideia mais forte do que representamos e do que nos define. Para satisfazer nossos desejos e necessidades, gostos e desgostos, talvez precisemos fazer alguns ajustes – ou seja, definir alguns limites – para podermos viver da maneira que nos sentimos confortáveis.

Como estamos constantemente aprendendo mais sobre nós mesmos, mesmo na velhice, esse processo nunca termina realmente, disse Mendez. À medida que evoluímos e nos transformamos, nossas necessidades também evoluem, e isso nos leva a uma busca constante para encontrar o nosso verdadeiro eu no mundo.

O duque e a duquesa de Sussex anunciaram esta semana que vão recuar um passo como membros da família real para encontrar um papel novo.
O duque e a duquesa de Sussex anunciaram esta semana que vão recuar um passo como membros da família real para encontrar um papel novo.

Sem limites, o ressentimento só cresce

Pense em alguma vez que alguém passou do limite. Isso frequentemente acontece quando uma pessoa impõe uma obrigação à outra ou a obriga a atender à sua expectativa. Talvez seus pais esperassem que você comparecesse para o almoço todo domingo, sua irmã tenha feito pressão demais para você ser alguém que não é, ou talvez seu companheiro tenha lhe imposto seus pontos de vista políticos.

Quando outra pessoa vive constantemente lhe mandando comportar-se ou agir de determinada maneira, isso pode ser estressante. Esse esforço para equilibrar as necessidades e os desejos de outras pessoas com as suas necessidades e desejos pode acabar gerando culpa e ressentimento crescentes. Sem um limite sadio que diga basicamente “ei, pare aí mesmo, isso me deixa super incomodado”, as emoções negativas vão crescendo e se acumulando até passar do seu limite.

“Quando você se sente culpado por alguma coisa – algo que no seu íntimo você não quer realmente fazer ―, o ressentimento começa a crescer, você começa a se afastar da família, a rejeitar a família, a falar com ela com raiva. Sentimentos negativos de todo tipo vêm à tona”, disse Mendez.

Jessy Warner-Cohen, psicóloga sênior da Northwell Health, explicou que fugir do problema é uma das piores atitudes a tomar. Não apenas isso não resolve nada e leva a mais ressentimento, como, ao longo prazo, acaba prejudicando e sabotando o relacionamento. Suas necessidades são tão importantes quanto às de seus familiares. Logo, quaisquer divergências precisam ser encaradas de frente.

Limites sólidos começam com diálogos honestos

É aqui que entram em jogo os limites sadios e justos. Mas antes de começar a construir muros, você precisa identificar o que está funcionando bem para você e o que não está.

“Primeiro a pessoa precisa se olhar – olhar no espelho”, disse Mendez. A partir do momento em que você já identificou a questão em jogo, procure determinar o que está te incomodando e o que precisa mudar para que sua vida e a de sua família possam ficar em sintonia.

Lembre-se que os limites funcionam nos dois sentidos, e o engajamento envolvido é enorme, disse Mendez. Não basta simplesmente determinar o que é melhor para você e achar que isso já resolverá tudo. É preciso conversar com seus familiares sobre o que está acontecendo e cooperar com eles para que vocês encontrem uma solução juntos. Procure ser aberto e colaborativo, não agir por baixo do pano ou fazer pouco caso de seus parentes.

Warner-Cohen recomendou que você explique seu raciocínio e faça sugestões práticas sobre como avançar (por exemplo: “não consigo almoçar com vocês todo domingo, mas uma vez por mês seria viável. O que vocês acham?”).

Segundo Warner-Cohen, “o difícil quando se negociam as divergências com relação aos limites é que pode haver incongruências”. No caso de algumas pessoas, seu senso de limites, mesmo dos mais tóxicos, pode estar totalmente integrado à sua identidade (e cultura, como no caso de Meghan e Harry), de modo que essa discussão pode exigir paciência e disposição para negociar.

Idealmente, sua família vai reagir de maneira receptiva e vocês conseguirão definir alguns limites que funcionem para todos. Em última análise, você tem que fazer o que sente que é o certo. Seja compreensível, mas sempre siga sua intuição.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.