LGBT
11/05/2020 06:00 -03

Eles nos questionam sobre o pai, e nós explicamos que nossa família tem duas mamães

O 10º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é da produtora cultural e empresária Marcella Guttmann, que conseguiu amamentar, com sua ex-esposa, os gêmeos gerados pelas duas.

Divulgação/Arquivo Pessoal
A produtora cultural Marcella Guttmann amamenta seus filhos gêmeos gerados com a companheira.

Desde os 12 anos me entendo gay, porém sempre soube que teria filhos independentemente da minha orientação sexual. Tinha uma intuição muito forte e uma voz gritando dentro de mim que me garantia a realização na maternidade. Sempre desejei profundamente ser mãe e ter alguém pra cuidar, criar e encaminhar na vida.

Fui casada por 18 anos com uma mulher e, depois de 11 anos de relação, já tínhamos duas cachorrinhas e nossa rotininha estabelecida, mas faltava alguma coisa; queríamos uma família de verdade. Cheguei a entrar na fila da adoção pelo Fórum de Pinheiros, mas na mesma época a minha esposa começou a sentir muita vontade de engravidar, gestar e amamentar. Sentimos como se fosse um chamado do corpo dela aos 36 anos para a concretização dessa etapa. 

Foi então que procuramos a Dra. Betina Bitar, obstetra, e falamos da nossa vontade de fazer uma fertilização in vitro (FIV) com meus óvulos e o espermatozóide de um doador desconhecido de algum banco de sêmen brasileiro. Dra. Betina nos encaminhou ao Dr. Waldemar Ferreira, que imediatamente abraçou a causa e fez a coisa acontecer.

Fizemos a nossa união estável, compramos um apartamento para caber a nova família e seguimos com o processo de FIV. Felizmente conseguimos na primeira tentativa e fomos agraciadas com dois meninos. Foi uma gestação linda e sem intercorrências.

Os meninos nasceram prematuros com 34 semanas, ficaram amadurecendo na maternidade por 12 dias, quando então vieram pra casa para começarmos nossa jornada. Foi a melhor fase das nossas vidas. O planejamento, a FIV, a gestação, o nascimento e enfim receber nossos príncipes na nossa casa.

A prolactina aumentou e consegui amamentar as crianças junto com a minha esposa até os 9 meses... Costumávamos brincar que o meu leite era aperitivo para eles e o da minha esposa, a refeição completa.

Antes mesmo de a minha esposa dar à luz os meninos, comecei um “tratamento” para conseguir amamentar. Tomei uma medicação que tem como efeito colateral o aumento absurdo de prolactina e assim foi... A prolactina aumentou e consegui amamentar as crianças junto com a minha esposa até os 9 meses.

O meu leite não era tão nutritivo, nem em grande volume, mas pude viver essa experiência mágica e transformadora que é a amamentação. Costumávamos brincar que o meu leite era aperitivo para eles e o da minha esposa, a refeição completa. 

Sentimos muito acolhimento dos nossos amigos e familiares, embora a família da minha esposa nunca tivesse aceitado nossa união por ser uma relação homoafetiva. Essa parte desta linda história fui muito dura e muito triste, mas nossos amigos e demais familiares preencheram nossos corações com apoio, carinho e acolhimento.

Quando a gente vira mãe, eu acho que o vetor do amor que anteriormente seria prioritariamente para os nossos progenitores, se muda e se potencializa para os filhos. 

A relação do casal se fortificou muito nesse período e fomos tomadas de uma sensação muito confortável de ter nosso ninho com nossos passarinhos. Claro que houve mudanças. Antes de ter filhos, não tínhamos hora marcada para as refeições, a rotina era mais maleável, éramos livres e soltas nas nossas escolhas e decisões.

Quando virei mãe, a responsabilidade e o compromisso com a saúde, sustento e felicidade dos nossos filhos se tornou meu guia, meu horizonte e minha batalha diária desde então. Hoje temos horários para as refeições, a rotina é mais apertada e o vínculo com esses seres de puro amor nos alimentam dia a dia, cada vez mais. 

Atualmente, nossos pequenos estão com 7 anos cursando o segundo ano do ensino fundamental. Fizeram o processo da educação infantil numa escola Waldorf bem pequenininha e atualmente estudam numa escola enorme, com tradição de 65 anos. Uma escola com tradição, mas não tradicional. Eles são muito queridos pelos coleguinhas da escola e professores. Acompanham os processos de aprendizado com muita facilidade e tranquilidade.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Marcella e os gêmeos, hoje com você 7 anos.

Me divorciei há cerca de um ano e meio. Moramos na mesma rua, o que facilita toda a logística com as crianças. Optamos por guarda compartilhada e dividimos todas as tarefas e demandas deles. São nossos grandes companheirinhos, além de serem meninos muito amorosos, cordatos, educados e generosos. 

Eventualmente eles nos questionam sobre a figura do pai e, com toda a leveza e inteireza, conversamos sobre isso e explicamos que nossa família não tem papai e sim duas mamães. 

Sabemos que esse assunto será trazido à tona diversas vezes na nossa vida e temos muita tranquilidade para acolhê-los e compartilhar com eles essa diferença na nossa formação familiar. 

Agradeço todos os dias por tê-los na minha história e por todo amor que eles me trazem e despertam em mim. Eles são o melhor de mim, minha obra-prima, meu coração fora do peito.

Marcella Guttmann é dona do 10º depoimento do projeto Prazer, Sou Mãe. Ela tem 44 anos, é produtora cultural e empresária do ramo de cafés especiais. É paulista e mora em São Paulo, na zona oeste.