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01/04/2019 18:10 -03

Ministério desmente principais fake news sobre saúde que circulam nas redes

Ministério criou um canal no WhatsApp para desmentir boatos que colocam a saúde da população em risco.

cbies via Getty Images

Quantas vezes você já recebeu uma notícia alarmante sobre uma nova droga, nova doença ou cura milagrosa nas redes sociais, principalmente no aplicativo de mensagens WhatsApp?

Nestes momentos o dedo chega a tremer para repassar as informações aos contatos mais próximos. Se você já fez isso sem checar a fonte oficial da notícia, você possivelmente caiu em uma “fake news” - ou seja, as mentiras propagadas nas redes sociais. 

As fake news foram debatidas principalmente no campo político - como no caso das eleições dos Estados Unidos e no Brasil -, mas elas também são muito compartilhadas quando o assunto é saúde e geram preocupação a ponto de o Ministério da Saúde ter criado um canal nas redes sociais para combater tais notícias falsas. 

O serviço “Saúde sem Fake News”tenta desmistificar informações alarmistas e falsas sobre assuntos muito sérios, que podem afetar a saúde do brasileiro ― desde dietas milagrosas que “curam” o câncer até o mito de que vacina causa autismo. Para isso, o ministério disponibiliza um número de WhatsApp para conversar com a população, recebendo notícias de usuários brasileiros e tirando dúvidas sobre sua veracidade. 

“Sabemos que o Twitter e o WhatsApp são as redes em que usuários mais propagam fake news”, conta Ana Miguel, coordenadora do Núcleo Multimídia do Ministério, uma das funcionárias que encabeçaram o projeto. “O Twitter é possível monitorar, mas o WhatsApp não, e é lá que se propaga muita coisa falsa, por saber que há anonimato. Então tivemos a ideia de ir para essa plataforma. Já que a gente não consegue monitorá-la, a gente precisa estar lá e evitar esse compartilhamento.”

Segundo Ana Miguel, boatos sobre saúde sempre aconteceram (quem nunca caiu naquele de que tomar leite com manga faz mal?), mas, nos últimos anos, o ministério verificou que algumas fake news estavam mudando o comportamento da população e, consequentemente, afetando a saúde não só de adultos, mas principalmente de grupos de risco, como crianças, idosos e doentes. 

Um caso emblemático nos últimos anos foi o mito de que vacina dá autismo em crianças. 

“Das publicações monitoradas sobre o movimento antivacina, 66% deste conteúdo viral vem de pessoas que não fazem parte deste grupo”, constatou. 

“Tem chamado a nossa atenção o aumento destas histórias e, por causa delas, um comportamento prejudicial para a saúde. Não é possível afirmar que diminuiu a cobertura vacinal por causa das fake news, mas existe uma conjuntura de casos, que envolvem desde alianças políticas e fake news do movimento antivacina, que reforça inverdades”, conta Ana Miguel.

Outro caso que causou preocupação aos profissionais de saúde foi o número crescente de pessoas em combate a um câncer que recorreram às “dietas milagrosas” ou baniram completamente grupos de alimentos por acharem que eles alimentariam células cancerígenas.

Em fevereiro deste ano, o HuffPost Brasil conversou com o INCA (Instituto Nacional do Câncer), que fez um alerta sobre o perigo destas dietas que “curam o câncer”. 

Segundo Ana, o Ministério da Saúde sempre atuou como fonte segura de informação em casos pontuais, como o surto de Ebola anos atrás, mas percebeu que era preciso combater as fake news de forma mais ativa. E foi assim que o serviço de WhatsApp foi criado. 

Diferente de um SAC ou de um FAQ, o serviço é um canal para tirar dúvidas de usuários, que receberam informações pela plataforma.

O canal funciona assim: qualquer usuário pode mandar uma “notícia suspeita” (que pode ser em formato de vídeo, mensagem de voz, foto ou notícia em um link) para o número do canal e as informações serão apuradas pelas áreas técnicas e respondidas oficialmente se são verdade ou mentira - tanto para a pessoa quanto no site do canal.

“Uma forma a mais de evitar o uso da má fé foi criar um carimbo ‘selo verdadeiro’, que significa que a notícia é verdadeira, e ‘selo falso’, que ela é falsa”, disse a coordenadora, acrescentando que qualquer pessoa pode enviar gratuitamente mensagens para confirmar se a informação procede, antes de continuar compartilhando. 

Desde agosto do ano passado, quando o canal foi lançado, o Saúde sem Fake news recebeu mais de 7 mil mensagens, sendo 6,5 mil respondidas e 1,118 mil devidamente apuradas.

A diferença entre os números, segundo Ana Miguel, é por causa do intuito das mensagens. “Esse canal é estrito para receber fake news, mas a maioria das mensagens é reclamação ou denúncia, e não respondemos isso”, explica. 

Ela também listou as maiores fake news que eles receberam e prontamente desmentiram. Veja abaixo: 

 

Vacinação causa doenças

Segundo o Ministério da Saúde, notícias falsas relacionadas à vacinação são maioria entre as fake news enviadas ao canal. 

Reproduçãp

Resposta do Ministério da Saúde: 

“Um estudo apresentado em 1998, que levantou preocupações sobre uma possível relação entre a vacina contra o sarampo, a caxumba e a rubéola e o autismo, foi posteriormente considerado seriamente falho e o artigo foi retirado pela revista que o publicou. Infelizmente, sua publicação desencadeou um pânico que levou à queda das coberturas de vacinação e subsequentes surtos dessas doenças. Não há evidência de uma ligação entre essa vacina e o autismo/transtornos autistas.”

 

Além disso, o Ministério também alerta que outros textos que viralizaram como “10 razões pelas quais não deveria vacinar seu filho” ou “vacina faz mal” também são fake news. 

“As ações de imunização, especialmente, nos 44 anos de existência do Programa Nacional de Imunizações (PNI), foram responsáveis por mudar o perfil epidemiológico das doenças imunopreveníveis no Brasil. O sucesso das ações de imunização pode ser comprovado pela erradicação da varíola e pela eliminação da poliomielite, da rubéola e síndrome da rubéola congênita. Também reduziu drasticamente a circulação de agentes patógenos, responsáveis por doenças como a difteria, o tétano e a coqueluche.”

Reprodução/Ministério da Saúde

Alimentos e dietas que curam e causam doenças

São vários os alimentos que aparecem, em fake news, como agentes de “curas milagrosas”. Além disso, existem os vilões e até mesmo notícias totalmente infundadas, como bananas infectadas com vírus HIV. 

Reprodução/Ministério da Saúde

 Resposta do Ministério da Saúde: 

“Não existe um alimento específico ou milagroso para a prevenção e/ou cura do câncer. O que previne o câncer é praticar uma alimentação saudável, manter o peso corporal adequado e praticar atividade física. Uma alimentação saudável e protetora de câncer é composta por alimentos in natura, alimentos minimamente processados e preparações culinárias feitas com esses alimentos. Além disso, uma alimentação saudável também deve ser pobre em alimentos ultraprocessados, que são aqueles prontos para aquecer e consumir, pobre em carnes processadas e sem bebidas alcoólicas.”

Além disso, o órgão também alertou sobre diversas outras fake news relacionadas a comidas e bebidas como ”água gelada faz mal”, “quiabo cura diabetes” e “gelo causa câncer”. 

Reprodução/Ministério da Saúde

Novos medicamentos e efeitos colaterais de remédios

O ministério também recebeu diversas dúvidas sobre novas descobertas científicas e efeitos colaterais nocivos à saúde. 

Reprodução/Ministério da Saúde

Resposta do Ministério da Saúde: 

“A iniciativa é um esforço de uma empresa que não foi sequer testada clinicamente ainda. Não há qualquer evidência sólida clínica reportada que permita dizer que haverá qualquer cura baseada no que está sendo proposto.”

Outras fake news recorrentes são “estudos” que associam o remédio omeprazol a tumores, que dizem que deficiência de vitamina B17 causa câncer e que até óleo no umbigo “cura doenças”. 

Reprodução/Ministério da Saúde

Programas do Ministério da Saúde

Outras fake news relacionadas ao ministério falam sobre vagas e oportunidades falsas disseminadas nas redes. Algumas delas são “Samu contrata profissionais sem experiência” e vagas na UPA. 

Reprodução/Ministério da Saúde

Compartilho ou não?

Antes de compartilhar ou mesmo acreditar em uma “notícia” enviada pelas redes sociais (seja WhatsApp, Instagram, Facebook, Twitter, etc), o Ministério da Saúde recomenda pesquisar a veracidade da informação antes de repassá-la. Você pode tanto enviar sua dúvida para o canal Saúde sem Fake News no WhatsApp, no número (61) 99289-4640, quanto buscar no site oficial do serviço se esta informação já foi desmentida. 

“Se você receber qualquer denúncia, envie para nós e encaminhamos para a área da Saúde responsável e um técnico e um médico vão prontamente checar a informação e retornar para nós”, explica Ana Miguel.

A coordenadora lembra que, mesmo de forma não intencional, quem mais propaga informação falsa não é quem a criou, mas quem acreditou nisso e passou para frente. 

O cidadão é responsável também pelas fake news, nunca compartilhe antes de checar.