POLÍTICA
14/06/2019 13:30 -03

Demissão de Santos Cruz é vitória de ala ideológica e deve mudar Comunicação

Secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, que deve deve ganhar mais liberdade, vinha reclamando de "equívocos" sob o guarda-chuva de Santos Cruz.

EVARISTO SA via Getty Images

A demissão do general Santos Cruz da Secretaria de Governo da Presidência, anunciada na última quinta-feira (13), terá impacto direto no direcionamento da Secretaria de Comunicação (Secom). O novo rumo significa, antes de mais nada, vitória da ala ideológica do governo, que inclui o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) e o guru do bolsonarismo Olavo de Carvalho, que criticavam abertamente Santos Cruz. 

As diferenças entre Olavo e o general se acirraram no fim de março. Na época em que o ministro estava sendo “fritado” por Olavo, o presidente trocou a chefia da Secom, que era subordinada ao militar, e nomeou Fabio Wajngarten.

Desde a troca na Secom, as críticas continuaram e, em alguns momentos, se acirraram. Wajngarten chegou a reclamar publicamente de como era o órgão antes de ele assumir. Afirmou que os funcionários estavam desmotivados e que havia muito a ser corrigido. 

A aposta é que, de agora em diante, Wajngarten ganhe mais liberdade.

“Confesso que até a nossa chegada, a Secom estava totalmente destroçada. A gente reoxigenou todo mundo que atuava lá. Acho que a gente vem cumprindo com muito êxito o que nos foi dado”, disse o secretário em uma comissão no Senado, no fim de maio.

Em outro momento no colegiado, o secretário afirmou que ainda estava ganhando espaço. “Nem tudo são flores. A gente ainda tem muito para corrigir, entendo que ainda há equívocos na comunicação.” 

O secretário negou ingerência dos filhos do presidente na comunicação oficial. Disse que Bolsonaro deu à Secom liberdade total para trabalhar tecnicamente.

A expectativa é que esse espaço seja conquistado com a presença do general Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira, comandante militar do Sudeste, com sede em São Paulo, indicado para suceder Santos Cruz.

O governo também trabalha com a possibilidade de tirar a Secom do guarda-chuva da Secretaria de Governo e a acomodar na Presidência.

 

Histórico de rixas

As críticas de Olavo à ala militar haviam cessado no fim de abril, mas foram retomadas no fim de maio. O principal alvo seguiu sendo Santos Cruz.

Entre os motivos que levavam à ala ideológica a reclamar de Santos Cruz estava a postura firme em relação à comunicação e os freios impostos pelo militar à influência dos próprios filhos de Bolsonaro.

Para iniciar um dos principais ataque, olavistas voltaram a declarações do general Santos Cruz dadas havia mais de um mês - e que nem tinham tido repercussão à época. 

Em entrevista à rádio Jovem Pan no início de abril, o general afirmou que era preciso evitar distorções nas redes sociais. “Tem de ser disciplinado, até a legislação tem de ser aprimorada, e as pessoas de bom senso têm de atuar mais para chamar as pessoas à consciência de que a gente precisa dialogar mais, e não brigar”, disse.

Olavo reagiu um mês depois. “Controlar a internet, Santos Cruz? Controlar a sua boca, seu merda”, escreveu no Twitter em maio.

A quantidade de ataques a Santos Cruz foi tamanha que o ex-comandante do Exército e atual assessor do Gabinete de Segurança Institucional, general Villas Boas também partiu para cima de Olavo. 

No Twitter, o general chamou o “guru” de “verdadeiro Trotsky de direita” e disse que, no momento em que o país busca coesão, Olavo age no sentido de acentuar as divergências.

 

Insatisfação militar

Embora Bolsonaro tenha indicado outro general para o cargo de Santos Cruz, há um desconforto entre os militares em relação à força da ala olavista.

A demissão de Santos Cruz traz a memória do que ocorreu com Gustavo Bebianno, primeiro ministro do governo a ser demitido após pressão de Carlos Bolsonaro. Bebianno foi braço direito do presidente em toda campanha eleitoral, mas não contava com a simpatia dos filhos nem da ala ideológica do governo.

De acordo com o Estadão, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, segue sendo conselheiro do presidente, mas seus colegas não estão mais tão confiantes. 

Ciente do dano que causaria aos colegas militares, Bolsonaro avaliou bem a hora de demitir de Santos Cruz. O fez após consultar o ministro da Defesa, Fernando de Azevedo e Silva, e o comandante do Exército, general Edson Pujol. Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira é o primeiro militar da ativa a integrar o governo.

Ramos e Bolsonaro são amigos, dividiram o quarto na Escola Preparatória de Cadetes. A presença do general da ativa em atividades no Planalto já era considerada rotineira antes de ele ser indicado para integrar o governo.