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06/08/2020 08:16 -03

Há 50 dias no cargo, Fabio Faria puxa mudança de tom de Bolsonaro e foca agenda positiva

À frente do Ministério das Comunicações, genro de Silvio Santos tem feito a ponte entre ministros e a imprensa, em clima de aparente trégua.

Adriano Machado / Reuters
Nova estratégia de comunicação do governo federal tem como um dos pilares um maior protagonismo dos ministros de Bolsonaro.

A mudança no tom do presidente Jair Bolsonaro e de seu ministério, menos beligerante e com menos polêmicas protagonizadas pela ala ideológica, nos últimos dias reflete um movimento puxado pela chegada do ministro das Comunicações, Fabio Faria, há 50 dias no cargo.

O resultado pode ser visto nas páginas de jornais, antes alvos diários do presidente, que passaram a trazer entrevistas com ministros. Alguns exemplos são a conversa de Tereza Cristina, da Agricultura, com o Globo no fim de julho; a participação do ministro da Justiça, André Mendonça, no programa GloboNews Debate no último domingo (2); e a entrevista de Ricardo Salles, do Meio Ambiente, para O Estado de S. Paulo recentemente.

O clima de aparente trégua do governo se estendeu nesta semana ao filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), que numa rara movimentação, falou ao jornal O Globo. 

A nova estratégia de comunicação do governo federal, que tenta construir uma agenda positiva, tem como um dos pilares um maior protagonismo dos ministros de Bolsonaro. O objetivo é mostrar realizações da gestão até agora e minimizar embates diretos. 

Antes com receio de ataques da militância bolsonarista ou de desagradarem o presidente ao falar com a imprensa, os ministros agora se veem sob nova orientação e devem ser demandados a dar entrevistas de acordo com o protagonismo que o ministério em questão tiver no momento. 

Andressa Anholete via Getty Images
Bolsonaro espera colher frutos da proximidade entre Faria e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Nos bastidores, a informação é de que casos como o do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, demitido do cargo após discordar publicamente de Bolsonaro quanto aos rumos do combate à pandemia do novo coronavírus, deixaram outros integrantes do governo receosos.

A nova orientação é demanda do próprio Bolsonaro, em meio às crises institucional, política e sanitária. Em uma live após anunciar Faria para o cargo recriado, o presidente afirmou que, com ele, iria “tentar melhorar a comunicação” do governo.

“Quanto melhor estiverem as nossas comunicações, transmitindo sempre a verdade na ponta da linha, melhor estaremos todos nós”, disse Bolsonaro na cerimônia de posse, em 17 de junho, do deputado federal que está no quarto mandato e é genro do dono do SBT, Silvio Santos.

A aproximação com veículos de mídia foi anunciada também pelo ministro logo que tomou posse: uma semana após assumir a pasta, ele publicou, no Twitter, que trabalharia para “estabelecer diálogo” com a imprensa e que visitaria as principais redações do país para dar início ao processo. 

“Essa é uma rotina que vou manter e ampliar, com visitas a todos os veículos, presencialmente ou por videoconferência. A relação entre a mídia e a administração pública aproxima nossas ações de todos os brasileiros. É nosso compromisso com a transparência e com cada cidadão. Vamos unir o país pelo bem comum”, escreveu Faria.

O ministro também vem usando as redes sociais para constantes postagens sobre o trabalho das demais pastas, das Forças Armadas e da Polícia Federal (PF) e já criticou publicamente a antiga prática do presidente de falar diariamente com a imprensa no “cercadinho” do Palácio da Alvorada ― o que, declarou ao jornal O Globo, gerou diversas “crises de duas palavras”. “A gente só falava, durante a semana toda, sobre aquelas duas palavras faladas ali”, disse.

São vários os fatores que explicam a mudança de tom. Primeiro, os costumeiros ataques da militância mais aguerrida resultaram, nos últimos meses, em respostas tanto do Legislativo quanto no Judiciário. O Supremo Tribunal Federal (STF) seguiu com os inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos, que têm como principais alvos os bolsonaristas, enquanto, no Congresso, articulações com o Centrão não barraram derrotas como a do Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica).

Além disso, o governo enfrenta dificuldades na retomada econômica, e viu a popularidade de Bolsonaro e sua força nas redes sociais sofrerem um baque. 

Mas o principal motivo para a postura contida do presidente apontado por pessoas próximas foi o avanço da investigação contra Fabricio Queiroz, ex-assessor de Flavio Bolsonaro e amigo da família. Apontado como articulador de um esquema de rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ele foi preso em junho deste ano, em imóvel de Frederick Wassef, advogado dos Bolsonaro.

Boa relação com o Congresso

Com a mudança do Planalto – onde estava sob o guarda-chuva da Secretaria de Governo, comandada pelo general Luiz Eduardo Ramos –, para o ministério recém-recriado por Bolsonaro, a Secretaria de Comunicação, chefiada por Fábio Wajngarten, também passou a intensificar a publicidade de ações do governo. 

Neste movimento, Ramos passou a focar mais na articulação política e se afastar da comunicação, onde sua atuação gerou controvérsia. Ao militar foi atribuída, por exemplo, a determinação de que os boletins sobre a situação epidemiológica da covid-19 no Brasil ressaltassem o chamado “placar da vida”, com os números de recuperados em maior destaque que o de novos casos e vítimas.

Ueslei Marcelino / Reuters
Secretaria de Comunicação, chefiada por Fábio Wajngarten, foi para o Ministério das Comunicações e também passou a intensificar a publicidade de ações do governo.

Só que Faria, que é deputado, tem atuado também na articulação política, agindo diretamente para pacificar conflitos entre o Planalto e membros do Congresso. Ele, contudo, tente afastar rumores de que estaria assumindo funções de Ramos. Em entrevista ao Poder 360, Faria disse que conversa com o ministro todos os dias e que “não vão conseguir fazer intriga entre os dois”. 

Segundo fontes ouvidas pelo HuffPost, para evitar atritos, o titular das Comunicações tem informado o ministro da Secretaria de Governo sobre reuniões com parlamentares, justificando suas razões de encontrá-los. =

Bolsonaro, no entanto, espera colher frutos da proximidade entre Faria e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), visto como “inimigo” por integrantes do governo. Parte desse processo começou já no último final de semana, com encontro, organizado por Faria, entre Maia e o ministro da Economia, Paulo Guedes. 

A ideia é acalmar os ânimos, melhorar o clima e criar um terreno mais favorável às pautas econômicas no Congresso.