OPINIÃO
31/10/2019 10:54 -03 | Atualizado 31/10/2019 10:54 -03

Novo 'Exterminador do Futuro' extermina sua própria mitologia

Mesmo com a chancela de James Cameron, filme fracassa ao tentar dar uma cara nova à franquia.

Desde que os direitos sobre a franquia O Exterminador do Futuro voltaram para o cineasta James Cameron, universo que ele mesmo criou junto com o roteirista William Wisher, a esperança de um filme minimamente decente depois de O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final (1991) renasceu no coração dos fãs.

Eles, aliás, prontamente acataram o pedido de Cameron de simplesmente ignorar os três filmes que seguiram a produção de 1991: O Exterminador do Futuro 3 - A Rebelião das Máquinas (2003), O Exterminador do Futuro - A Salvação (2009) e O Exterminador do Futuro: Gênesis (2015). 

Segundo o cineasta, O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio, que estreia no Brasil nesta quinta (31), é a continuação oficial do segundo filme da franquia. Tanto que traz de volta Linda Hamilton no papel de Sarah Connor e até uma participação especial (na base de efeitos especiais) de Edward Furlong como John Connor. Arnold Schwarzenegger retorna, claro, mas ele seguiu nos filmes da série sem Cameron.

Porém, ao mesmo tempo que traz todo esse apelo nostálgico consigo, a obsessão com o passado prejudica bastante O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio. E por quê? Porque Cameron quer criar uma nova mitologia sem desapegar de personagens icônicos. Transformando-se, assim, em um filme esquizofrênico.

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Gabriel Luna é um Rev-9, um T-1000 que na verdade não é um T-1000.

Isso sem falar da forma extremamente preguiçosa encontrada para construir um novo rumo para o universo Exterminador, que não passa de uma cópia das tramas anteriores com nomes trocados.

Se antes o inimigo era a Skynet, agora o grande vilão é outro sistema de inteligência artificial, só que com outro nome. O líder da resistência humana contra as máquinas, por exemplo, ainda existe, mas não é mais John Connor. Ou seja, a continuação, ao invés de ratificar, invalida tudo o que aconteceu em O Exterminador do Futuro (1984) e O Julgamento Final.

A história começa mais de duas décadas depois que Sarah Connor (Hamilton) impediu o Dia do Julgamento e reescreveu o destino da raça humana. Dani Ramos (Natalia Reyes) tem uma vida normal na Cidade do México até que um novo Exterminador altamente avançado e mortal (Gabriel Luna) viaja de volta no tempo para matá-la.

A sobrevivência de Dani depende de Grace (Mackenzie Davis), uma super-soldado aprimorada que retorna ao passado para protegê-la. Porém, mesmo sendo uma humana “melhorada”, apenas Grace não será suficiente para proteger Dani do inimigo. E é aí que aparece Sarah Connor, que logo reencontrará um antigo algoz no caminho.

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Sarah Connor (Linda Hamilton) mais badass do que nunca.

Dito isso, ainda nos resta a ação, que sempre foi o ponto forte da franquia. E nesse quesito o filme dirigido por Tim Miller (Deadpool e Love, Death & Robots) comete exatamente os mesmos erros que seus três predecessores. Nos inunda com autorreferências e sequências de ação genéricas, sem muito tesão.

E dá-lhe perseguição com caminhão, T-800 se sacrificando no final e as já irritantes frases “Come with me if you want to live” e “I’ll be back”. O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio parece uma fan fiction feita em uma mesa redonda de uma comic con.

O ponto positivo fica para o ótimo elenco feminino com papéis fortes e protagonismo na trama. Mackenzie Davis e Natalia Reyes fazem um interessante contraponto à Sarah Connor 100% badass de Hamilton, dando intensidades diferentes a esse poder feminino na tela e criando uma interação mais complexa com o público. O trio tem uma química excelente.

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Mackenzie Davis (Grace) e Natalia Reyes (Dani Ramos) são as boas novidades de "O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio".

É quase uma unanimidade entre críticos que O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio é o melhor da série depois dos dois primeiros filmes da franquia, mas, convenhamos, isso não quer dizer muita coisa. E mesmo essa afirmação pode, sim, ser contestada.

Agora, se o que você quer mesmo é ver Schwarzenegger e Hamilton interagindo na tela de novo e ouvir pela enésima vez os bordões que ficaram famosos nesse universo, então pegue um saco bem grande de pipocas, se ajeite na cadeira, curta mais de duas horas de fan service e seja feliz. Um filme fraco não é o fim do mundo.