MULHERES
15/10/2019 18:40 -03 | Atualizado 15/10/2019 18:42 -03

Da vida de strippers à Revolução Sandinista: O pioneirismo da fotógrafa Susan Meiselas

“Eu não imaginava que teria uma vida como fotógrafa. Fui aprendendo ao longo do caminho", afirma Susan Meiselas em entrevista ao HuffPost Brasil.

Susan Meiselas / Magnum Photos
A famosa série Strippers de Festivais, em que Meiselas documentou strippers trabalhando em festivais em New England, nos Estados Unidos.

Shows itinerantes de strippers nos Estados Unidos, a Revolução Sandinista, na Nicarágua, o massacre do povo curdo, casos de violência doméstica em uma cidade do interior da Inglaterra. Esses são alguns dos temas que a americana Susan Meiselas, de 71 anos, registrou ao longo de 40 como fotógrafa. Seus trabalhos estão expostos no Instituto Moreira Salles (IMS), em São Paulo.

A exposição conta com um time de majoritariamente feminino na curadoria: Marta Gili, diretora da École Nationale Supérieur de la Photographie, em Arles (França), Pia Viewing, curadora do parisiense do museu Jeu de Paume, e Carles Guerra, diretor da Fundació Antoni Tàpies, em Barcelona (Espanha).

A exposição Susan Meiselas: Mediações, em cartaz a partir desta terça-feira (15), reúne cerca de 180 fotografias, além de videoinstalações, publicações, cartas e material de arquivo. Cobrindo a década de 1970 até os dias de hoje, estão presentes uma vasta gama de temas e países que inspiraram o trabalho de uma das mais respeitadas fotógrafas da lendária Agência Magnum.

Chien-Chi Chang/Magnum Photo
A fotógrafa Susan Meiselas.

“Essa mostra me fez descobrir e redescobrir as ligações entre meus trabalhos, mas sempre olhando para frente, nunca para trás. Quando estava fotografando, não pensava nessas conexões. Essa exposição não é totalmente cronológica, mas tem uma estrutura de questões que revisito com o passar dos anos, certos lugares que retorno. São trabalhos que se cruzam de maneira surpreendente até para mim”, diz Meiselas em entrevista ao HuffPost Brasil.

A mostra é dividida em quatro salas que servem - além do propósito mais óbvio de expor séries de épocas distintas de sua carreira - para desmontar o rótulo de “fotógrafa de guerra” que ela ganhou por conta de sua famosa cobertura da Revolução Sandinista entre 1978 e 1982.

“Eu não estou em uma caixa. Quero sair de qualquer caixa que me colocam dentro. Primeiro me colocaram na caixa de ‘mulher que fotografa mulheres’, depois o de ‘fotógrafa de guerra’. Eu tento sempre ser receptiva, aberta e não seguir em um caminho de acordo com o que outras pessoas acham que eu deveria seguir.” 

Lena, uma das strippers da série Strippers de Festivais uma vez me disse que o ato de tirar a roupa em um palco era revolucionário porque os homens estavam um nível abaixo dela.Susan Meiselas, em entrevista ao HuffPost Brasil

Na primeira sala estão trabalhos iniciais. Na série Rua Irving, 44, por exemplo, ela retrata moradores da pensão onde vivia, em Nova York. Já a obra Retratos na Varanda (1974) reúne fotos feitas na Carolina do Sul, onde Meiselas lecionou fotografia em uma escola de ensino fundamental; em As meninas da Rua Prince (1975-1990) ela registra o cotidiano de um grupo de garotas de seu bairro.

A segunda sala apresenta o que é considerado seu primeiro grande ensaio fotográfico, a famosa série Strippers de Festivais, em que ela documentou strippers trabalhando em festivais em New England, nos Estados Unidos, ao longo de três verões consecutivos, entre 1972 e 1975.

No ano seguinte, Meiselas foi convidada a ingressar na prestigiada agência Magnum. Dois anos depois, em 1978, desembarcou na Nicarágua para cobrir a Revolução Sandinista, produziu uma crônica do levante ao registrar desde as ações dos civis até os bastidores da guerrilha e as comemorações populares após a vitória. A cobertura foi um marco em sua vida e carreira. 

Há ainda uma área especial dedicada à sua famosa foto O homem-molotov, feita há exatos 40 anos, que mostra Pablo de Jesus “Bareta” Araúz lançando um coquetel molotov. A imagem foi publicada na imprensa internacional, tornando-se um símbolo nacional da revolução. 

Susan Meiselas/Magnum Photos
"O homem-molotov", de Susan Meiselas.

“Algumas pessoas já me disseram que enxergam um ponto em comum em meus trabalhos: a autodeterminação. É muito diferente quando o retratado é um indivíduo determinando o seu lugar no todo de acordo com as oportunidades que ele possa ter e uma nação lutando para se redefinir, mas eu vejo sim essas duas séries tão distintas ecoando juntas. Lena, uma das strippers da série Strippers de Festivais uma vez me disse que o ato de tirar a roupa em um palco era revolucionário porque os homens estavam um nível abaixo dela.”

A partir daí, foi ficando cada vez mais evidente a visão de Meiselas sobre o papel da fotografia na construção da memória coletiva. Noção que se comprova ao ver outra de suas séries: Curdistão. O projeto teve início em 1991, quando ela foi ao norte do Iraque para registrar os resquícios da Operação Anfal, uma tentativa de genocídio contra o povo curdo ordenado por Saddam Hussein. Após documentar as exumações e as ruínas, ela sentiu que suas imagens não eram suficientes para expressar a complexidade do conflito. Então, passou a reunir, além de fotos, mapas, documentos e depoimentos sobre o tema.

Esse tipo de enfoque passou a ser utilizado nos trabalhos da fotógrafa desde então, independente do tema retratado. Mesmo quando ela revisita temas de séries anteriores, como o olhar sobre as mulheres.

Susan Meiselas/Magnum Photos
Foto da série "As meninas da Rua Prince", de Susan Meiselas.

Arquivos do Abuso (1992) é constituído por cartazes que Meiselas realizou para uma campanha de combate à violência doméstica contra as mulheres, na cidade de São Francisco, na Califórnia (EUA), cidade em que vive há 40 anos. Exibidos em pontos de ônibus, os cartazes trazem colagens com fotografias de cenas de crimes e relatórios policiais. 

Já em Um Quarto para Elas (2015), a fotógrafa trabalha com mulheres sobreviventes do abuso doméstico em uma região pós-industrial do Reino Unido. Ela compõe uma narrativa visual de múltiplas camadas, em que suas fotos são mescladas com testemunhos ao lado de colagens criadas a partir de um processo colaborativo.

Encerra a exposição a série Caixa de Pandora (1995), feita em um clube de sadomasoquismo em Nova York e que pode até ser vista como uma sequência de Strippers de Festivais. Meiselas relaciona suas imagens a cartas dos participantes envolvidos: o gerente, as dominadoras e os clientes. 

“Eu não imaginava que teria uma vida como fotógrafa. Fui aprendendo ao longo do caminho. Não apenas a tirar fotos, mas devolver alguma coisa à comunidade com meu trabalho. Achar uma forma minha de contribuir. Meus primeiros trabalhos são muitos locais. Trabalhei em uma região bem pequena geograficamente sem imaginar que havia um mundo ao meu redor que pudesse explorar. Quando passei a retratar outros lugares, isso afetou minha visão de uma perspectiva global e isso mudou quem eu sou. Essa noção global me ajudou a ter uma visão mais clara do local. Um senso de que é bom estar em movimento e estabelecido ao mesmo tempo”, conclui Meiselas. 

Como parte da programação da mostra, o cinema do IMS Paulista também exibirá gratuitamente o filme Imagens de uma revolução, dirigido por Meiselas, Richard P. Rogers e Alfred Guzzetti. No documentário, a fotógrafa retorna à Nicarágua para entrevistar as pessoas que conheceu durante o levante, propondo uma reflexão sobre as mudanças históricas e as transformações e os limites da revolução. O filme será projetado ao longo do período expositivo.

Serviço

Susan Meiselas: mediações
Data: De 15 de outubro de 2019 a 1.º de março de 2020.
Horário: De terça a domingo e feriados, das 10h às 20h; quintas, das 10h às 22h.
Local: IMS SP (Av. Paulista, 2424 - Consolação, São Paulo).
Entrada: Gratuita, com distribuição de senhas 1 hora antes e limite de 1 senha por pessoa.