ENTRETENIMENTO
27/04/2019 09:29 -03 | Atualizado 27/04/2019 15:43 -03

Mostra no IMS SP exibe fotografias da pioneira italiana Letizia Battaglia

Da guerra da máfia siciliana a registros de um cotidiano cheio de contradições, exposição traz 86 cliques da fotógrafa que capturou a alma italiana.

Letizia Battaglia/Divulgação
A violência se tornou algo inserido no cotidiano de Palermo entre as décadas de 1970 e 1980, um período de uma guerra mafiosa sanguinária.

Mesmo que o retrato da máfia siciliana nas décadas de 1970 e 1980 seja o grande chamariz da mostra Letizia Battaglia: Palermo, que começa neste sábado (27), no Instituto Moreira Salles (IMS SP), não espere ver apenas cenas chocantes de um dos períodos mais violentos da história moderna da Itália.

“A obra de Letizia é muito mais que ser apenas ‘a fotógrafa da máfia’. Eu não ligo para esse estereótipo. Ela retrata diversos aspectos do cotidiano de Palermo e da Sicília como um todo, que é cheio de contradições”, explica Paolo Falcone, curador da exposição que chega a São Paulo.

As 86 imagens que fazem parte da mostra não são exibidas em ordem cronológica. “Essa exposição é montada como uma polifonia de fotografias que mistura todos os elementos retratados por ela: beleza, morte, vida, amor, medo, riqueza, pobreza, sangue, sorriso... Esse quadro de contradições da vida na Itália naquela época é a grande força do trabalho dela”, completa Falcone.

Atualmente com 84 anos de idade, Letizia Battaglia é um dos grandes nomes da fotografia italiana, e também uma pioneira. Ela começou a fotografar relativamente tarde, aos 36 anos. Antes disso, vivia em Palermo com as filhas e o marido, com quem se casara aos 16 anos. Em 1971, separou-se do marido e se mudou para Milão, onde passou a contribuir com alguns jornais. 

Em 1974, foi convidada a retornar a Palermo e trabalhar como editora de fotografia no periódico L’Ora. Nesse período, ela conheceu o fotógrafo milanês Franco Zecchin, que se tornaria seu companheiro e também parceiro de trabalho. Juntos, registraram os conflitos da Guerra da Máfia na cidade.

Letizia Battaglia/Divulgação
Fotografia da prisão do chefe mafioso Leoluca Bagarella.

“Ela lutou muito para se impor nesse mundo tão masculino. Se as mulheres ainda têm muito a conquistar, imagine nos anos 1970. Os outros fotógrafos não gostavam de ver uma mulher no ambiente deles”, aponta Falcone.

O curador afirma que, mesmo quando Letizia não fotografava cenas de crimes, policiais também não a respeitavam. “Até que em uma dessas cenas ela começou a gritar com os policiais que não a deixaram passar e o chefe da polícia, na época, Boris Giuliano, a deixou entrar. A partir daí ela passou a sempre ter acesso a esses locais sem muitos obstáculos.”

Entre as imagens, estão duas muito famosas: a prisão do chefe mafioso Leoluca Bagarella, responsável por dezenas de assassinatos, e a do assassinato de Piersanti Mattarella, governador da Sicília, irmão do atual presidente da Itália, Sergio Mattarella. Clicada poucos minutos após o crime, a foto mostra o corpo de Piersanti sendo tirado do carro pelo próprio irmão.

Mas a exposição também mostra outros aspectos da vida na capital siciliana. O abismo social da sociedade na época, por exemplo, era uma das questões que Letizia retratava com precisão. “Até escolhi colocar duas imagens uma do lado da outra. Em uma delas, Letizia retrata um encontro de pessoas da alta sociedade no Palácio Gangi, local que serviu de locação para o filme O Leopardo, de Luchino Visconti. Ao lado, um quarto muito pobre com uma mãe e dois filhos pequenos em uma cama suja. Ela fingi dormir porque não tem comida para dar a seus filhos, que já acordaram”, descreve Falcone.  

Letizia Battaglia/Divulgação
Os contrastes sociais entre a extrema pobreza e riqueza da sociedade italiana também era um dos focos da obra de Letizia Battaglia.

Ao longo de sua carreira, Letizia se engajou em diversas atividades culturais, seja no teatro, na fotografia ou no meio editorial, como na revista Grandevú, criada por ela e Franco. A mostra exibe 28 exemplares originais da revista.

“Pesquisei a fundo os arquivos de Letizia e descobri muitas imagens incríveis que mostram a complexidade da obra dela. Elas contam nossa história. Seu trabalho é uma metáfora sobre a Itália, não apenas Palermo ou a Sicília. A Sicília possui 12% da população do país e tem uma importância muito grande nos rumos políticos da Itália. A união dessas imagens exibidas aqui retratam diversos aspectos de mais de 3 décadas da história italiana”, conclui Falcone.

Faça um pequeno tour pela mostra com o curador Paolo Falcone aqui (ative as legendas em português na parte inferior direita do vídeo):

Serviço
Letizia Battaglia: Palermo
Data: de 27 de abril a 22 de setembro.
Horário: Terça a domingo e feriados (exceto segunda), das 10h às 20h; quinta (exceto feriados), das 10h às 22h.
Local: IMS SP (Av. Paulista, 2424 - Consolação, São Paulo).
Entrada: gratuita.