ENTRETENIMENTO
09/09/2020 02:00 -03

O que acontece no filme 'Estou Pensando em Acabar com Tudo', de Charlie Kaufman

Quem está narrando essa história? Quem é o zelador misterioso? O HuffPost responde essa e outras questões sobre produção da Netflix.

Este texto contém toneladas de spoilers.

Se você ainda não assistiu Estou Pensando em Acabar com Tudo, aconselhamos a assistir ao filme antes e aí voltar aqui.

Estou Pensando em Acabar com Tudo, dirigido por Charlie Kaufman, é um tipo de thriller psicológico cheio de elementos, digamos, esquisitos. O filme estreou na última sexta-feira (4) na Netflix, o que gerou muita discussão: afinal, qual história o filme, de fato, conta e do que ele está falando?

Antes de começamos a dissecar a produção é importante entender quem é o diretor, o livro que o filme se baseia e, claro, a trama - uma das mais enxutas quando o assunto é um trabalho como diretor e roteirista de Kaufman.

É possível que você não tenha assistido a um filme dirigido por ele. Mas certamente já assistiu alguma produção em que o roteiro teve sua assinatura. O novaiorquino de 61 anos é responsável pelo roteiro de filmes “queridinhos” do grande público como Quero Ser John Malkovich (1999), Adaptação (2002) e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004).

Os dois primeiros são dirigidos por Spike Jonze, enquanto Brilho Eterno tem direção assinada pelo francês Michel Gondry. Ambos os diretores são famosos por dar vida a videoclipes icônicos da década de 1990 e início dos 2000.

Como diretor, Kaufman assina mais três filmes além de Estou Pensando em Acabar com Tudo. São eles: Sinédoque, Nova York (2008), a animação Anomalisa (2015) e How and Why (2014), uma produção feita direto para a TV.

Estou Pensando em Acabar com Tudo é baseado no excêntrico livro de Iain Reid e a trama é, em si, muito simples. Nela, uma mulher (Jessie Buckley) que nunca sabemos exatamente como se chama, viaja com seu namorado Jake (Jesse Plemons) para conhecer seus pais em uma fazenda em pleno inverno. Mas tudo que ela consegue pensar é em terminar o relacionamento.

Quem está narrando essa história?

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Jessie Buckley como a namorada de Jake.

A primeira impressão é que a namorada é quem narra a história, mas ela não existe. Seu nome muda constantemente porque ela é fruto da imaginação de Jake. Tanto que os relatos dela sobre como conheceu ele se confundem com o que acontece em um filme que o misterioso zelador da escola assiste na TV. 

A frase I’m thinking of ending things (estou pensando em acabar com tudo) não é sobre terminar um relacionamento, mas dar fim à vida, se matar. Jake pensa em suicídio.

Quem é o zelador misterioso?

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Guy Boyd como o zelador misterioso.

O zelador é Jake no presente. Tudo o que vemos em relação à viagem de carro até a fazenda e os pais de Jake acontece no passado. Jake se ressente do fato de não poder ter tido uma carreira, mesmo se considerando muito inteligente, para cuidar dos pais. Por isso vemos seus pais em diferentes estágios da vida na visita da namorada imaginária de Jake.

Ele não se tornou um cientista, ele virou o solitário e ressentido zelador da escola em que estudou, onde entre limpar o chão e cuidar da manutenção do local, sonha com a vida, e o relacionamento amoroso, que nunca teve. No filme isso não aparece, mas o livro deixa muito claro que Jake (o zelador) é encontrado morto na escola depois de tirar a própria vida.

Em uma das primeiras cenas, vemos o zelador olhando pela janela de sua casa. Ele está recitando a frase estranha que mais tarde é dita em uma mensagem deixada na caixa postal do celular da “namorada”. 

Essas chamadas são de “amigas” dela, que se chamam Louisa (o nome que os pais de Jake chamam ela) e Yvonne, nome da heroína do filme que o zelador assiste, que chega até a aparecer no carro em determinado momento. Ou seja, tudo não passa de uma fantasia do zelador/Jake.

Outro indício que confirma a identidade do zelador é quando a namorada acaba descobrindo o que realmente há no porão. Uma lavadora de roupas cheia dos uniformes que o zelador usa na escola. O grande segredo do porão é que Jake e o zelador são a mesma pessoa.

O que realmente aconteceu quando Jake conheceu sua “namorada”?

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Jake (Jesse Plemons) e sua namorada (Jessie Buckley) em uma de suas intermináveis conversas no carro dele.

Quando Jake entra na escola e desaparece, sua namorada vai atrás dele e acaba encontrando o zelador. Quando ele pergunta a ela o que ela está fazendo ali, de início ela responde que está procurando o namorado, mas quando ele pergunta- telepaticamente - como ele se parece, ela não sabe explicar.

“Nos nunca conversamos, essa é a verdade”, ela diz. O fato é que ao contar sobre o primeiro encontro deles no bar, em que ela estava com uma amiga, ela diz que um cara esquisito ficou olhando para ela e que ela desejava que seu namorado estivesse lá, porque uma mulher só não é perturbada por homens quando está acompanhada de um, e que aquilo era “bem triste”.

Muito diferente da história que ela conta no jantar com os pais de Jake, pois aqui a versão do encontro é relatada da pessoa imaginada, a namorada, para a pessoa real, o zelador. Jake nunca teve coragem de falar com ela no bar e ela não o achou bonito, achou ele estranho.

O número de dança entre Jake, a namorada e o zelador é exatamente a luta entre a imaginação e a realidade. E, claro, o Jake cientista é assassinado pelo zelador.

E aquele final? O que é aquilo?

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Jake (Jesse Plemons) em seu delírio final.

A maior das diferenças entre o livro e o filme acontece exatamente no final. No livro, Jake, o zelador, é encontrado morto na escola, confirmando que a frase “estou pensando em acabar com tudo” tinha a ver com o fato de que ele estava pensando em se matar, e que a narradora era uma criação do próprio Jake, que é, na verdade, o narrador.

Já no filme, Jake aparece mais velho (com uma maquiagem propositalmente exagerada), aceitando um Prêmio Nobel que ele, óbvio, nunca recebeu. É o seu delírio de despedida.

A cena mistura o real discurso do matemático John Nash quando ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1994 e um número do musical de Oklahoma!, que Jake ama.

Nash foi um gênio da matemática, mas também uma pessoa atormentada pela esquizofrenia. Sua história foi contada no cinema no longa Uma Mente Brilhante (2001), dirigido por Ron Howard e com Russell Crowe como protagonista. O longa levou o Oscar de Melhor filme em 2002.

A música escolhida é Lonely Room (quarto solitário), cantada por um personagem do musical parecido com Jake, o esquisitão Jud, que sonha em conquistar a protagonista Laurey e que para isso tenta matar o namorado dela, mas acaba matando a si mesmo.

Veja aqui a cena de Nash (Crowe) aceitando o Nobel em Uma Mente Brilhante: