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06/05/2019 09:22 -03 | Atualizado 06/05/2019 14:08 -03

Ainda a Guerra Fria: EUA e Rússia discutem nesta segunda futuro da Venezuela

Chanceler russo e secretário de Estado americano se reúnem na Finlândia. Moscou pede fim de 'planos irresponsáveis'; Washington diz para Rússia sair.

ASSOCIATED PRESS
O chanceler russo Sergey Lavrov recebeu seu colega venezuelano, Jorge Arreaza, neste domingo, em Moscou.

A aparentemente frustrada tentativa do líder opositor Juan Guaidó de iniciar um movimento para a deposição do ditador Nicolás Maduro, na última semana, pode ganhar uma sobrevida nesta segunda-feira (6).

Após um fim de semana de manifestações acanhadas em oposição a Maduro - timidez em grande parte justificada pelo temor de mais repressão violenta por parte de forças leais a Maduro, que deixaram 5 mortos na última semana -, o destino político da Venezuela poderá ter seus próximos capítulos decididos na Finlândia.

Na manhã desta segunda, se encontram no país europeu o chanceler russo, Sergey Lavrov e o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, às margens do encontro ministerial do Conselho Ártico. Em Rovaniemi (mais conhecida por ser a terra do Papai Noel, na Lapônia), os dois deverão ter uma tensa discussão sobre Venezuela.

Após uma reunião com o secretário de Estado dos EUA, M​ike Pompeo, o ministro de Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, alertou que uma intervenção militar dos EUA no país latino-americano seria catastrófica e injustificável.

Mas qual a real importância de uma decisão das duas potências em relação ao impasse no país latino? Toda.

Numa dinâmica que remete à Guerra Fria, o destino da Venezuela está em grande parte atrelado ao que os representantes de EUA e Rússia colocarem sobre a mesa.

Na última semana, Pompeo afirmou que a Rússia teria convencido Maduro a não embarcar num avião rumo a Cuba depois que Guaidó anunciou ter apoio dos militares para tirá-lo do poder. Tantos os governos russo quanto venezuelano negam que Maduro tenha sequer cogitado fugir.

Por sua vez, Washington tem trabalhado fortemente para tentar convencer militares de alto escalão a mudar de lado. Há a convicção entre todos os que querem ver Maduro fora do poder de que isso não será possível sem o apoio dos militares venezuelanos.

Também na última semana, o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, sugeriu, em um tuíte, que o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, teria aceito se voltar contra Maduro, junto com o comandante da Guarda de Honra presidencial, Iván Rafael Hernández, e o presidente do Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela, Maikel Moreno.

Dois dias depois, no entanto, Padrino López apareceu marchando ao lado de Maduro em frente a militares e disse que o governo americano chegou a lhe oferecer dinheiro para que se voltasse contra Maduro, o que ele não aceitou.

“Quiseram me comprar como se eu fosse um mercenário”, afirmou.

A tarefa não será tão fácil. Apesar de os Estados Unidos terem falado em anistia aos militares e integrantes da cúpula chavista que desertarem e ajudarem na deposição de Maduro, a manobra não é simples, por haver, inclusive, investigações relacionadas a membros do regime em cortes internacionais, como o TPI (Tribunal Penal Internacional), por crimes contra a humanidade. 

Em preparação para a reunião desta segunda, Lavrov recebeu no domingo (5), em Moscou, o chanceler venezuelano, Jorge Arreaza. O russo mandou um recado a Pompeo antes da reunião: “Pedimos aos americanos, e a todos que os apoiam, que abandonem seus planos irresponsáveis e atuem exclusivamente dentro da estrutura do direito internacional”.

Lavrov disse que o mundo testemunha “uma campanha sem precedentes dos Estados Unidos para derrubar as autoridades legítimas da Venezuela”.

Também no domingo, Pompeo antecipou a mensagem que levaria a Lavrov: “Os russos devem partir”.

“Todos os países que interferem no direito do povo venezuelano de restaurar sua democracia devem sair”, disse Pompeo. ”O objetivo é muito claro. Queremos que os iranianos, os russos e os cubanos saiam.”

POOL New / Reuters
O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, chega à Finlândia, onde se encontra com Lavrov.

Na última sexta-feira (3), os presidentes americano, Donald Trump, e russo, Vladimir Putin, chegaram a ter uma “longa conversa” por telefone. Depois da ligação, Trump disse que Putin “não procurou se envolver na Venezuela” - o que foi desmentido dois dias depois, no encontro entre Lavrov e Arreaza.

O governo Trump já anunciou que, em relação à Venezuela, considera “todas as opções sobre a mesa”, inclusive o apoio militar.

No domingo (5), Guaidó, que é presidente da Assembleia Nacional e se autodeclarou presidente interino da Venezuela disse que a Assembleia “provavelmente” estudaria a possibilidade de uma intervenção militar americana no país e que, “em caso de necessidade”, poderia aprová-la.

“Querido amigo, embaixador John Bolton, obrigado por toda a ajuda que tem prestado a essa justa causa. Obrigado pela opção. Vamos avaliá-la e provavelmente a assembleia a tenha em conta para resolver essa crise. Em caso de necessidade, talvez a aprovemos”, disse Guaidó ao jornal The Washington Post.

Mas há resistência em Washington - o temor é sobre o possível desgaste interno, um ano antes das eleições presidenciais de 2020, de uma operação mal-sucedida no país sul-americano.

A ideia também não é bem-vinda entre os vizinhos sul-americanos. No Brasil, os militares são a principal força a se opor a uma intervenção na Venezuela.

Na última sexta-feira, o Grupo de Lima, do qual o Brasil faz parte,  decidiu convidar Cuba para participar das negociações sobre o futuro da Venezuela - num sinal de que esforços diplomáticos ainda são possíveis.