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09/01/2020 02:00 -03 | Atualizado 13/01/2020 12:09 -03

As relações entre EUA e Irã são tensas há décadas. Aqui está o porquê

A crise com o Irã remonta a anos antes de Donald Trump, Qasem Soleimani e o acordo nuclear.

A afirmação “O Irã e os Estados Unidos não concordam” é talvez uma coisa com a qual todos podemos concordar. O que é menos claro, porém, é: por que?

Para realmente entendermos o que se passa hoje, é necessário voltar muito mais no tempo - na verdade, até 1908.

Além disso, é essencial lembrar o papel do Reino Unido nessa história, durante a era do império, quando a Grã-Bretanha era os Estados Unidos da época.

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Um refém mantido na embaixada dos EUA em Teerã é mostrado à multidão por estudantes iranianos em 8 de novembro de 1979.

1908: Fundação da Companhia Anglo-Persa de Petróleo

Tal como acontece com tantos conflitos no Oriente Médio, as atuais tensões EUA-Irã têm suas raízes históricas no controle dos recursos naturais - especificamente o petróleo.

Foram os britânicos que primeiro procuraram explorar as reservas de petróleo no que se chamava Pérsia, numa época em que os EUA tinham muito pouca presença além de suas próprias fronteiras.

Em 1908, os britânicos, ainda em pleno império global, fundaram a Companhia de Petróleo Anglo-Persa (APOC) após a descoberta de um enorme campo petrolífero no país e começaram a fazer uma fortuna, dando à Pérsia apenas 16% dos lucros.

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Pioneiros da mineração de petróleo em um piquenique perto de Masjid i-Suleiman na Pérsia (Irã), por volta de 1900.

Obviamente, o desequilíbrio na forma como as receitas do petróleo foram divididas entre os persas e os britânicos se tornou uma fonte de atrito.

Várias tentativas foram feitas pelos iranianos (como se tornaram conhecidos a partir de 1935) para renegociar os termos do acordo, mas elas não deram em nada ou produziram acordos que, no final das contas, não eram mais benéficos.

1941: Segunda Guerra Mundial e a invasão

Em uma das muitas manifestações ocidentais de pouco respeito à soberania durante esse período, em 1941, a Grã-Bretanha e sua então aliada União Soviética invadiram e ocuparam o Irã para garantir o suprimento de petróleo para suas máquinas de guerra cada vez mais sedentas.

Essa ocupação ajudou a alimentar uma maré de nacionalismo que varreu o Oriente Médio após o fim da Segunda Guerra Mundial e, especificamente, o Irã. Isso aumentou ainda mais a nacionalização dos recursos energéticos do país.

1951: O Irã elege Mohammed Mossadegh como primeiro ministro

Em 1951, o parlamento iraniano votou pela nacionalização do APOC (agora chamada Companhia Anglo-Iraniana de Petróleo), um evento seguido pela eleição democrática de Mohammed Mossadegh, um campeão da nacionalização.

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O primeiro-ministro Mohammed Mossadegh descansa em sua cama em 12 de outubro de 1951. Mossadegh foi nomeado primeiro-ministro do Irã em 28 de abril de 1951. 

Nos dois anos seguintes, Mossadegh tentou implementar a nacionalização, engajando-se em uma diplomacia acirrada com os britânicos e os Estados Unidos - que, a essa altura, após sua contribuição para a vitória dos Aliados na guerra, estavam muito mais envolvidos nos assuntos internacionais do que nas décadas anteriores.

Os britânicos, não querendo desistir de uma mina de ouro tão lucrativa em um período em que o consumo de petróleo estava apenas aumentando, resistiram às tentativas de Mossadegh e procuraram maneiras de tirá-lo da cena.

1953: O golpe

A Grã-Bretanha escolheu possivelmente a opção mais extrema - subverter a democracia iraniana derrubando seu líder e substituindo-o por um que eles gostassem.

O golpe foi orquestrado pela CIA e pelo MI6 e usou as tensões crescentes da Guerra Fria como pretexto, enquadrando-o como necessário para impedir que o suprimento de energia caísse nas mãos dos soviéticos.

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Em 19 de agosto de 1953, uma multidão de manifestantes derruba o sinal do Partido Irã na frente da sede em Teerã, durante o tumulto pré-xá que varreu a capital e derrubou Mossadegh.

Subornando várias pessoas e grupos influentes no Irã, os serviços de inteligência ocidentais conseguiram orquestrar um grande tumulto que foi usado como uma oportunidade para prender Mossadegh e substituí-lo por um novo primeiro-ministro pró-ocidental, Fazlollah Zahedi, que recebeu o selo de aprovação pelo xá (monarca) igualmente pró-ocidental Mohammad Reza Pahlavi.

1954: A mudança de nome

Em um sinal claro de quem estava por trás dos eventos no Irã, a Companhia Anglo-Iraniana de Petróleo foi renomeada British Petroleum (sim, a BP) em 1954.

As coisas nunca mais seriam as mesmas, e a BP, em vez de ter o único monopólio do petróleo iraniano, entrou em um consórcio de empresas que controlavam grande parte do suprimento de petróleo do mundo pelas próximas duas décadas.

1979: Revolução iraniana

Não será uma surpresa saber que o povo do Irã ficou menos do que feliz por ter um líder imposto a eles por potências estrangeiras e o descontentamento só cresceu, culminando em greves e grandes manifestações que paralisaram o país.

Sob enorme pressão, Pahlavi fugiu para os EUA e, em seu lugar, veio Ruhollah Khomeini, que logo se tornaria conhecido no Ocidente como aiatolá Khomeini.

Ele havia passado os 15 anos anteriores no exílio devido à sua oposição a Pahlavi, mas retornou ao Irã para ser recebido por uma multidão de milhões.

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Uma multidão se reúne em Teerã para receber o aiatolá Khomeini.

Khomeini formou um novo governo, realizou um referendo e fundou a República Islâmica do Irã que o mundo conhece hoje. Ele apelidou os EUA de o “Grande Satanás”.

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O aiatolá Ruhollah Khomeini lidera orações diárias em sua pequena vila perto de Paris antes de seu retorno ao Irã.

Quase imediatamente, ocorre a primeira de uma série de crises, cada uma das quais consolidaria ainda mais a hostilidade entre o Irã e os EUA (a Grã-Bretanha, depois de perder seu império após a guerra, ficou cada vez mais fora de cena).

1979-81: A crise dos reféns na embaixada dos EUA

Em novembro de 1979, um grupo de estudantes iranianos furiosos com a recusa americana em extraditar Pahlavi invadiu a embaixada dos EUA e manteve 52 pessoas como reféns - por quase dois anos.

O fracasso dos EUA em garantir a libertação de seus próprios cidadãos, seja por meio de negociações ou por uma tentativa fracassada de resgate, foi um golpe humilhante no cenário internacional e foi um fator significativo no final do governo Jimmy Carter.

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Tomada de reféns na Embaixada Americana e manifestação em Teerã, Irã em novembro de 1979.

Donald Trump fez referência aos reféns recentemente, quando disse que 52 locais culturais no Irã poderiam ser alvo de ataques dos EUA.

1984: Patrocinador do terrorismo

Os EUA designaram em 1984 o Irã como patrocinador estatal do terrorismo, citando mais de 60 ataques contra os EUA no Oriente Médio.

1985-86: Escândalo Irã-Contras

O sucessor de Carter, Ronald Reagan, ficou envolvido em seu próprio escândalo relacionado ao Irã alguns anos depois.

No que ficou conhecido como o caso Irã-Contras, Reagan vendeu armas para o Irã e usou o dinheiro para financiar rebeldes anticomunistas tentando derrubar o governo na Nicarágua, apesar de tal financiamento ser banido pelo Congresso.

1988: EUA abatem avião de passageiros iraniano

Em 3 de julho de 1988, um navio de guerra americano patrulhando no Golfo Pérsico abateu um Airbus A300 iraniano que voava de Bandar Abbas, no Irã, para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Todas as 290 pessoas a bordo morreram. Os EUA alegaram que a aeronave foi confundida com um avião de caça.

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Milhares de iranianos cantando "Death to America" participam de um funeral em massa para 76 pessoas mortas quando o USS Vincennes abateu o vôo 655 da Iran Air, em Teerã, Irã, em 7 de julho de 1988.

Década de 90: As sanções

Ao longo da década, os EUA intensificaram as sanções contra o Irã na tentativa de impedir sua “aquisição de armas químicas, biológicas, nucleares ou armas convencionais avançadas”.

Década de 2000: Medo de um Irã nuclear

As relações deterioraram-se a um novo nível depois que foi revelado que o Irã estava desenvolvendo instalações nucleares que, segundo países ocidentais, poderiam ser usadas para fabricar uma bomba nuclear.

O então governo do presidente ultra-conservador Mahmoud Ahmadinejad negou as acusações, mas a ONU, os EUA e a UE impuseram duras sanções, prejudicando a economia do país.

2002: O “Eixo do Mal”

Os sinais de que a eleição do clérigo reformista Mohammed Khatami em 1997 marcou uma mudança nas relações para melhor foram frustrados por George Bush em 2002, quando incluiu o Irã ao lado do Iraque e da Coreia do Norte em seu infame discurso sobre o “Eixo do Mal”.

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O presidente George W. Bush rotula a Coreia do Norte, o Irã e o Iraque como um "eixo do mal" durante seu discurso do Estado da União em Capitol Hill.

A designação causou indignação no Irã - que, um ano depois, ficou mais do que feliz em tirar proveito do caos resultante da invasão americana no Iraque para aumentar sua influência no Oriente Médio.

2015: O acordo

A eleição de Barack Obama marcou uma profunda mudança nas relações entre os EUA e o Irã e, finalmente, foi fechado um acordo de longo prazo que previa que o Irã limitasse suas capacidades nucleares ao uso de energia civil em troca do levantamento de sanções.

Apesar de o acordo ser amplamente aclamado como um passo positivo para a paz, um homem foi muito sincero em seu desdém pelo acordo durante as negociações: Donald Trump.

 O presidente Obama deve se lembrar que a pior coisa que você pode fazer em um acordo é parecer desesperado. Seja legal, mova-se devagar - e pense! IRÃ

 

2018: O fim do acordo

Agora presidente, Trump retira os EUA do acordo com o Irã em 2018 para o desespero de outras potências mundiais.

Ele restabelece as sanções e a economia do Irã despenca.

2019: Começam as ações militares

Outras sanções miram as exportações de petróleo do Irã, provocando uma série de ataques retaliatórios do Irã contra petroleiros no Golfo Pérsico.

As coisas pioram em 20 de junho, quando o Irã abate um drone militar dos EUA e, logo depois, anuncia que reverterá uma série de compromissos assumidos no acordo nuclear original.

2020: A morte de Qasem Soleimani

Tudo isso nos leva a 2020 e à situação atual. Um ataque a uma base militar no Iraque por uma milícia apoiada pelo Irã desencadeia um ataque aéreo americano que mata 25 membros do grupo.

Isso, por sua vez, leva à invasão da embaixada dos EUA no Iraque. Os EUA respondem matando Qasem Soleimani. O Irã responde atacando uma base militar no Iraque usada pelos Estados Unidos. E o resto é, bem, o presente.

 

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.