MULHERES
03/07/2019 00:00 -03

Vídeo e laudo reforçam acusação de estupro de jovem por PMs em viatura

Ao G1, mulher de 19 anos afirma que só teve a palavra validada após imagens circularem nas redes sociais.

Reprodução/TV Globo
Vídeo mostra que PM entrou pela porta de trás em veículo com vítima.

Um vídeo gravado por câmeras de segurança em Praia Grande, no litoral de São Paulo, contradiz o depoimento de dois policiais militares acusados de estupro e confirmam a versão da vítima, uma garota de 19 anos, que afirmou ter sido violentada dentro de uma viatura pelos PMs.  

De acordo com a jovem, o crime aconteceu na noite da quarta-feira 12 de junho, quando ela retornava da casa de uma amiga.

Ela conta que pediu ajuda a uma viatura que estava estacionada próxima a um shopping de Praia Grande para encontrar um ponto de ônibus. Os policiais ofereceram carona para ela até o terminal rodoviário da cidade.

No carro, um dos policiais sentou ao seu lado no banco traseiro e, segundo ela, forçou a relação sexual com o carro em movimento. Depois, ela foi abandonada no terminal rodoviário. 

Os policiais negaram a acusação e relataram à Polícia Civil que ambos teriam sentado na parte da frente do carro. Porém, as imagens analisadas pela polícia mostraram um dos PMs entrando no carro pela porta traseira.

Além das imagens, a perícia do veículo encontrou o celular da garota no banco do carro e o laudo apontou indícios de violência sexual contra a jovem.

“O laudo técnico indica que houve relação sexual e uma pequena lesão na genitália, o que aponta o ato criminoso, já que não foi consentido pela vítima”, afirmou Benedito Domingos Mariano, responsável pela Ouvidoria da Polícia de SP, em entrevista ao G1.

De acordo com Mariano, o vídeo foi citado no pedido de prisão preventiva dos policiais e os investigados foram encaminhados para o presídio Romão Gomes.

“Para os policiais civis, eles alegaram que os dois estavam no banco da frente. O vídeo contradiz o depoimento deles”, explicou o porta-voz da Ouvidoria.

Segundo a Polícia Civil de SP informou ao HuffPost, o caso está sendo investigado sob sigilo pela Delegacia da Mulher de Praia Grande e pela Corregedoria da PM, que abriu um Inquérito Policial Militar.

Ao HuffPost, o Ministério Público de São Paulo afirmou que o caso ainda não foi relatado ao órgão.

Por que é tão difícil denunciar um caso de estupro

É comum que em casos de violência contra a mulher, a palavra da vítima seja amplamente desacreditada.

De acordo com a jovem desse caso, muitas pessoas questionaram o seu depoimento e só validaram a sua palavra após o vídeo do policial entrando pela parte de trás do carro ter circulado nas redes sociais.

“Tinham muitas pessoas me julgando, falando coisas horríveis. Me apontaram como mentirosa e falaram que eu queria fama. Até compararam com outros casos”, disse em entrevista ao G1. “Depois do vídeo e de todas as provas, agora a maioria passou a acreditar em mim. Ainda assim, existem pessoas que acham que é mentira.”

Um levantamento realizado em 2017, mostrou que 60 mil mulheres foram vítimas de estupro no Brasil naquele ano. Isso quer dizer que uma mulher é violentada a cada dez minutos no País.

Apesar de ser um crime muito comum na sociedade, muitos casos nem chegam a ser discutidos pelo sistema de Justiça.

São muitos os motivos que levam a uma mulher desistir de expor casos de assédio e violência.

A falta de preparo das instituições, o acesso dificultado às delegacias especializadas, a incerteza sobre a punição do agressor, a vergonha, o medo e o constrangimento são alguns dos fatores envolvidos. 

De acordo com especialistas, a subnotificação é um dos principais desafios para quem luta pela proteção das vítimas de violência.

A juíza e professora do grupo Direito, Gênero e Identidade (FGV/SP) Camila de Jesus Mello Gonçalves explica que a situação das estatísticas oficiais sobre violência contra a mulher é bem mais complexa e não se limita a quantas pessoas são denunciadas ou condenadas no País.

A decisão de não denunciar também acontece porque 67% dos casos são cometidos por alguém que é próximo da vítima.

“Muitas vezes a mulher chega na audiência e fala que não lembra o que aconteceu. Ela quer proteger o acusado. Você pode constranger essa mulher e dizer que ela está mentindo, já que tinha feito a denúncia na delegacia. Essa mulher pode vir até a ser processada. Porém o grupo do Ministério Público tem uma orientação de não processar as mulheres nesse caso. A gente acaba acolhendo esse discurso que revela que ela está em uma situação muito difícil. É preciso acolher essa mulher e empoderá-la”, analisa a juíza Camila de Jesus, em entrevista ao HuffPost Brasil.