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23/03/2020 13:25 -03

Falta de leitos e contágio em São Paulo são principais barreiras para conter coronavírus, diz estudo da Fiocruz com FGV

As informações foram enviadas ao Ministério da Saúde, a fim de embasar medidas do governo.

Sipa USA via AP
Rio de Janeiro e São Paulo foram primeiros estados a registrar transmissão sustentada do novo coronavírus.

A falta de leitos de internação e características do contágio nos centros urbanos em São Paulo e no Rio de Janeiro são os principais desafios para conter a pandemia do novo coronavírus no Brasil, segundo estudo de pesquisadores da Fiocruz (Fundação Instituto Oswaldo Cruz) e da Fundação Getulio Vargas (FGV). Finalizado em 17 de março, o relatório “Estimativa de risco de espalhamento da COVID-19 no Brasil e o impacto no sistema de saúde e população por microrregião” foi divulgado nesta segunda-feira (23).

Os cenários construídos pela pesquisa foram feitos presumindo ausência de distanciamento social e restrição de viagem. Diversas cidades e estados já definiram medidas de isolamento que contribuem para diminuir o risco que foi avaliado, como restringir a circulação de pessoas e determinar que apenas comércios considerados essenciais, como mercados e farmácias, ficarão abertos. 

As informações foram enviadas na semana passada ao Ministério da Saúde, a fim de embasar medidas do governo federal coordenadas pelo ministro da pasta, Luiz Henrique Mandetta.

O relatório analisa o risco de importação da covid-19 para as microrregiões brasileiras decorrente da transmissão sustentada - quando não é possível detectar a cadeia de contágio - no Rio e em São Paulo e os efeitos de possível ocorrência de epidemias nas microrregiões associados a faixas da população com maior risco de morbidade e letalidade, como idosos, e indicadores de capacidade do sistema de saúde.

Falta de leitos

De acordo com a publicação, a preocupação com a disponibilidade de leitos de internação inclui tanto o SUS (sistema único de saúde) quanto a rede particular.

Há uma leve tendência de maior número de leitos complementares (UTI e unidade intermediária) em microrregiões próximas de São Paulo e Rio de Janeiro. Ainda assim, a maioria das microrregiões apresenta menos de 4 leitos complementares por 10 mil habitantes, um quantitativo considerado baixo, “além de uma grande heterogeneidade na oferta de leitos por habitante em todo o território nacional”, segundo o relatório.

Os pesquisadores recomendam ao governo implantar novos leitos e priorizar o remanejo para UTI, “com particular urgência naquelas microrregiões que combinam número relativamente baixo de leitos por habitante e baixa distância efetiva”.

O risco de transmissão do coronavírus

De acordo com o estudo, o potencial de exportação do vírus de São Paulo é muito maior do que do Rio de Janeiro, em situações normais de fluxo aérea.

“Combinando os dados de fluxo aéreo com deslocamentos pendulares para trabalho e estudo, e com estimativas recentes de parâmetros da doença, vemos que num cenário de transmissão sustentada em São Paulo e Rio de Janeiro a probabilidade de gerar epidemias nas microrregiões de menor distância efetiva é bastante elevada”, diz a pesquisa.

Essa probabilidade também é elevada para as microrregiões próximas às de São Paulo e Rio de Janeiro, em função da mobilidade pendular, segundo o relatório.

Os pesquisadores usaram métodos baseados na proximidade em termos do fluxo de pessoas entre as localidades em vez da distância geográfica. Estudos mostram que “há forte correlação entre essa medida e o tempo até importação em cada território a partir de uma origem bem definida (...) isto é, quanto menor a distância efetiva, menor o tempo até invasão”, ou seja, a transmissão sustentada do vírus.

Uma ponderação feita é que alguns fatores ligados à malha aérea devem frear esse processo, como crescentes medidas de restrição de deslocamento nos países mais afetados e potencial aumento de controle sanitário em relação aos passageiros de voos internacionais. “Importação de casos através da malha aérea internacional deve seguir tendo papel importante no futuro próximo nas regiões alimentadas pelos principais aeroportos internacionais”, diz o texto.

Casos mais graves no Sul e Sudeste 

Ainda de acordo com o estudo, quanto ao potencial de impacto a curto prazo, os centros urbanos das regiões Sul e Sudeste apresentam alto percentual de população acima de 60 e acima de 80 anos de idade, principais populações de risco, e baixa distância efetiva de São Paulo e Rio de Janeiro.

Por esse motivo, esses locais são mais propensos a acumular casos graves no curto prazo. “Essas são regiões que historicamente apresentam maior carga de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). As microrregiões do entorno de Recife e Salvador também se encontram neste cenário de risco iminente em função da combinação entre distância efetiva e proporção da população de risco”, alerta a pesquisa.

O estudo foi elaborado pelos pesquisadores Cláudia T. Codeço, Daniel Villela, Flávio Coelho, Leonardo S. Bastos, Marcelo F. C. Gomes, Oswaldo G. Cruz e Raquel M. Lana, que fazem parte do Programa de Computação Científica da Fiocruz ou da Escola de Matemática Aplicada da FGV ou da London School of Hygiene and Tropical Medicine. Também houve contribuição externa dos pesquisadores Ana Pastore y Piontti 4, Alessandro Vespignani e Jessica T. Davis, do Laboratory for the Modeling of Biological and Socio-technical Systems da Northeastern University em Boston (EUA).

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