OPINIÃO
18/05/2019 10:14 -03 | Atualizado 18/05/2019 10:14 -03

'Dor e Glória', novo filme de Almódovar, estreia no Festival de Cannes

Produção que transpira um erotismo elegante marca o reencontro do diretor espanhol com o ator Antonio Banderas.

Divulgação
 Antonio Banderas e Leonardo Sbaraglia em cena de Dor e Glória.

Dor e Glória, novo filme de Almódovar que acaba de estrear no Festival de Cannes, traz Antonio Banderas no papel de Salvador Mallo, diretor de cinema semi-aposentado que vive em seu apartamento-museu às voltas com as memórias e dores, um alter-ego do próprio cineasta espanhol Pedro Almódovar.

A ação começa com ele sentado em uma cadeira ao fundo da piscina, provavelmente para alguma terapia. Descobrimos depois que ele sofre de várias doenças, e a coluna vertebral é o foco de praticamente todas elas.

Da água para a água: em um vilarejo, a mãe, interpretada maravilhosamente por Penélope Cruz - de volta a Cannes depois de Todos Já Sabem, de Asghar Farhadi - e outras mulheres lavam roupa às margens de um rio enquanto o menino Salvador acha graça nos peixes “saboneteiros”, que gravitam em torno do sabão caído na água.

Ele acorda do aparente devaneio e na cena seguinte reencontra Zulema, atriz em um de seus filmes de 30 atrás, que por coincidência vai reestrear em nova produção dali a algumas semanas, seguido de um bate-papo com o diretor.

Através dela, ele se reconecta com o protagonista, com quem havia brigado à época do lançamento do filme por não concordar com a forma como havia interpretado o personagem. Ele visita o ator, Alberto, e começa a fumar heroína. Em um dos encontros, Alberto lê ao acaso um dos textos de Salvador, que ele havia escrito para se “livrar de seu conteúdo”. O próximo reencontro é também o começo de toda a narrativa.

Como disse o crítico do The Guardian, Peter Bradshaw, “não há uma explosão de lágrimas ou erotismo”. Mas, talvez por isso, seja o filme mais erótico e elegante de Almódovar. Apela a todos os sentidos. Na sensualidade da música e dos movimentos de Penélope e das outras mulheres, e das palavras que Salvador lê em suas noites insones, como nesse trecho: “a vida foi um desgosto igual a um remédio”.

O tempo da história é o da antecipação: de uma memória, de um filme ou desejo. Apenas duas cenas são eróticas, incrivelmente fortes. Em uma, dois homens se beijam e, depois, nada acontece. Em outra, um menino deitado sobre a cama começa a transpirar em vários pontos do rosto enquanto na sala ao lado um homem adulto mas também muito jovem toma banho de bacia. Sabemos que o menino não faz nada - é muito pequeno para isso - nem pode ver o que se passa ao lado. Só imaginar. 

Banderas atua com o corpo inteiro - em coletiva, ele disse: “Precisei matar Antonio Banderas para fazer esse personagem”. Cada expressão facial conta e, de tempos em tempos, somos lembrados que, apesar do corpo aparentemente viril, ele não pode ajoelhar diretamente no chão. Cada vez que quer abrir o grande armário da sala, coloca um travesseiro no chão e, então, apóia sobre ele.

Com quase duas horas de duração, nem vemos o tempo passar - o que é um bom termômetro em Cannes, já que é impossível (ou quase) checar a hora no silêncio e escuridão da sala. O fim é tão elegante como o início, e o menino, interpretado por Asier Flores, vai ficar

Há um filme dentro de um filme, e uma história dentro da história. Quando Alberto sobe ao palco para dar voz ao monólogo Vício, de Salvador, vemos uma tela atrás dele. Mesmo vazia, ecoa as imagens do texto. Os filmes chegavam à sua cidade no meio verão, sempre com uma cena de riacho ou cachoeira. “O que nos dava uma vontade danada de mijar. Os cinemas da minha infância cheiram a mijo e jasmim”, ele diz.

Com Dor e Glória, Almódovar concorre à Palma de Ouro pela sexta vez. O filme chega aos cinemas brasileiros no dia 13 de junho.