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13/05/2020 20:24 -03

Entre ser leal e se blindar: A estratégia dos militares no depoimento prestado à PF

A ordem, entre os ministros no Palácio do Planalto, é não trair o presidente. Generais, no entanto, procuraram se proteger sem atacar.

Três generais, aliados de primeira ordem do presidente Jair Bolsonaro, foram aconselhados, inclusive pelo vice-presidente Hamilton Mourão, a não trair o mandatário no depoimento que prestaram à Polícia Federal. Os ministros Walter Braga Netto, da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, e Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, foram ouvidos como testemunhas no inquérito que apura a veracidade das denúncias feitas pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro contra o presidente.

Moro acusa o presidente de querer trocar o comando da Polícia Federal para ter acesso a informações sigilosas — o que significa interferir politicamente no órgão. No depoimento, os generais, segundo relatos divulgado pela imprensa, evitaram choque direto com versões apresentadas nos últimos dias pelo presidente. Bolsonaro nega interferência política. Os ministros foram ouvidos simultaneamente para que não pudessem compartilhar informações. 

De acordo com pessoas com trânsito no governo, os militares estão cientes dos riscos que correm ao compactuar com posturas do presidente, mas defendem enfaticamente o valor da lealdade ao chefe.

O compromisso com Bolsonaro, no entanto, esbarra em outro valor defendido pelos militares: a busca por se preservar e preservar o nome das Forças Armadas.

O momento tem sido capaz de unir a categoria em torno de proteção à instituição. Endossa esse discurso a manifestação que o vice-presidente fez nesta quarta-feira (13), um dia após o depoimento dos generais, sobre as declarações. “Quem alinha discurso é bandido. Homens de honra, como Augusto Heleno, Braga Netto e Ramos, falam a verdade e cumprem a missão”, disse no Twitter.

O próprio Mourão tem sido alvo de constantes pressões para ter um posicionamento duro sobre o enredo em que Bolsonaro foi colocado após as denúncias feitas por Moro. A quem o questiona, ele também fala em “lealdade”. A avaliação de pessoas próximas ao vice, ouvidas pelo HuffPost, é que do mesmo jeito que ele não se moverá para derrubar o presidente, ele não poderá evitar uma eventual queda.

Os militares querem não querem apenas preservar as Forças Armadas — que é a instituição com maior grau de confiança da população, segundo pesquisa Datafolha mais recente sobre o tema — mas também esperam se manter no governo. Eles também estão em cargos estratégicos fora do Planalto, como Itaipu e Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

Há ainda interesses econômicos dos militares em se manter no poder. Reportagem da revista Época mostra que o Ministério da Defesa conseguiu junto à AGU (Advocacia-Geral da União) aval para que integrantes do governo, da Marinha, Exército e Aeronáutica da ativa ou da reserva possam receber acima do teto de R$ 39 mil. A pasta suspendeu o pedido por enquanto devido à pandemia do novo coronavírus.

Andressa Anholete via Getty Images
Braga Netto, Ramos e Mourão no dia em quem Moro se demitiu do governo e Bolsonaro fez um pronunciamento.  

Fatura no Congresso

Enquanto o presidente não tem que se preocupar com aliados dentro do Palácio do Planalto, a tranquilidade no Congresso Nacional tem se tornado cada vez mais cara. A proximidade com parlamentares está vindo com cobrança de cargos e liberação de emendas. 

Com o HuffPost vem noticiando, postos-chave já entraram no rearranjo político. Banco do Nordeste, DNIT, Dnocs e FNDE são alguns dos órgão em negociação. Recentemente, deputados do chamado Centrão passaram a pressionar por espaço na Saúde, em órgãos como a Funasa.

O cálculo do presidente estima que, ao trazer parlamentares para o governo, ele constrói uma base leal no Parlamento. A Câmara conta com mais de 30 pedidos de impeachment contra o mandatário esperando uma reposta do presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ) — que tem sido um contraponto ao presidente. 

Para os parlamentares, de acordo com fontes ouvidas pelo HuffPost, o momento é de espera. Aguardam os próximos passos do STF em relação às denúncias contra Bolsonaro. Um deputado ex-aliado de Bolsonaro, no entanto, aposta que se o presidente se enrolar, esses que se alinharam por cargos farão o mesmo que fizeram com a ex-presidente Dilma Rousseff (PT): abandonarão o barco.

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