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14/04/2020 02:00 -03

Adesão insuficiente ao isolamento social deixa 5 estados e DF à beira do colapso do sistema de saúde

Amazonas, Amapá, Distrito Federal, Ceará, São Paulo e Rio têm maior incidência de coronavírus que a média nacional. Até 6 de maio, podem faltar UTIs nessas UFs, segundo projeções.

Cinco estados e o Distrito Federal estão em situação crítica com incidência da covid-19 50% acima da nacional — de 111 casos para 1 milhão de habitantes nesta segunda-feira (13), de acordo com o Ministério da Saúde. No Amazonas, que já enfrenta dificuldades para atender pacientes infectados pelo novo coronavírus, o indicador é de 303 para cada milhão de habitantes.

Logo atrás, estão Amapá (incidência de 281 por milhão de habitantes), Distrito Federal (209 por milhão de habitantes), Ceará (196 por milhão de habitantes), São Paulo (192 por milhão de habitantes) e Rio de Janeiro (186 por milhão de habitantes).

Entre pesquisadores da área da saúde, é praticamente unânime que qualquer tipo de relaxamento no isolamento social pode provocar um colapso no sistema de saúde. Embora boa parte dos governadores tenha adotado medidas para restringir a circulação de pessoas, houve relaxamento em alguns municípios ou descumprimento das orientações por parte da população.

Em São Paulo, de acordo com o Sistema de Monitoramento Inteligente do governo, o percentual de isolamento social foi de 59% neste domingo (12), abaixo da meta de 70%.  

Há dificuldades em saber se as pessoas estão dentro de casa em outras unidades da federação. Por meio de sua assessoria, o governo do Distrito Federal informou ao HuffPost que ”não dispõe desses dados”. Em 2 de abril, o presidente da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), Jean Lima, afirmou que a Casa Civil do GDF fez um convênio com empresas de telefonia celular para obter esse tipo de informação.

De acordo com monitoramento de dados de celulares feitos pela empresa In Loco, no sábado, o isolamento no Distrito Federal foi de 53,6%

No Rio de Janeiro, a assessoria da Secretaria de Saúde estadual informou ao HuffPost que esse tipo de monitoramento ainda não foi implementado nem há previsão para isso. A adesão foi de 53,8% no sábado, segundo dados da In Loco.

Dos números oficiais disponíveis, os dados de mortes e casos confirmados também não revelam o cenário real. A demora no resultado de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa da morte quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso na divulgação dos dados.

Há também uma subnotificação de casos confirmados devido à limitação de testes de diagnóstico. Estimativas de pesquisadores apontam que o cenário real pode ser de 240 mil infectados, mais de 10 vezes acima do número divulgado pelo governo federal.

Saiba como está a situação nas 6 unidades da federação mais críticas em relação à covid-19:

São Paulo

Estado mais populoso do Brasil, São Paulo também concentra o recorde de casos confirmados e mortes em números absolutos: 608 óbitos e 8.895 diagnósticos, de acordo com balanço do Ministério da Saúde desta segunda.

Apesar de o estado comandado por João Doria (PSDB) ter sido um dos primeiros a adotar medidas para restringir a circulação de pessoas, a adesão da população está abaixo do ideal. O monitoramento é feito a partir de dados disponibilizados pelas operadoras de telefonia Vivo, Claro, Oi e TIM com informações agregadas sobre deslocamento nos 645 municípios paulistas. 

Coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, o médico infectologista David Uip alertou que, se a taxa continuar baixa, o número de leitos disponíveis no sistema de saúde não será suficiente para atender a população.

O secretário municipal da Saúde, Edson Aparecido, afirmou que 60% dos 1.662 leitos de baixa e média complexidade criados na cidade de São Paulo para pacientes com coronavírus foram ocupados em uma semana, de acordo com reportagem publicada pelo jornal O Estado de São Paulo no domingo (12), 

Segundo um simulador que calcula a “Pressão hospitalar por covid-19”, elaborado por um grupo de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo), o estado ficará sem UTIs (Unidades de Tratamento Intensivo) para internar pacientes com a doença em 4 de maio. “No auge da demanda, serão necessárias 21.639 novas UTIs. Essa demanda corresponde a 89,42 vezes o número de leitos de UTI dedicados à covid-19 e 3,98 vezes o número total de UTIs instaladas na região”, de acordo com a projeção.

NurPhoto via Getty Images
Manifestantes contrários ao isolamento social fizeram ato no sábado (11) em São Paulo.

Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro é o segundo estado com maior número de mortes, segundo dados do Ministério da Saúde. São 188 óbitos e 3.23 casos confirmados.

De acordo com o simulador desenvolvido por pesquisadores das USP, o estado ficará sem UTIs para internar pacientes com a doença em 6 de maio. “No auge da demanda, serão necessárias 9.297 novas UTIs. Esta demanda corresponde a 86,69 vezes o número de leitos de UTI dedicados à covid-19 e 5,43 vezes o número total de UTIs instaladas na região”, segundo a projeção. O Rio conta com 11 hospitais de campanha, que somam 2,2 mil leitos.

Em 13 de março, o governador Wilson Witzel (PSC) determinou a suspensão de aulas nas redes pública e privada, eventos e visitas a presídios. Em 19 de março, ele limitou a circulação dentro do estado, incluindo suspensão de viagens de ônibus entre a região metropolitana e a capital fluminense e de viagens por carros de aplicativo. 

No mesmo dia, também foi suspensa a circulação de transporte interestadual com origem de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Distrito Federal e outras unidades da federação em que a circulação do vírus estivesse confirmada ou com situação de emergência decretada.

Neste mês, contudo, houve um recuo. Apesar de Witzel ter prorrogado até 30 de abril a quarentena, que mantém parte do comércio e escolas fechadas e impede passeios em praias e parques, as restrições foram afrouxadas em 30 cidades do interior, onde não foram registrados casos da covid-19. 

A orientação do Ministério da Saúde é que cidades e estados que implementaram medidas de distanciamento social ampliado podem migrar para o distanciamento seletivo se o número de casos confirmados não tiver impactado em mais de 50% a capacidade hospitalar instalada existente antes da pandemia.

O critério é criticado por especialistas que apontam que a falta de uma testagem ampla da população e as diferenças no número de leitos entre municípios são entraves para que os gestores possam fazer uma avaliação segura. “Como você quer diminuir o isolamento social se não sabe em que cidade está circulando o vírus e com que intensidade porque você não está testando?”, afirmou o infectologista Julio Croda, ex-diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, em entrevista ao HuffPost.

Ceará

O Ceará contabiliza oficialmente 1.800 casos confirmados da doença e 91 mortes.Há estimativas de que o número real de casos no estado seja de 12 mil infectados no estadoEntre as capitais, a incidência em Fortaleza é recorde (573 por milhão de habitantes). 

A previsão é de que os hospitais ficarão sem UTIs para internar pacientes de covid-19 em 5 de maio, de acordo com o simulador desenvolvido por pesquisadores das USP. “No auge da demanda, serão necessárias 4.259 novas UTIs. Essa demanda corresponde a 96,98 vezes o número de leitos de UTI dedicados à covid-19 e 5,91 vezes o número total de UTIs instaladas na região”, segundo a projeção. O Estádio Presidente Vargas será usado como hospital de campanha, com 204 leitos.

Uma pesquisa divulgada nesta segunda pelo Grupo de Sistemas Complexos, do Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará (UFC), mostra uma redução no ritmo de transmissão após a adoção de medidas de isolamento social. “O estudo tem como base a data em que os exames para covid-19 foram realizados, e não a data da divulgação dos resultados”, afirma o professor José Soares.

Em 19 de março, o governador Camilo Santana (PT) decretou o fechamento de comércio, templos, igrejas, museus, barracas de praia, e outros locais que permitam a aglomeração de pessoas. O decreto também prevê a interrupção do serviço de transportes intermunicipais e de barreiras terrestres nas rodovias, a cada divisa do estado. Segundo dados da In Loco, no sábado, o isolamento foi de 55,7%.

Amazonas

A capital do Amazonas é a cidade que mais preocupa o Ministério da Saúde. “Manaus está no ponto em que a curva de atendimento está muito próxima da nossa linha de capacidade de atendimento”, afirmou o secretário-exeutivo da pasta, João Gabbardo, nesta segunda. De acordo com o secretário-executivo, até quinta-feira (16), serão enviados 7 médicos e 10 enfermeiros para a cidade.

Ele informou que o hospital de campanha em construção na região deve atender à população indígena e que foram liberados 350 leitos para o hospital de referência. 

A capital do Amazonas reúne os principais ingredientes para o colapso: estrutura hospitalar limitada e crescimento acelerado do número de infecções. A taxa de ocupação dos leitos do estado chegou a 91%, segundo dados do governo, e o número de casos quintuplicou nos 10 primeiros dias deste mês — um aumento vertiginoso. 

De acordo com o simulador desenvolvido por pesquisadores das USP, o estado ficará sem UTIs para internar pacientes com a doença em 4 de maio “No auge da demanda, serão necessárias 983 novas UTIs. Esta demanda corresponde a 45,22 vezes o número de leitos de UTI dedicados à covid-19 e 2,82 vezes o número total de UTIs instaladas na região”, segundo a projeção.

Um dos fatores que têm impulsionado esse cenário trágico no estado é a dificuldade de adesão ao isolamento social. Manaus, que acumula o maior número de casos do estado, foi a cidade que registrou maior queda do distanciamento social entre as capitais. O índice caiu de 64,2% no dia 29 de março para 49,9% na última terça (7). A variação, apurada pela empresa In Loco, pode representar um aumento de mais de 17 mil pessoas nas ruas. No sábado, estava em 55,2%.

Em 4 de abril, o governador Wilson Lima (PSC) anunciou a proibição do transporte de passageiros intermunicipal e interestadual. Até 15 de abril, está restrito o funcionamento do comércio e de serviços considerados não essenciais. As aulas estão suspensas até 30 de abril.

Bruno Kelly / Reuters
A capital do Amazonas é a cidade que mais preocupa o Ministério da Saúde. 

Distrito Federal

De acordo com o simulador desenvolvido por pesquisadores das USP, o Distrito Federal ficará sem UTIs para internar pacientes com a doença em 6 de maio. “No auge da demanda, serão necessárias 843 novas UTIs. Essa demanda corresponde a 40,23 vezes o número de leitos de UTI dedicados à covid-19 e 2,52 vezes o número total de UTIs instaladas na região”, segundo a projeção. O Estádio Mané Garrincha será usado como hospital de campanha, com 200 leitos.

Nesta segunda, o DF registrou 15 mortes e 638 casos confirmados, de acordo com o Ministério da Saúde.

Inicialmente, o governador Ibaneis Rocha (MDB) foi um dos mais rígidos nas medidas de restringir a circulação de pessoas. Em 1º de abril, publicou um decreto determinando o fechamento do comércio e restringindo o funcionamento de alguns setores da economia. Os shoppings, por exemplo, continuam fechados e as aulas nas redes pública e privada estão suspensas até 31 de maio.

Por outro lado, em 7 de abril, o governador decretou a reabertura das agências bancárias das 11h às 16h. Dois dias depois, liberou a reabertura de lojas e fábricas de móveis, além do comércio de eletroeletrônicos e a liberação de funcionamento do Sistema S.

Amapá

Com 242 casos confirmados e 5 óbitos, o Amapá determinou medidas de isolamento social em 20 de março. Em 3 de abril, elas foram prorrogadas por mais 15 dias. As restrições decididas pelo governador Waldez Góes (PDT) incluem fechamento de lojas, shoppings, restaurantes, instituições de ensino públicas e privadas. As atividades comerciais liberadas estão restritas ao horário das 6h às 19h.

No dia anterior, o governo estadual e a prefeitura da capital, Macapá, já haviam anunciado a prorrogação da suspensão das aulas na rede pública estadual por mais 30 dias. O funcionamento das escolas foi interrompido em 18 de março. 

Neste sábado (11), o prefeito de Macapá, Clécio Luis, afirmou que mais da metade da população não tem cumprido o isolamento social.  De acordo com ele, a fiscalização será intensificada e medidas mais severas devem ser impostas se houver descumprimento. Segundo dados da In Loco, no sábado, o isolamento no estado foi de 52,3%.

De acordo com o simulador desenvolvido por pesquisadores das USP, o estado ficará sem UTIs para internar pacientes com a doença em 1º de maio. “No auge da demanda, serão necessárias 161 novas UTIs. Esta demanda corresponde a 72,98 vezes o número de leitos de UTI dedicados à covid-19 e 4,44 vezes o número total de UTIs instaladas na região”, segundo a projeção.