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14/01/2020 06:09 -03 | Atualizado 14/01/2020 09:59 -03

Estação do Brasil na Antártida é reinaugurada com reforço na segurança

Mau tempo adiou cerimônia desta terça-feira (14) para quarta (15). Base original teve 70% de sua estrutura destruída em um incêndio em 2012.

Divulgação Marinha
A Estação Antártica Comandante Ferraz será reinaugurada nesta terça-feira (14) após o incêndio de 2012 que destruiu 70% de sua estrutura original.

As tempestades de neve, o frio intenso e os ventos fortíssimos do continente gelado levaram as obras de reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz a se estender por três verões - 2017, 2018 e 2019. Renovada e ampliada após um incêndio, a nova base brasileira, na qual o governo investiu cerca de US$ 100 milhões - quase R$ 500 milhões - será reinaugurada nesta quarta-feira (15). A cerimônia seria nesta terça (14), mas justamente o mau tempo adiou a reinauguração. 

O incêndio de 2012 destruiu 70% da estrutura, matou dois militares que trabalhavam na base e deixou marcas. Coordenador do projeto para elaborar a nova arquitetura da estação - houve um concurso internacional em 2013 -, Emerson Vidigal, do Estúdio 41, em Curitiba, relatou ao HuffPost Brasil que percebeu uma especial preocupação com a segurança. 

Contou ter tido, após vencer a disputa, inúmeras conversas com a Marinha e com os pesquisadores que já participavam do Programa Antártico Brasileiro (Proantar) para fazer as adaptações conforme as necessidades. Houve pedidos de atenção para os riscos de um novo incêndio. “Parece que o fato de terem sofrido o incêndio anterior deixou todos bem sensíveis”, disse. “Esse é um trauma que o edifício novo precisa ajudar a resolver.”

No prédio que será inaugurado, há mais opções e tecnologia. Além de mais saídas de emergência “com dimensionamento generoso e acima das normas estabelecidas no Brasil”, segundo Vidigal. Ela conta ter duplicado as condições de saída e destaca a implantação de diversos sistemas de combate e controle de incêndios, como sensores de fumaça, alarmes, sprinklers, extintores de incêndio e exclusão de oxigênio ambiente. 

Além disso, as paredes de todos os cômodos foram feitas para suportar o fogo por determinado tempo, a depender do grau de risco de cada ambiente. Por exemplo: a cozinha e o laboratório suportam, fechados, o fogo por até 3 horas antes de as chamas se expandirem pelo resto do prédio, o que dá aos brigadistas tempo de agir. Já os quartos, com menos chances de incêndio, segurariam as labaredas por 30 minutos, explica o arquiteto. 

Divulgação Marinha
No inverno, é praticamente impossível sair da base. Por isso as obras aconteceram somente nos seis meses de verão.

Obras só no verão gelado

O clima antártico fez com que o trabalho de reconstrução da estação ocorresse a cada seis meses. A empresa chinesa Ceiec (China Electronics Import and Export Corporations) venceu uma licitação em 2015. Um primeiro edital já havia sido lançado anteriormente, mas não houve interessados até 2014.

Depois disso, teve início o longo processo de construção: primeiro, com prospecção do solo e dimensionamento das gigantescas fundações, construídas em blocos pré-moldados e peças de aço que variam em torno de 2 metros. 

As peças, levadas de navio da China para o continente gelado, iam pré-moldadas. Segundo Emerson, isso foi pensado antes, já no projeto. “Cada trecho do edifício é composto por módulos. A dimensão basicamente é de um navio naval. Pensa no porão do navio - tem a dimensão de um container naval”, diz. A ideia era que o máximo de coisas pudessem ser levadas prontas da China, para apenas serem “encaixadas” na Antártida. 

Divulgação Marinha
Área de convivência na Estação Antártica Comandante Ferraz que será inaugurada nesta terça-feira (14).

Aquecimento com economia de energia

Outro item que chama a atenção no projeto é a estrutura, que, na verdade, é composta por 2 paredes e ajuda na economia de energia. A externa é composta por superfícies metálicas com preenchimento em poliuretano com espessura de 22 cm. Vem então um vão de 50 a 60 cm e depois uma outra parede com isolamento térmico. 

“Com a temperatura negativa lá fora e as fortes rajadas de vento, temos que manter a temperatura dentro entre 20ºC e 21ºC para dar condições de trabalho. Tem um sistema de calefação, mas se o sistema começa a perder muito para o meio, você começa a gastar muita energia. Esse sistema ajuda a economizar”, explica. 

A estação utiliza ainda energias renováveis, como a eólica, que aproveita a sempre constante presença de ventos na região, e a solar, para o verão, quando são mais de 20 horas com luz em um único dia. 

Divulgação Marinha
A academia da nova base brasileira na Antártida.

De 5 para 17 laboratórios

Depois de o fogo consumir 70% da antiga base, criada em 1984, a demanda era por uma estrutura, além de mais segura, maior e mais moderna. 

A nova estação tem 17 laboratórios - antes eram cinco -, 14 internos e três externos, em módulos isolados. Há áreas de convivência, de operação e técnicas. São, ao todo, 4,5 mil metros quadrados, com capacidade para acomodar 64 pessoas, 2 por quarto.

O complexo é dividido em três blocos. No lado leste, estão as áreas de pesquisa (laboratórios), de convívio (cozinha, refeitório, enfermaria, oficinas) e de serviços da estação. O lado oeste é a área privada da base, onde moram os militares e pesquisadores, e também há o espaço para os hóspedes e os espaços de convívio. Nas partes de baixo deste bloco ficam os depósitos de mantimentos e reservatórios de água.

Por fim, o bloco técnico tem todo o sistema de rede elétrica, sanitária e de automação da estação, além da garagem das viaturas. É lá que ficam a estação de tratamento de água e esgoto, casas de máquinas e sistemas de aquecimento, além do incinerador de lixo.

Maior estrutura de pesquisa na região

Mesmo após o incêndio de 2012, as pesquisas na estação não foram interrompidas. Pesquisadores brasileiros continuaram seguindo para a Ilha Rei George e desenvolvendo seus trabalhos em uma estação provisória. Foi o que contou ao HuffPost o professor da UnB (Universidade de Brasília) Paulo Câmara, do Departamento de Botânica, que coordena um projeto de estudos sobre a vegetação na Antártida. 

Ele destacou que houve prejuízos, sim, à pesquisa. “Muita gente perdeu dados, computador, material”, disse. Mas que elas continuaram sendo feitas a bordo do navio Almirante Maximiano e em acampamentos montados em diferentes pontos, além de estações de países amigos, como o Chile. 

O Brasil é um dos países que fazem parte do Tratado da Antártida, assinado em 1959 e em vigor desde 1961, e que proíbe qualquer militarização do continente, reservando-o exclusivamente para atividades pacíficas, com liberdade para pesquisas científicas, proteção do meio ambiente e proibindo qualquer reivindicação territorial. Atualmente, há 50 estados-membros, com os Estados Unidos como depositário. 

O Brasil aderiu ao tratado em 1975 e desenvolve pesquisas na região desde 1982, requisito para os signatários. “O Brasil é um dos poucos países que pode decidir os destinos deste continente. A estação vai nos permitir pesquisa de qualidade”, diz Câmara, que avalia a nova base como um “salto qualitativo”. ”É a maior estrutura de pesquisa presente na região.”

Em 2018, o Ministério da Ciência e Tecnologia e o CNPq (Conselho Nacional Científico e Tecnológico) lançaram um edital no valor de R$ 18 milhões para financiar 16 projetos do Proantar - valor para cobrir despesas com as pesquisas até 2022. Os temas variam de estudos da atmosfera, passando por medicina polar, a inovações tecnológicas, história da geologia antártica e mudanças climáticas, entre outros.