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30/01/2020 05:50 -03

Sequência de erros no ‘melhor Enem de todos os tempos’ coloca exame nacional em xeque

Para especialista em avaliação educacional, apenas uma auditoria no processo poderia trazer de volta a credibilidade da prova, que é porta de entrada no ensino superior.

José Cruz/Agência Brasil
Antes da sequência de erros, ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmou que este teria sido "o melhor Enem de todos os tempos". 

Classificado pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, como “o melhor Enem de todos os tempos”, o Exame Nacional do Ensino Médio deste ano coleciona uma sequência de erros e falhas que não só coloca o chefe da pasta novamente na corda bamba, como também levanta questionamentos sobre a credibilidade da prova, usada como porta de entrada no ensino superior, especialmente público.

“O que está acontecendo agora coloca em xeque a credibilidade do Enem. São milhões de jovens ansiosos para definir aspectos de seu futuro”, destaca o professor da Faculdade de Educação da USP e especialista em avaliação educacional Ocimar Alavarse, para quem só uma auditoria no processo poderia trazer de volta a confiança no exame. 

Horas depois de o ministro elogiar o exame, teve início uma avalanche de reclamações. Logo após a liberação dos resultados, no dia 17, estudantes foram às redes sociais reclamar que a nota não era compatível com a correção feita com base no gabarito oficial.

No dia seguinte, o Ministério da Educação reconheceu a falha. O erro atingiu 5.974 dos 3,9 milhões de estudantes que participaram do processo.

De acordo com o presidente do Inep, órgão do ministério responsável pela prova, Alexandre Lopes, a prova desses estudantes foi corrigida por um gabarito trocado. Segundo ele, a gráfica que imprime os cadernos de questões e o caderno de respostas cria códigos de barra para cada um deles. O erro teria acontecido na geração dos códigos e na hora em que outra máquina une os dois documentos.

Na avaliação de Alavarse, uma auditoria poderia esclarecer exatamente onde foi o erro. Para ele, a justificativa de que foi na gráfica é pouco crível. “É uma coisa muito estranha essa história do papel. Precisa ser melhor explicada, pode ser que o problema não seja exatamente na gráfica.”

A suspeita do professor é que a falha esteja no banco de dados. Ele explica que provas deste tipo são elaboradas por meio dessa base. E depois disso, “não entra em cena a mão humana”. A prova vai para uma gráfica, onde é feita a composição dos cadernos de prova: a máquina empacota as provas por sala, e depois, por escola.

″É tudo automático. A mão humana só entra em contato quando abre o lacre na sala de aplicação e começa a tirar a prova. É um processo todo automatizado. Não é a máquina que faz a composição da prova com o gabarito, é um arquivo, uma base de dados, que tem todas as combinações. Você manda um comando para a gráfica com as combinações”, diz. “Pode ser que esses dados estejam equivocados. Isso precisa ser apurado.”

Alavarse destaca que o Brasil faz provas personalizadas — com diferentes ordens de questões e uma para cada estudante — desde o começo dos anos 1990. “Existe todo um acúmulo de experiência, inclusive no Inep, de como acompanhar o processo. No caso do Enem, isso é decisivo. Se trocar a referência de prova do caderno que o aluno fez, a nota dele vai ser alterada. Geralmente, sai menor.”

Uma auditoria, de acordo com o especialista, levaria de três a quatro dias. “A grande varredura terá que ser feita na base de dados. Ali que pode estar o problema. É preciso ver os protocolos da gráfica, o que pode ser feito por uma força-tarefa.”

Dúvidas sobre a lisura do processo

Ele ressalta que o principal objetivo da prova é calcular a proficiência dos candidatos e que é justamente essa habilidade que está sendo questionada. 

“As pessoas que fazem essa prova estão pensando nessa possibilidade [de entrar no ensino superior]. Diante disso, não pode pairar dúvidas de que a nota que o candidato tem é fruto do que ele marcou no caderno dele. Não poderia haver questionamento sequer sobre a lisura do processo”, frisa.

O que está acontecendo agora coloca em xeque a credibilidade do Enem. São milhões de jovens ansiosos para definir aspectos de seu futuro.Ocimar Alavarse, especialista em avaliação educacional

Com o resultado do exame, o estudante pode se inscrever no Sisu (Sistema de Seleção Unificado). Neste ano, o Sisu está oferecendo 237.128 vagas em 128 instituições de ensino superior públicas em todo o país.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada nesta quarta, funcionários do MEC revelaram que não houve revisão dos parâmetros que definem o peso dos itens da prova, após o reconhecimento de que, na amostra, havia candidatos afetados pelo erro na correção. O governo admitiu que não fez o recálculo, mas disse que a media seria “inócua”.

“Caso um indivíduo que teve baixo escore devido a erro na identificação da prova, tenha sido selecionada na amostra, isso não afeta o processo de calibração, já que, se esse indivíduo não tivesse baixo escore, outro indivíduo com baixo escore teria sido selecionado no seu lugar (sic)”, afirma o Inep em nota usada na Justiça, segundo o jornal O Globo.

“Em suma, a proporcionalidade de indivíduos com baixo, médio e alto desempenho foi mantida independentemente da troca de gabarito”, acrescenta o órgão.

Wilson Dias/Agência Brasil
Abraham Weintraub e Alexandre Lopes, presidente do Inep. 

Sisu

Com a suspeita de que estudantes poderiam ser prejudicados com o erro nas correções, a Justiça suspendeu a divulgação dos resultados do Sisu -  sistema do ministério por meio do qual instituições públicas de ensino superior oferecem vagas. Ainda assim, o MEC chegou a divulgar os resultados por alguns segundos na data prevista (dia 28). Questionado, o ministério alegou que as notas não eram as oficiais.

No fim do dia, quando o governo conseguiu derrubar a decisão da Justiça e divulgou as notas, o resultado batia com o que havia sido publicado pela manhã.

Nesta quarta-feira (29), as queixas foram outras. Há quem reclame de dificuldade para se inscrever na lista de espera. O MEC disse que recebeu reclamações, mas que o sistema tem funcionado normalmente. 

A maneira como o MEC reagiu aos alertas de erros na prova também incomodou professores e estudantes. Inicialmente, o ministro minimizou e afirmou que eram críticas de pessoas vinculadas “a partido radical de esquerda”. No dia em que a pasta admitiu o erro na correção das provas dos estudantes, Weintraub publicou um vídeo no Twitter tocando gaita.