Tamo Junto

Cometi um grande erro. E agora?

É próprio da natureza humana que se fique chateado quando cometemos um erro. Mas é muito importante tentar manifestar a nossa vulnerabilidade.

Ops.

Então quer dizer que você respondeu aquele email de trabalho com comentários desnecessários para a pessoa errada. Ou quer dizer que você perdeu completamente a noção do horário e se atrasou para a reunião mais importante do dia. Ainda, aquela discussão com o seu parceiro na noite anterior foi longe demais e você disse coisas que não queria ter dito.

Parece que o seu mundo vai acabar, certo? Errado.

É claro que todos nós sabemos que isso não é verdade. Todo mundo erra de vez em quando e provavelmente isso acontecerá com você mais vezes do que gostaria. Os nossos erros raramente são tão catastróficos quanto a dimensão que damos a eles. E isso não quer dizer que nós deixamos de ser responsáveis pelas consequências de nossas falhas.

Embora seja verdade que há erros mais significativos que os outros, eles não precisam ser tratados como os desastres que vão acabar com a nossa vida.

Então, o melhor que pode ser feito é respirar fundo e descobrir como lidar com essa situação.

O que fazer quando percebemos que cometemos um erro

Talvez, o primeiro passo seja realmente parar um pouco e examinar o erro.

“Existem muitas maneiras de errar. A primeira coisa é tentar entender o que aconteceu e o que nós estamos chamando de erro”, explica o cientista social Luis Mauro Sá Martino em entrevista ao HuffPost Brasil.

Segundo Sá Martino, existem vários tipos de erros e saber exatamente o que nós fizemos nos ajuda a lidar com as consequências, como os sentimentos de culpa, remorso e aquela vontade de voltar no tempo e refazer as coisas.

Há aquelas circunstâncias em que a gente erra sem saber. Muitas vezes, a gente não tem acesso a todas as informações sobre algo e acabamos errando, por exemplo.

Outra situação é quando erramos porque naquele momento nós não raciocinamos direito, acabamos nos deixando levar por uma emoção e cometemos um equívoco.

Ainda, há outro tipo que é quando a gente erra sem motivo aparente. Tendemos a achar que somos seres super racionais, mas, às vezes, os motivos de nossas falhas estão muito mais em nosso inconsciente, na nossa personalidade, na subjetividade que compõe cada um.

“Primeiramente, nós temos que pensar o que estamos chamando de erro. Será que não atingir um patamar que é muito alto e que colocaram para mim, e não que eu coloquei, é um erro? Ou será que as condições não me permitiram acertar?”, questiona Sá Martino.

Mas será que realmente a culpa é sempre nossa?

Talvez, uma das fontes de culpa contemporânea mais angustiantes é a construção de patamares inatingíveis e a sensação que todos devemos ser super-humanos aos 30 anos.

Isso é irreal, mas a frustração que vem com toda essa situação e a sensação de que nunca somos bons o suficiente é esmagadora. É cômodo achar que a culpa de tudo é nossa.

“Diante de um erro, é importante questionar se, nessa condição, você poderia acertar. Se não há escolha, não existe culpa. Esse é um ponto clássico da ética. Eu sou inteiramente responsável por minhas escolhas, claro. Mas isso quando eu tenho escolha”, enfatiza o cientista social.

A nossa ideia de culpa, então, estaria diretamente ligada a possibilidade de escolha. Se eu não posso escolher, eu deveria me perguntar se eu tenho culpa em errar.

“No cotidiano, não é sempre que eu posso escolher. Às vezes a vida cria armadilhas que a gente não consegue escapar naquele momento. É preciso sempre pensar na natureza do erro: eu podia não ter errado? Eu tive escolha?”, explica Sá Martino.

Nota mental: ninguém é infalível

Mas, e se depois de analisar a situação com certo distanciamento, eu concluir que, sim, a culpa é minha. O que fazer? Parece óbvio, mas assumir o erro e pedir desculpas pode parecer assustador.

“Nós nos esquecemos que uma das coisas que nos tornam iguais é a nossa vulnerabilidade. Eu erro, eu erro feio, mas você também. Então, quem sou eu para cobrar dos outros uma perfeição que eu não posso exigir nem mesmo de mim?”, questiona.

Uma das razões pelas quais às vezes nos apegamos as coisas que sabemos que estão erradas é devido ao nosso viés de compromisso.

Tendemos a deixar que nossas decisões e ações passadas ditem como nos comportaremos no presente e no futuro - mesmo que de uma forma irracional.

Para algumas pessoas, ser visto como alguém que é impecável é um grande mérito. Nesse caso, reconhecer que uma decisão que tomamos foi um erro destrói essa imagem.

E isso acaba por ser um gatilho, já que os nossos cérebros estão quase sempre trabalhando contra mudanças, agravando a dificuldade que temos em consertar qualquer falha na rota.

Então, sim, se você busca corrigir um erro é preciso ser honesto e crítico consigo mesmo e reconhecer que você falhou.

É próprio da natureza humana que se fique chateado quando cometemos um erro. Mas é muito importante tentar manifestar a nossa vulnerabilidade.

Se esquecermos disso, há um grande risco de criarmos uma ilusão e pensarmos que nós somos perfeitos, já aqueles que erram são os problemáticos.

“Esse é um sintoma que para mim é muito triste. Me parece que a cobrança por uma perfeição que é impossível de se atingir se espalha de maneiras diferentes entre as faixas de idade”, reflete Sá Martino.

Compreender um erro não é justificá-lo

E se reconhecer o erro é importante, o segundo passo é ainda mais crucial: aceitar que foi um erro, mas não permitir que isso defina a sua autoestima.

“Errar é ruim. A gente fica mal quando erra. Ficar mal é parte da natureza humana. Mas me parece que uma das cobranças contemporâneas é que a gente precisa estar sempre bem. E não é isso. A gente precisa do tempo de recolhimento”, diz.

Toda perda implica um tempo de luto, inclusive um erro. Mas é importante deixar claro que é um tempo. Não é ficar se cobrando para resto de sua vida.

“Errei. Foi ruim. A minha primeira reação vai ser sempre emocional. Mas depois eu passo para a elaboração desse sentimento. Eu realmente errei? Se eu tivesse feito de outro jeito, eu teria errado? Mas eu tinha a escolha de fazer de outro jeito?”

Ser excessivamente crítico com nós mesmos pode aumentar os nossos níveis de ansiedade. Se for possível, pare de ficar remoendo o erro e faça o que estiver ao seu alcance para não piorar a situação.

A solução, no entanto, não virá de uma ou duas ações que vão melhorar toda a sua vida. Mas ela passa por um processo de construção

“Entender o erro que nós cometemos não nos exime da responsabilidade por ele. O erro tem efeitos. Uma vez conscientes desses efeitos, nós temos que refazer a rota, pedir perdão, restaurar a ordem das coisas. Não é ignorar e fingir que o erro não existe”, afirma Sá Martino.