Assédio Sexual
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Assédio Sexual
MULHERES
10/03/2019 09:01 -03

Ela denunciou assédio sexual na Ernst & Young e foi submetida a uma série de retaliações

A Ernst & Young diz que está comprometida com a diversidade de gênero. Uma antiga executiva conta uma história diferente.

Quando Karen Ward começou a trabalhar na Ernst & Young, em 2013, apenas quatro gerentes seniores em sua divisão na megafirma de consultoria eram mulheres. Todos os altos executivos eram homens.

Era um indício alarmante, mas ela não se deu conta disso na época.

Afinal, Ward passara sua carreira cercada por homens, trabalhando no mundo quase inteiramente masculino dos bancos de investimento – no Morgan Stanley, no Bank of America e no Goldman Sachs, onde chegou a ser vice-presidente.

“Nunca passou por minha cabeça notar ou me incomodar com a ausência de mulheres em cargos de liderança”, disse Ward, 48 anos, falando ao HuffPost recentemente em sua residência elegante em Waxhaw, perto de Charlotte, Carolina do Norte.

Hoje ela enxerga a situação sob outra ótica. Ela diz que a ausência de líderes mulheres na EY não ocorre por acaso, mas é fruto de um ambiente hostil em que as mulheres são amesquinhadas, desvalorizadas e isoladas.

No final de setembro Ward moveu uma ação por discriminação sexual contra a EY junto à Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego (Equal Employment Opportunity Comission, ou EEOC), a agência federal americana que lida com queixas de direitos civis. Foi a segunda ação por discriminação sexual movida no ano passado contra a firma, que emprega 261 mil pessoas em todo o mundo.

Ward alega que foi sexualmente assediada por seu supervisor direto, Michael McNamara, que lhe teria dito que gostava de seus “peitos grandes” e “bunda bonita” e teria solapado a autoridade dela, roubando o crédito pelo trabalho feito por Ward.

McNamara não respondeu a pedidos de declarações. A EY disse que ele nega ter tido esse comportamento.

Mas esses incidentes marcaram apenas o início dos problemas de Ward. O que se seguiu foi uma complexa teia de retaliações que ela ainda está se esforçando para processar.

Ward disse que os homens no círculo de McNamara solaparam o trabalho dela por anos e que, mesmo depois de ele ter sido demitido, ela sofreu retaliação de todo um “clube do Bolinha” da rede de conhecidos dele, acabando por perder seu emprego e no mínimo centenas de milhares de dólares de pagamentos potenciais.

O relato dela revela os limites da era do Me Too. A simples demissão de um assediador sexual muitas vezes não ajuda muito a mudar a cultura reinante em uma empresa, como Ward descobriu. E o caso dela também mostra que, para as mulheres, ocupar um alto cargo e contar com privilégios nem sempre pode protegê-las de discriminação e assédio sexual. Seus diplomas da Universidade Stanford e da Wharton School e suas raízes nos altos escalões de Wall Street, nada disso evitou que ela se tornasse alvo de assédio.

O que aconteceu com Karen Ward contradiz o retrato que a EY gosta de pintar de si mesma como empresa esclarecida, comprometida com a diversidade e a inclusão.

A firma insistiu fortemente e reiteradamente que a demissão de Ward não teve relação alguma com discriminação ou assédio sexual. “Ao longo do tempo que ela trabalhou na empresa, a EY tomou medidas para promover e apoiar Karen”, disse a empresa ao HuffPost em comunicado. “A decisão de separar Karen não teve relação alguma com seu gênero. Deveu-se unicamente à incapacidade dela de alcançar metas de desempenho.”

O HuffPost é o único veículo noticioso a ter entrevistado Ward, que recebeu alguma atenção em setembro, quando ela moveu sua ação.

A história dela, relatada em uma série de entrevistas realizadas ao telefone e pessoalmente na casa dela, foi corroborada por 22 e-mails contemporâneos, uma carta e anotações de reuniões que ela enviou a executivos da EY, além de entrevistas com dois outros ex-funcionários da EY e com uma amiga íntima que foi sua confidente ao longo de todo o processo sofrido com a empresa

Bloomberg via Getty Images
Mark Weinberger, o CEO da Ernst & Young, falou publicamente do compromisso da empresa com a igualdade de gênero.

Noites em claro não são incomuns

Nascida e criada na Califórnia, Ward se mudou para Nova York para trabalhar no setor financeiro, trabalhando horas intermináveis em bancos de investimento. No dia 11 de setembro de 2001 ela estava caminhando ao trabalho na sede do banco Goldman Sachs, a algumas quadras do World Trade Center, quando os aviões atingiram as duas torres.

O CEO e o presidente do banco, Hank Paulson e John Thain, estavam no andar de baixo do prédio, no número 85 da Broad Street, ela recordou, e mandaram os funcionários subirem para suas mesas de trabalho, não obstante o caos. Mas Ward e uma amiga não se convenceram e resolveram sair andando. Nas semanas seguintes, sem poder voltar para o apartamento do centro onde vivia, ela acabou se hospedando com uma amiga em outra parte de Manhattan.

Ward decidiu que queria distância de Nova York. Começou a procurar empregos em lugares que não estivessem “na mira de terroristas”, explicou.

Ela acabou indo para a EY na Carolina do Norte, onde o ritmo é menos frenético. Ali ela conseguiu deitar raízes com seu marido e criar seu filho na comunidade tranquila e de alto padrão de Waxhaw. (Pelo fato de executivos bem pagos viverem lado a lado com criações de cavalos na região, a área ganhou o apelido de “cinturão do vison e do esterco”.)

“Meu ritmo de trabalho no Goldman Sachs não era muito propício para ter filhos e tudo isso”, ela explicou, em pé diante do balcão de mármore da cozinha de plano aberto de sua casa.

Ela nos tratou com cortesia e generosidade constantes. Nos ofereceu café, bagels, frutas e nos levou para conhecer sua casa, depois de se certificar de que seu filho, que estava fazendo sua lição de casa, não se incomodaria.

Ward se distanciou do estresse de Manhattan, mas trabalhar na EY trouxe todo um outro nível de ansiedade.

Falando ao telefone em dezembro, ela disse que o fato de relatar o que viveu na empresa a está forçando a reviver muito desse estresse. Não é incomum passar noites em claro, ela explicou. “É altamente perturbador”, comentou, começando a detalhar o que aconteceu.

Um aviso de que ela seria “vista como vaca”

Numa viagem de negócios em 2013, pouco depois de ela ter começado a trabalhar na EY, McNamara lhe enviou um torpedo às 2h convidando-a para um drinque. Ward recusou o convite. Depois disso, ele começou a solapar a autoridade dela.

Na mesma época, minutos antes de ela estar programada para falar numa mesa-redonda numa conferência de vendas, McNamara a mandou “ir para o fundo com as outras garotas”, aludindo às assistentes administrativas que estavam presentes. Ele então tomou o lugar dela no palco e chegou a usar as anotações dela. Ward se queixou do incidente para outro executivo do EY em um e-mail ao qual o HuffPost teve acesso.

McNamara também assumiu o crédito pelo trabalho de Ward, tirando o nome dela da documentação quando os contratos foram fechados.

Quando Ward alertou outros executivos sobre o comportamento de seu chefe, num primeiro momento eles a ignoraram ou a mandaram baixar o tom. Um executivo lhe disse para “tomar cuidado” porque ela estava “sendo vista como vaca”, segundo a ação judicial que ela moveu.

Ward disse que foi alvo do tipo de assédio sexual insidioso muito comum que tem menos a ver com sexo e mais a ver com poder. Ameaçados, os homens no comando, como ela diz que McNamara fez, podem usar o assédio (comentários hostis ou inapropriados, exclusão, convites sexuais) para fazer uma mulher sentir-se outsider e, basicamente, para obrigá-la a ficar “em seu devido lugar”.

“O assédio tem a finalidade de proteger a superioridade masculina no local de trabalho”, explicou em artigo acadêmico recente a professora Vicki Shultz, da Escola de Direito da Universidade Yale.

Ward disse que no escritório da EY em Nova York, onde ela ia para reuniões, ouvia alguns dos homens da divisão dela, o grupo de transações imobiliárias, trocando comentários sobre as partes do corpo feminino. Segundo a ação movida por Ward, os homens, contratados por McNamara, comentaram que puderam ver a “perereca” de uma colega quando posicionavam suas cadeiras perfeitamente para isso em um escritório de plano aberto. Além disso, segundo Ward, eles levavam clientes para clubes de strip-tease.

Eles não a excluíam dessas noitadas. Na realidade, a convidavam para ir com eles. Ela recusava os convites. “Era uma situação incômoda”, ela explicou.

Em setembro, depois de Ward mover sua ação, a EY divulgou comunicado descrevendo as alegações dela como “infundadas e sem mérito”. Em declarações e briefings dados mais recentemente ao HuffPost, a empresa rejeitou fortemente as acusações de Ward.

 “Por causa de você meu comparsa foi demitido”

Em 2015 a empresa a transferiu para a divisão de investment banking, afastando-a de McNamara.

Na época pareceu que era uma vitória para Ward, e a EY ainda enxerga a transferência sob essa ótica. Ward foi promovida a executiva e lhe disseram que os bônus seriam melhores.

Mas a alegria com a promoção durou pouco. Depois da transferência ser anunciada, Ward recebeu uma ligação de Troy Jones, um executivo solidário que trabalhava para a mesma divisão, mas no escritório da EY em Los Angeles. Ele estava preocupado, disse Ward.

Jones lhe disse que estavam transferindo Ward porque não gostavam dela. Ela se queixava demais, ele lhe disse no telefone, segundo a ação judicial movida por Ward. Ele lhe avisou que sua equipe antiga provavelmente não ia lhe encaminhar nenhum negócio, sendo que uma parte importante do trabalho dela consistia em trazer negócios novos e compartilhá-los.

“Há um problema aqui porque você é mulher”, Jones teria dito. “As mulheres não têm sucesso aqui.”

Jones não respondeu a pedidos de declarações enviados por e-mail. A EY disse que ele negou ter feito essas afirmações.

Para complicar as coisas, alguns meses depois de Ward ser transferida, McNamara foi demitido. A EY insistiu que isso não foi feito em função de Ward, mas que ele foi demitido porque não atingiu as metas de receita.

Mas é provável que a saída dele tenha agravado a situação de Ward. “Por causa de você meu comparsa foi demitido”, disse um dos ex-colegas de McNamara.

Em outras palavras, McNamara se fora, mas seus amigos não o haviam esquecido.

O que aconteceu a seguir, disse Ward, foi uma retaliação por ela ter posto a boca no trombone. Como Jones havia previsto, a equipe deixou de cooperar com Ward.

Ela foi ficando cada vez mais isolada em seu novo cargo na EY. Os contratos imobiliários estavam sendo fechados principalmente pelo grupo anterior dela, que a excluía intencionalmente do trabalho, segundo a queixa que ela moveu junto à EEOC.

O HuffPost reviu e-mails enviados por Ward a seu supervisor e outros superiores. Ela comunicou a eles várias vezes sua preocupação de estar sendo isolada por seus colegas, mas suas queixas foram ignoradas.

Em um telefonema com seu novo chefe, James Carter, diretor da divisão de investment banking, Ward reclamou da falta de cooperação e especulou em voz alta: “Será que é por eu ser mulher?”

Carter descartou essa hipótese e a aconselhou a tomar cuidado para não levantar a questão de gênero. “Não empurre essa pedra morro acima, senão ela vai rolar para baixo e esmagar você”, ele lhe teria dito.

O marido de Ward, o investidor imobiliário Rick Littlejohn, estava ao lado dela durante esse telefonema. “Eu estava segurando a mão dela. Ela pôs o telefone no viva-voz, e eu estava sentada ao lado dela, tentando acalmá-la”, ele contou. “Ela estava denunciando a seu chefe que estava sendo discriminada, e ele, basicamente, a mandou à p que p.”

Carter não respondeu a e-mails pedindo declarações, mas, segundo a EY, negou o relato dela.

“Isso não teria acontecido se ela fosse homem”

Ward ainda se aferrou à esperança de que aquilo teria sido o modo de Carter de lhe dar apoio. Ele a aconselhou a não levantar a questão de gênero, e ela obedeceu.

Inicialmente, os homens em posições seniores na EY enviaram anotações detalhando o novo papel que ela deveria exercer. Um memorando de 2016 ao qual o HuffPost teve acesso deixou claro que Ward estaria a cargo de todas as transações imobiliárias.

Mas pouco foi feito para consolidar a autoridade dela na prática, segundo os dois ex-funcionários que conversaram com o HuffPost.

Em ligações entre o grupo novo e o grupo anterior de Ward, os homens da equipe anterior tratavam Ward com desprezo, interrompendo-a quando falava ou tratando-a como subordinada. “Isso não teria acontecido se ela fosse homem”, comentou um ex-funcionário.

Depois de passar três anos no cargo, em agosto do ano passado ela recebeu ordens de concluir suas transações. Seu último dia de trabalho foi 31 de outubro. Como McNamara, Ward foi demitida supostamente por não alcançar as metas de receita determinadas.

A EY conversou longamente com o HuffPost, argumentando que não tem registro algum de que Ward teria prestado queixa por discriminação sexual ou viés de gênero enquanto trabalhou para a empresa. A empresa insistiu que Ward foi promovida e transferida para o grupo novo para ajudá-la a fazer seu trabalho. E que foi demitida porque não atingiu as metas de receita.

A firma compartilhou documentos que detalham o desempenho declinante de Ward durante o tempo que ela trabalhou para o grupo. Os documentos mostraram que Ward deixou de fechar vários negócios e que recebeu avisos repetidos de que precisava mudar a situação.

Ward também guardou e-mails e documentos. Ela os compartilhou com o HuffPost, e esses e-mails e documentos pintam um quadro mais nuançado. Fica claro que ela de fato se queixou de ser maltratada por seus colegas homens, embora nunca tenha dito explicitamente que se tratava de assédio ou discriminação sexual. A EY caracterizou essas queixas como politicagem no trabalho. E Ward parece ter alcançado metas importantes de receita, incluindo um contrato de US$4,95 milhões fechado no mês antes de ser demitida. (A EY insistiu que ela não exerceu um papel de liderança nessa transação e não merece crédito pleno por ela.)

A morte por mil cortes 

O que aconteceu com Ward é uma versão mais sofisticada de retaliação, disse a advogada de Nova Jersey Nancy Erika Smith, que trabalha com casos de assédio e discriminação sexual.

Ela aludiu à teoria da “pata do gato”, em que a repercussão negativa não vem diretamente do assediador, mas de seus aliados ou outras pessoas que se sentem ofendidas pelo fato de uma mulher ter prestado queixa.

Smith, que representou a ex-apresentadora da Fox News Gretchen Carlson na ação que esta moveu contra o então presidente da emissora, Roger Ailes, disse que, à medida que as empresas vão ficando mais hábeis em lidar com acusações de assédio sexual, a retaliação pode ocorrer de modo lento, por meio do isolamento da pessoa que prestou a queixa.

“É muito mais difícil comprovar uma ‘morte por mil cortes’ do que comprovar que ‘ela se queixou e nós a demitimos’”, explicou a advogada.

Em abril do ano passado, Jessica Casucci, ex-executiva da EY, abriu uma queixa contra a empresa junto à EEOC. Os detalhes das queixas dela e de Karen Ward parecem muito diferentes: Casucci disse que foi sexualmente agredida por um colega da EY que teria apalpado seus seios e nádegas em um bar na presença de vários outros executivos da EY.

Mas ela tem algo em comum com Ward: quando se queixou do comportamento de seu agressor, a firma não fez nada.

O advogado de Casucci, Michael Willemin, da firma de advocacia Wigdor, de Nova York, também está representando Karen Ward.

As coisas deveriam ter sido tranquilas

Em novembro, quando Ward recordou o tempo que passou na EY, seus olhos transmitiram o espanto que sente até agora.

“Pensei no fato de eu ter estudado nas melhores faculdades, ter trabalhado duro em Wall Street e pensado que depois disso, as coisas deveriam ser tranquilas para mim no trabalho”, ela comentou. “Mas foram tudo menos isso.”

Ela disse que se esforçou muito para aproveitar seu novo papel. Sem novos negócios encaminhados por seus colegas, ela se esforçou e viajou extensamente em busca de negócios para trazer para a empresa.

O isolamento ao qual foi submetida intensificou tremendamente seu estresse. Littlejohn disse que perto do final de seu tempo trabalhando na EY Ward estava deprimida e muitas vezes não conseguia dormir.

Quando, em e-mail enviado a Carter em março de 2016, Ward mencionou o fato de ter sido isolada de seu grupo antigo, ele deu uma resposta curta, em tom de pouco-caso. “Não precisa me perguntar de novo sobre isso. Está na minha agenda, mas recorde-se que lhe pedi paciência”, ele escreveu. “Não posso forçar isso a acontecer.”

Porém, quando ela começou a trazer negócios que ela mesmo encontrara, Ward observou que Carter lhe pedia para redigir memorandos detalhados antes de dar sinal verde aos negócios. Seus colegas homens não eram obrigados a se dar ao mesmo trabalho, ela disse.

A EY negou fortemente, dizendo que Carter teria dado todos os incentivos a Ward para assegurar que seus negócios fossem fechados, para que ela pudesse injetar dinheiro no grupo dele.

Ao mesmo tempo, ela continuou a se manifestar sobre o que estava acontecendo, tendo em dado momento se sentado com um representante do RH para se queixar do gelo ao qual seus ex-colegas a estavam submetendo, segundo anotações revistas pelo HuffPost.

Ela continuou a tentar seguir adiante até agosto passado, quando Carter lhe telefonou dizendo que a empresa ia fechar seu grupo na divisão de investment banking. Ela e sua equipe foram demitidos. Carter lhe deu tempo para concluir seus negócios. O último dia de Ward na empresa foi 31 de outubro. “Achei que eu ia conseguir virar a situação”, ela disse. “Agora vejo que aquela pedra pesada me esmagou.”

Confiar na empresa

Alguns dias após o último dia de Ward trabalhando para a EY, numa luxuosa sala de conferências em Nova York com vista ampla do rio Hudson, a diretora de diversidade e inclusão da Ernst & Young, Karyn Twaronite, sentou-se na cabeceira de uma mesa longa de conferências para comandar algo chamado um Café da Manhã de Pertencimento, com travessas de frutas e pães.

Cerca de dez jornalistas – todas mulheres, excetuando um homem negro – se reuniram para ouvir Twaronite falar da pesquisa mais recente da EY, que demonstrou a importância de as pessoas se sentirem incluídas no trabalho. Foi a iniciativa mais recente no longo esforço da EY para retratar-se como uma empresa esclarecida e diversa, apesar de sua liderança quase inteiramente branca e masculina.

“Queremos que todos sintam que fazem parte”, disse Twaronite.

Ela foi mencionada com destaque na queixa por discriminação sexual movida por Casucci.

Casucci disse a Twaronite em 2016 que um executivo sênior do setor fiscal apalpou seus seios e nádegas diante de dois outros executivos numa viagem de negócios à Flórida. Enquanto o fazia, o executivo teria lhe dito “estou querendo trepar com você há tanto tempo”.

Casucci disse que também houve e-mails em que o executivo lhe fez convites indesejados. “Por que você guardou esses e-mails?”, Twaronite lhe perguntou, segundo a ação judicial. Foi como se Twaronite não se solidarizasse com ela e estivesse interessada apenas em proteger o executivo, segundo a ação.

Twaronite lhe disse para “confiar na empresa”, que a empresa trataria suas alegações com seriedade. No entanto, nos meses e anos seguintes, foi Casucci quem acabou recusando projetos de trabalho para evitar ser obrigada a rever aquele profissional.

O executivo foi demitido apenas depois de ela ter movido uma queixa por discriminação e de a história ter sido divulgada pela imprensa. 

(Não quero que minha filha pense que não tem todas as oportunidades que meus filhos homens têm.)

A queixa de Casucci contra a EY foi resolvida em acordo extrajudicial particular, e as partes são obrigadas a manter silêncio devido a exigências de confidencialidade, de modo que o público nunca terá acesso à verdade.

“As várias alegações foram analisadas, todos que mereciam ser punidos o foram, todos os outros citados foram inocentados, e consideramos a questão encerrada”, disse a EY em comunicado ao HuffPost. A firma disse que compartilhou com seus profissionais “o que ocorreu, quais processos não funcionaram a contento, o que foi aprendido e como estamos nos fortalecendo”.

A empresa também detalhou uma longa lista de reformas e novas medidas que adotou desde então, incluindo a criação e implementação de uma “estrutura de consequências”, a intensificação de treinamentos, a adoção de políticas contra o bullying, a exigência de informar a empresa sobre relacionamentos pessoais e a melhora do processo investigativo, além de programas para assegurar o acompanhamento e proteções para funcionários que registram queixas.

Travis Dove for HuffPost
Ward está procurando trabalho, mas desconfia que as declarações da Ernst & Young a seu respeito tenham dificultado a busca.

Solidão

Hoje Karen Ward está procurando emprego. “Estou me sentindo sozinha”, ela comentou. Ela já viu algumas ofertas promissoras darem em nada e desconfia que as declarações públicas da EY sobre ela no ano passado sejam um fator que contribuiu para isso.

Há grande chance de o caso dela seguir o mesmo rumo que o de Casucci. Antes de ser contratada, Ward abriu mão de seu direito de processar a EY em tribunal público, concordando em vez disso que, se fosse o caso, qualquer disputa iria para arbitragem. Neste momento a ação dela está sendo ouvida nesse mundo fechado e muitas vezes secreto. É possível que ela não tenha acesso a todas as provas que seriam necessárias para comprovar que ela sofreu discriminação.

Se o juiz decidir contra Ward, ela terá pouca base para recorrer da decisão.

Recentemente, diante de críticas amplas à prática, várias grandes empresas – incluindo a Microsoft, Uber e Google – anunciaram que não vão mais se valer das cláusulas de arbitragem e vão permitir que funcionários movam ações por discriminação sexual contra elas em tribunais públicos.

Não a EY

Embora Ward e seus advogados tenham pedido vàrias vezes à empresa para libertá-la da exigência da arbitragem, a empresa se negou.

Depois de registrar sua queixa, no outono do ano passado Ward escreveu uma carta ao CEO da EY, Mark Weinberger, que já se manifestou publicamente em defesa da igualdade de gêneros. Ward relatou o que vivenciou na empresa e pediu que ele a libertasse da cláusula de arbitragem.

“Sr. Weinberger, o senhor já disse que não quereria que sua filha fosse tratada diferentemente de seus três filhos homens no trabalho. No entanto o senhor comanda uma empresa que rotineiramente trata mulheres como cidadãs de segunda categoria”, ela escreveu.

Weinberger não respondeu.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.