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20/03/2019 15:35 -03

É uma decisão política abrir mão de status diferenciado na OMC, diz chanceler

Mudar de posição na OMC foi exigência dos EUA para apoiar o ingresso do Brasil na OCDE.

Associated Press
Ernesto Araújo: "Não dá para fazer essa nova politica que estamos querendo com a velha politica externa".

Ao fazer um balanço da viagem do presidente Jair Bolsonaroe de sua comitiva aos Estados Unidos, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que atender à exigência do governo Trump de abrir mão do tratamento especial na OMC (Organização Mundial do Comércio), como país emergente, foi uma decisão política.

A imposição foi feita pelo país aliado para apoiar a entrada do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), algo que o governo brasileiro considera fundamental para aumentar a credibilidade junto a investidores estrangeiros. Ao renunciar o tratamento diferenciado, o Brasil perderá condições mais flexíveis de prazos em acordos comerciais e em relação a barreiras a produtos.

De acordo com o chanceler, também é difícil entrar no centro decisório da OMC se o país continuar querendo ter um status diferenciado. “Podemos influenciar no que vem por aí na OMC, em reformas necessárias em favor de nossos interesses. Tem aspectos técnicos [abrir mão do status de país emergente], mas é uma decisão política muito clara de expressar essa nossa visão de grandeza, através de uma nova postura que não depende de ficar pedindo status diferenciado”, disse nesta quarta-feira (20).

O ministro afirmou que o resultado da visita aos EUA mostra uma mudança de postura no Brasil. Segundo ele, antes o País se olhava em um espelho que o distorcia, “que era cabedal de distorção ideológica e de falsa tradição”. “Nos mostrava como país pequeno e tímido, que precisava de tratamento diferenciado, que não tem condições de chegar lá, ficava sempre como ator secundário.”

Para ele, o Brasil se coloca agora como um país grande, que tem condições de ser aliado da Otan e de entrar na OCDE.

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Bolsonaro e Trump tiveram uma reunião na terça-feira (19) para conversar sobre a relação entre os dois países. 

O presidente Donald Trump, no entanto, não deu nenhuma garantia concreta em relação à Otan e à OCDE. Ele anunciou a “intenção” de designar o Brasil como um aliado prioritário Extra-Otan. A expectativa é que se o status for concedido, o Brasil tenha mais acesso a acordos de cooperação militar e tecnológica com os EUA e apoio militar caso seja agredido por um país que não integre a organização.

Em relação à OCDE, Trump manifestou seu apoio para que o Brasil inicie o processo de adesão com vistas a tornar-se membro pleno, desde que atendesse à exigência em relação à OMC.

Segundo o chanceler, os resultados foram bastante positivos. “O Brasil tem que estar na primeira categoria. Isso que uma potência indiscutível, como os Estados Unidos, estão reconhecendo, incluindo no seu comunicado oficial ao apontar o Brasil como um líder global”.

“Não estamos simplesmente negociando um ‘toma lá dá cá’, estamos construindo algo, com a visão de que estamos construindo uma coisa que pode ser boa para as pessoas”, acrescentou.

 

Vistos, trigo, carne e comércio

Com o mesmo argumento de ser um país grande, Araújo enalteceu a decisão unilateral do Brasil de dispensar os turistas americanos da necessidade de visto. Ele afirmou que é difícil antever o impacto em números, mas disse que o País poderá concorrer com outros países também distantes dos EUA e que não exigem visto. “As vantagens para o Brasil são bastante óbvias”, disse.

Para ele, há uma correção de imagem. “Não temos mais esse complexo de achar que precisamos de reciprocidade ou vão achar que somos um país menor.” Ele ressaltou ainda que houve avanços para permitir a participação do Brasil” no chamado “Global Entry”, que agiliza a entrada nos Estados Unidos de viajantes frequentes, como empresários.

Não temos mais esse complexo de achar que precisamos de reciprocidade ou vão achar que somos um país menorErnesto Araújo, ministro das Relações Exteriores

O chanceler também defendeu a decisão de zerar a tarifa para importação de trigo dos EUA. Em contrapartida, ele destacou que o governo americano se comprometeu a agendar uma visita técnica para inspeção da carne bovina ‘in natura’ brasileira, que está embargada desde 2017. Isso, contudo, não é garantia que o embargo será suspenso - nem a curto, nem a médio prazo.

Para o ministro, entretanto, o contexto da visita permitiu avanço em negociações. “É muito mais fácil negociar quando as pessoas estão alegres, sorrindo, numa relação boa”. A previsão dele é que entrem para o debate a comercialização de aço e etanol entre os dois países.