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27/03/2019 18:07 -03

Chanceler diz que não houve golpe militar no Brasil em 1964

Segundo Ernesto Araújo, houve 'um movimento necessário para que o Brasil não se tornasse uma ditadura'.

Vinicius Loures/ Câmara dos Deputados

Em audiência na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, o chanceler Ernesto Araújo disse, nesta quarta-feira (27), que não houve golpe militar em 1964, mas “um movimento necessário para que o Brasil não se tornasse uma ditadura”. 

A declaração polêmica se dá em meio à discussão sobre a possível celebração, pelo governo Bolsonaro, do golpe de 31 de março de 1964, data em que os militares tomaram o poder no país. A ditadura militar, que deixou 434 mortos e desaparecidos, segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade, só terminou em 1985.

“Não considero um golpe. Considero que foi um movimento necessário para que o Brasil não se tornasse uma ditadura. Não tenho a menor dúvida disso. Isso é minha leitura da história”, disse Araújo, ao responder a pergunta do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ). 

Depois, questionado pelo líder do PSOL na Câmara, Ivan Valente, se ele não considerava ter havido uma ditadura militar no País entre 1964 e 1985, o chanceler afirmou que essa é uma “discussão de conceitos e palavras que não é relevante para a nossa política externa”. 

Nesta quarta-feira (27), uma juíza federal mandou intimar o presidente Jair Bolsonaro para responder a uma ação popular do advogado Carlos Alexandre Klomphas que pede que sejam barrados festejos em torno do aniversário do golpe no próximo domingo, 31 de março.

Araújo também foi bastante questionado pelos deputados sobre os acordos fechados durante visita do presidente Bolsonaro aos Estados Unidos, e o ministro teve, inclusive, que responder sobre ter ficado de fora da reunião no Salão Oval, entre Donald Trump e Bolsonaro, da qual participou o filho do presidente, Eduardo.

“Todo mundo que participou desse processo [da viagem] sabe da centralidade que eu tive - como é minha obrigação ter, de trabalhar para conseguir uma agenda extremamente positiva para o Brasil”, disse Araújo, ao lado de Eduardo Bolsonaro, que é presidente da Comissão.

Ele rebateu as críticas de “entreguismo” do Brasil aos Estados Unidos, por ter tomado decisões que, a princípio, parecem muito mais generosas com os americanos do que a recíproca.

“O que eu noto é uma certa tendência de identificar que, com a China, a gente tem que fazer tudo que a China quiser, e isso não é considerado entreguismo, mas racionalidade econômica”, disse. “Vejo muito entreguismo em relação à China.”

Vinicius Loures/ Câmara dos Deputados

Sobre a decisão unilateral de abrir mão da necessidade de vistos para cidadãos dos EUA, do Japão, da Austrália e do Canadá, Araújo afirmou que a opção do governo era “entre gerar empregos ou manter um princípio abstrato de reciprocidade”.

“O interesse econômico e de geração de empregos é obvio. O setor de turismo evidentemente vai se beneficiar dessa medida”, declarou.

Sobre o Brasil ter cedido à exigência de Trump para que renunciasse a um status diferenciado de emergente na OMC (Organização Mundial do Comércio) em troca de apoio para que o País ingresse na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), o chanceler disse que a decisão não vai afetar os acordos já feitos pelo Brasil na OMC. “Não sofremos prejuízo nenhum”, disse. 

“Estamos rompendo com esse ciclo de ensimesmamento do Itamaraty. É um corpo diplomático capacitado, mas que tinha vergonha de ter que defender a Venezuela, de não atuar de acordo com seus interesses na OMC, de não conseguir construir uma parceria com os EUA”, afirmou.

Ao responder à deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC), que disse ter vergonha dos rumos que a política externa está tomando no governo Bolsonaro, Araújo disse que vergonha ele tinha pelo Brasil “ter exportado corrupção para toda a América Latina” em governos anteriores.

“Temos agora um governo que não nos impede de defender os interesses brasileiros”, disse. 

Sobre Venezuela, o chanceler reafirmou que o Brasil está “empregando meios puramente diplomáticos e políticos para fazer pressão em favor da democracia” no país vizinho.