OPINIÃO
27/03/2020 18:58 -03 | Atualizado 27/03/2020 18:58 -03

Éramos Seis honrou as novelas do passado e superou as expectativas

Fui um dos que rejeitou a possibilidade de um final feliz entre Lola e Afonso. Mudei de ideia.

Divulgação/TV Globo
Lola (Glória Pires) e Alfredo (Nicolas Prattes): bem-sucedida parceria em cena.

Éramos Seis chegou ao fim nesta sexta-feira (27) honrando e batendo todas as expectativas sobre um remake na Globo de um sucesso do passado em outras emissoras. Foi a quinta adaptação para a TV do romance de Maria José Dupré, com uma legião de fãs apaixonados pelas últimas versões: a da Tupi, de 1977, e, principalmente, a do SBT, de 1994 — sobre as quais o roteiro da Globo foi baseado.

Com algumas alterações pontuais, indispensáveis para uma trama mais ágil e condizente com a atualidade, Éramos Seis pautou dramas familiares com a mesma delicadeza da narrativa literária, também apresentada nas outras novelas. A essência do livro foi mantida, por meio da personagem Lola, vivida com sutileza, emoção e maestria por Glória Pires — tão bem em cena quanto estiveram Nicette Bruno em 1977 e Irene Ravache em 1994.

Ao abordar o conservadorismo da sociedade (inclusive na política), a autora Angela Chaves dosou precisamente a narrativa do livro, lançado em 1943, com os dias atuais, traçando um interessante paralelo entre as duas épocas, fazendo bom uso de temas atemporais ou que reverberam ainda hoje.

Divulgação/TV Globo
Olga (Maria Eduarda Carvalho) e Zeca (Eduardo Sterblitch): atuações elogiadas.

Questões morais — como a resistência de Clotilde (Simone Spoladore) em unir-se a um homem desquitado — tiveram um desfecho que atende a atualidade, mas não sem antes serem maturadas, discutidas e postas à reflexão.

A excelente direção (artística de Carlos Araújo) alinhavou a beleza estética da produção (fotografia, arte, cenários, figurinos e trilha sonora deslumbrantes) com o texto sensível e interpretações robustas do elenco, com destaque para — além de Glória Pires — Antônio Calloni, Cássio Gabus Mendes, Nicolas Prattes, Simone Spoladore, Ricardo Pereira, Kelzy Ecard, Joana de Verona, Júlia Stockler, Virgínia Rosa, Maria Eduarda Carvalho e Eduardo Sterblitch. Também os meninos Pedro Sol Victorino e Xande Valois (Alfredo e Carlos da primeira fase).

Divulgação/TV Globo
Clotilde (Simone Spoladore): a resistência ao homem divorciado.

Destaco ainda a reverência às versões anteriores por meio das especialíssimas participações de Nicette Bruno (Lola em 1977), Irene Ravache (Lola em 1994), Othon Bastos (Júlio em 1994), Luciana Braga (Isabel em 1994), Wagner Santisteban (Alfredo criança em 1994) e Marcos Caruso (Virgulino em 1994).

Não houve oportunidade suficiente para outros atores das novelas do passado, mas pena que Jussara Freire tenha ficado de fora — a atriz brilhou nas versões anteriores, como Olga em 1977 e Clotilde em 1994.

A princípio, me desagradou a ideia de Lola terminar em um final feliz, ao lado de Afonso, contrariando o final do livro e as outras versões novelísticas. Critiquei, achei que parecia um recurso vazio para atrair e satisfazer “shipadores de internet”.

Se Romeu e Julieta e Rei Lear são inesgotáveis justamente pela possiblidade de dar novos rumos às histórias, por que não ver no conhecido drama de Maria José Dupré uma Lola menos sofrida, sem o final melancólico?

Foram a condução dessa trama, texto e direção, e as interpretações arrebatadoras de Glória Pires e Cássio Gabus Mendes que acabaram me conquistando. Além do mais, esse desfecho serve de alento para o momento triste que nossa sociedade atravessa, em que todos ansiamos por mensagens de esperança.

Que bonito Lola resgatando a casa da Avenida Angélica, ao redor da qual a trama fluiu. #FiqueEmCasa

Paulo Belote/TV Globo
Casamento de Lola (Glória Pires) e Afonso (Cássio Gabus Mendes): final aprovado.