ENTRETENIMENTO
05/09/2019 06:00 -03

'Lola tem mais voz e se impõe', afirma autora da nova 'Éramos Seis'

Novelista Ângela Chaves, responsável pelo texto do remake na TV Globo, destaca poder da trama que atravessa gerações.

Montagem/Raquel Cunha/TV Globo/Reprodução
Lola: Glória Pires, em 2019, na TV Globo, e Irene Ravache, em 1994, no SBT.

A Globo estreia no próximo dia 30 a sua versão de uma história conhecida, que marcou diferentes épocas na televisão brasileira. A nova novela das seis será a quinta versão para TV do romance Éramos Seis, de Maria José Dupré, publicado em 1943. Na TV, a obra foi vista primeiro em 1958, pela Record, com a atriz Gessy Fonseca como a sofrida Dona Lola, a protagonista. Em 1967, a TV Tupi exibiu a sua versão, com Cleyde Yáconis. Em 1977, Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho fizeram uma nova adaptação para a Tupi, tendo Nicette Bruno à frente do elenco. Em 1994, o SBT levou ao ar um remake da novela de 1977, com Irene Ravache como Lola.

A versão da Globo será uma adaptação de Ângela Chaves do texto de Silvio e Rubens, tendo Glória Pires como a protagonista Lola. Assim como houve algumas alterações na passagem da versão de 1977 para a de 1994, a nova produção também sofrerá ajustes para se adequar à teledramaturgia moderna. Lola, por exemplo, será menos submissa do que as vividas por Nicette Bruno e Irene Ravache.

Com a palavra, Ângela Chaves:

O público tem uma ligação muito forte com a história de Éramos Seis, de memória afetiva. Eu mesmo, com a versão da TV Tupi, de 1977, que assisti com minha família quando tinha 8 anos. Você conhece as outras versões da novela? Tem essa relação afetiva com a história, ou nenhuma?

Ângela Chaves: Não assisti à novela do Sílvio e do Rubens, nem em 1977, nem em 1994. Mas tenho uma boa lembrança a respeito: meu avô, que não costumava ver novela nenhuma, falava bem dela e dizia que era “uma novela real”. Esta é uma lembrança muito forte pra mim, eu tinha 11 anos na época. Fiquei curiosa desde sempre, mas não acompanhei, embora ele me narrasse algumas passagens que ficaram na minha memória. Li o livro um pouco depois, fiz Faculdade de Letras, e sempre admirei o registro, ou melhor, a forma realista com que a autora apresenta o cotidiano de uma família de época, sempre sob a ótica da mulher. A narrativa em primeira pessoa, feita por Lola, guia o romance. O texto traz uma denúncia social muito forte, e a adaptação do Sílvio e do Rubens capta bem isso, tanto a força do feminino como o tom de crítica ao egoísmo nas relações sociais e familiares. Se não pode ser considerado um livro feminista (não é de fato), vale como registro do feminino de época e isso é muito interessante.

Você sente o peso da responsabilidade de não decepcionar o público fã da novela ou do livro? Ou não tem essa preocupação, mas apenas em fazer um bom trabalho?

Sem dúvida, é um peso enorme. Mas também um prazer trabalhar numa história tão bonita que atravessa os tempos e que está na memória afetiva das pessoas. Digo sempre que minha função é árdua: respeitar e recriar. Respeitar porque reconheço o valor da obra, tanto literária como teledramatúrgica. E recriar porque são necessárias modificações. Alterações de ritmo, perfil dos personagens, tom. Modificações estruturais e de conteúdo. São outros tempos, certo? Mas é importante ressaltar que o remake é da novela. Ou seja: trabalho debruçada em cima do texto da novela.

Raquel Cunha/TV Globo
Bárbara Reis, Gabriella Saraiva e Cássio Gabus Mendes no elenco do remake de Éramos Seis, na TV Globo.

Alterações serão inevitáveis, como houve algumas na passagem da versão de 1977 para a de 1994. Sei que a família espanhola de Alonso foi substituída por uma inter-racial (de Afonso) — o que, particularmente, achei uma ótima sacada! Você pode exemplificar outras alterações, citar as mais representativas? 

A alteração da família de Afonso se deu porque percebi que a história deles se tornava mais forte se fosse mais próxima. Falar de um casamento inter-racial, onde houvesse a sombra do preconceito enriqueceu muito a narrativa de Afonso, Shirley e Inês. Algumas outras alterações serão sentidas ao longo da narrativa. Além disso, também Lola terá uma mudança em seu perfil. Ela é menos submissa e tem mais voz. Zeca e Olga crescem em importância e força dramática, são opostos que se atraem, se amam e encontram dificuldades na aceitação das diferenças. A história de Clotilde e Almeida é uma história de amor que se torna também de desejo e paixão.

Não pode ser considerada uma obra feminista, mas vale como registro do feminino de época, e isso é muito interessante.

Dona Lola é famosa – e acho que vem daí o grande apelo da personagem - justamente por uma ser uma mulher muito submissa. Será que ela terminou a novela sozinha porque faltou se impor mais? (pergunta retórica) Minha pergunta pra valer é: até que ponto a Dona Lola que você está escrevendo se aproxima de uma personagem com apelos mais contemporâneos? Dona Lola vai ser questionadora? Vai aturar a infidelidade e as bebedeiras do marido, por exemplo?

Dona Lola é uma mulher comum, do seu tempo, e sua riqueza está nesta qualidade. Uma mulher que vive para a família, que tem um marido cheio de defeitos, mas é apaixonada por Júlio. Talvez este amor por Júlio esteja mais marcado nesta versão. A relação deles é uma relação de homem e mulher. Ela tem admiração por esse homem, faz tudo por essa família. O apelo contemporâneo existe na maneira como olho Lola. Ela não é uma feminista, óbvio, nem questionadora, porque assim estaria traindo uma personagem. Mas ela tem mais voz. Ela reage e se impõe de maneira digna a Júlio, quando ele comete seus erros, ela não passa simplesmente um pano por cima. Sua forma de agir é uma forma de transformar. Em essência é a mesma Lola, mas é mais ativa. E não é uma Lola melancólica.

Raquel Cunha/TV Globo
Ângela Chaves foi coautora da supersérie "Os Dias Eram Assim" e colaboradora nas novelas "Celebridade", "Páginas da Vida", "Viver a Vida", "Em Família" e "Rock Story".

Percebi que alguns nomes de personagens foram alterados. Entendo perfeitamente que a família de Alonso (espanhola) agora é inter-racial e o personagem passou a se chamar Afonso. Mas por que trocar de Maria Laura para Soraia, por exemplo? Os nomes da mãe e da madrasta dessa personagem (Laila e Karime) serão mantidos?

Muitas vezes há alteração por haver uma saturação/repetição de nomes em produções ao mesmo tempo. Este foi o caso de Laura! E achei que foi boa a troca, sendo Soraia filha do Assad. Luci é o nome da sua mãe. E Karine, sua madrasta.

(O nome Laila foi alterado porque é o nome da protagonista da atual novela das seis, Órfãos da Terra).

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