OPINIÃO
16/08/2019 02:00 -03 | Atualizado 16/08/2019 02:00 -03

Esqueça Charles Manson, 'Era Uma Vez em Hollywood' é uma carta de amor ao cinema

Em seu filme mais sensível, Tarantino fala mais sobre um período singular de Hollywood do que do assassinato brutal de Sharon Tate.

Quando Quentin Tarantino anunciou que seu novo filme trataria dos assassinatos cometidos pela Família Manson, os pelos do mundo todo se eriçaram. 

A morte violenta da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses e de quatro amigos dela em agosto de 1969 na mansão que dividia com seu então marido, o diretor polonês Roman Polanski, é ainda hoje um tabu. E um cineasta com o estilo de Tarantino tocar nesse assunto era algo temeroso para muita gente.

Porém, ao lançar Era Uma Vez em Hollywood, que estreou nos cinemas brasileiros nesta quinta (15), o cineasta mostrou que esses temores eram injustificados. Seu novo filme, que promete ser o penúltimo de sua carreira se ele cumprir a promessa de encerrá-la com 10 títulos no currículo [ele conta Kill Bill Parte 1 e 2 como um filme só], mostra um Tarantino maduro e sensível. Um Tarantino que usa as atrocidades do culto de Charles Manson apenas como pano de fundo para a ruptura de uma era que ele celebra em uma carta de amor ao cinema.

Esse ponto na linha do tempo de Los Angeles (e por consequência de Hollywood), aliás, é torcido ao bel prazer de Tarantino, mostrando uma nova realidade. Uma espécie de sonho de uma América diferente, paralela ao ódio que permeia a história americana e que voltou com força na era Trump. 

Mas deixemos spoilers de lado…

Era Uma Vezem Hollywood retrata personagens que personificam dois momentos distintos da indústria americana do entretenimento. 

Um deles é Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um veterano ator de TV que vê uma nova geração tomando de assalto a antiga Hollywood. Nesse grupo está a jovem atriz inglesa Sharon Tate (Margot Robbie) e seu marido, Roman Polanski (Rafal Zawierucha), que acabam de se mudar para a casa ao lado da de Dalton.

Em crise existencial, Dalton tenta de tudo para conseguir um lugar ao sol no cinema, mas vê que seu tempo está se esgotando. O único apoio que tem é de seu inseparável amigo e dublê Cliff Booth (Brad Pitt), que com as vagas de trabalho rareando, se contenta em ser um faz tudo para Dalton.

Até que um bela dia, Booth se engraça com uma jovem hippie e lhe dá carona até sua comunidade, que se instalou em um antigo rancho usado para filmagens de faroestes no passado. Lá, ele conhece a Família Manson, um bando de jovens perdidos que seguem um guru psicopata chamado Charles Manson.

Pouco tempo depois, alguns integrantes dessa “família” vão protagonizar uma série de assassinatos. O mais famoso deles aconteceu na mansão de Polanski.   

Charles Manson (Damon Herriman) quase nem aparece no filme. Sua figura pouco importa para Tarantino. O que interessa aqui é a semente do terror que ele plantou e que floresceu como uma erva daninha na década em que se seguiu. É essa quebra temporal, esse espaço entre dois momentos, que o diretor usa para retratar um momento singular na história de Hollywood. 

A partir disso ele faz sua declaração de amor ao cinema de um jeito tão leve que pode parecer até incomum para seus fãs. Mas eles não precisam se preocupar, seus maneirismos seguem intactos, mesmo que lapidados. A verborragia cansativa de Os Oito Odiados dá lugar a diálogos bem mais enxutos. Muito disso pelo estilo de “herói lacônico” de Pitt.

Aliás, falando em Pitt... Ele e DiCaprio formam uma dupla matadora. Claro que os engraçados e certeiros diálogos de Tarantino ajudam, mas o entrosamento dos dois é impressionante.

A isso, soma-se a sempre competente curadoria musical do diretor e seu apuro técnico nas imagens. O resultado? Um dos melhores filmes de 2019 até aqui.