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17/10/2020 05:00 -03 | Atualizado 17/10/2020 05:00 -03

Estamos sendo enganados pelos algoritmos e isso nos desorienta, alerta psicanalista

Em entrevista ao HuffPost, Lucas Liedke ressalta a necessidade de estarmos expostos a divergências e pensamentos contraditórios, sob o risco de sermos capturados pelas teorias da conspiração.

Andrii Yalanskyi via Getty Images
A divergência é importante para não nos fecharmos em bolhas ideológicas que nos afastam da realidade — e do outro.

A sociedade perdeu o juízo? O “novo” normal tange ao absurdo? A cada dia que passa, comportamentos egoístas e que colocam as pessoas em risco são cada vez mais aceitos, escândalos políticos são minimizados, e muitos de nós orbitam entre a indiferença e o ceticismo.

O presidente diz que acabou com a corrupção no País, seu vice-líder no Senado logo depois é flagrado com dinheiro na cueca e os seus apoiadores, que outrora detonaram filiado do PT pego com dinheiro na cueca, nem sequer cobram o presidente.

Diante dos solavancos da realidade, em meio a uma pandemia que já matou mais de 1,1 milhão de pessoas no mundo, o psicanalista e analista e de cultura e comportamento Lucas Liedke nos convida a dar um passo para trás e tentar entender como cada um encara o momento que estamos vivendo a partir de sua perspectiva. 

Em entrevista ao HuffPost, ele explica que uma escuta inflamada nos deixa distantes de tentar enxergar a realidade pelo olhar do outro. As redes sociais pioram ainda mais essa relação. “A gente começa a ser radicalmente enganado pelos nossos algoritmos”, alerta. Isso porque o que curtimos ou seguimos nos fecha em círculos e gera a falsa impressão de que “todo mundo pensa como a gente, acredita no que a gente também acredita”. “Isso está nos desorientando”, descreve Liedke. 

“A gente precisa um pouco de contradição, de retórica, porque senão a gente só comprova o que a gente acredita, o que a gente sabe, o que a gente gosta. Isso é muito perigoso porque as pessoa não só entram em uma bolha, mas também nessas teorias de conspiração. E você não consegue enxergar mais o que está fora na sua teoria; isso envolve a queimada na Amazônia, a cloroquina, o alienígena, as celebridades de Hollywood, o tráfico de crianças, o Trump, a China, o PT e o Robinho... A gente tem tanta informação, com tanta intensidade, tanta reação tão impulsiva de tudo, que a gente fica meio perdido sem saber no que acreditar”, reflete. 

Essa impulsividade do ser humano é, inclusive, usada como isca nas táticas de manipulação da informação. Na avaliação do psicanalista, vale pensar no quanto os recursos de fake news começam a se tornar uma forma de normalizar o absurdo.

“Você vai alimentando essa roda e fica todo mundo meio barata tonta não só tentando entender o que é verdade e o que é mentira, mas em qual realidade que você vai operar, como se tivesse um menu de realidade em que você pode escolher no que acreditar e no que rejeitar.” 

Leia trechos da entrevista. 

HuffPost Brasil: Estamos diariamente expostos a situações em que o negacionismo impera, numa contestação diuturna à ciência. O coronavírus já matou mais de 150 mil pessoas, mas vemos aglomerações — e com gente sem máscara. O senhor acredita que há uma escolha consciente das pessoas pela ignorância?

Lucas Liedke: Não sei o quanto é consciente, mas tem uma coisa que eu gosto de pensar até antes do negacionismo e trazer mais para a realidade de todos. Como a gente está em uma época de polarização, a gente começa sempre a afastar as pessoas, diferentes partidos, times e ideologias e aí, a depender de como a gente fala desse assunto, mais afasta do que ajuda a aproximar. Claro que uma pessoa que tem uma certa educação, vem de uma certa família, de um certo lugar, talvez com curso superior, cair em um lugar de terraplanismo parece meio absurdo. Mas isso vem acontecendo. Para a gente não criar mais distância entre as pessoas, seria legal ter um olhar de realidade verificável, empírica, antes de entrar no negacionismo de ciência e tudo mais. Acho legal a gente pensa, e a psicanálise ajuda um pouco nesse sentido, pensar sobre o conceito de realidade. 

E até pensar que o real não é exatamente o sinônimo de realidade, e que não existe apenas uma realidade, que a realidade é composta sempre pelo tipo de enquadramento. Alguma mente ali que pode ser mais imaginária ou simbólica, passar por algum tipo de experiência ou conhecimento, vai trazer uma noção de realidade. Mas não quer dizer que essa realidade é única. 

useng via Getty Images

A realidade é subjetiva, é singular de um único sujeito. E ela pode inclusive ser compartilhada. Talvez eu e você, a gente tenha algumas realidades compartilhadas, mas a gente tem outras, só pelo fato de eu ser do gênero masculino e você feminino, já quer dizer que temos realidades diferentes.

Você enquanto mulher talvez seja ultrapassada por realidades e questões culturais que talvez eu não sou, e o contrário também. Só a partir daí a gente começa a ver que realidade é uma coisa que não é única e está dada, que todo mundo vive igual. A gente precisa de palavras e imagens para conseguir apresentar a realidade e falar dela. Quando a gente começa um diálogo, eu posso começar a falar da minha realidade, você da sua e a gente vai encontrando alguns pontos em comum, eu posso aprender alguma coisa. O que falta é a gente conseguir ter uma escuta menos inflamada. 

Quando a gente começa a escutar alguém falando alguma coisa de uma realidade que é tão diferente da minha, a gente já cai no embate. Já quer destruir a realidade do outro para validar a minha. E aí entram várias questões, até de uma realidade da capacidade das pessoas de também conseguir estabelecer trocas, aprendizados, de ter visibilidade, voz.

A gente está em um momento que é tão interessante, é quase uma sensação de que tem mais gente participando da conversa, tem mais pessoas falando, mas isso não significa que a gente está se escutando mais, que a gente está dialogando mais.

Claro que o mundo está muito maluco, a gente precisa dar sentido para as coisas. Tem tanta injustiça, tanta desigualdade, impunidade, dinheiro dentro da cueca, coisas tão malucas, um vírus que aparece e ninguém sabe explicar o porquê, e isso é o real. 

A realidade é, para mim, uma, eu estou lidando com esse vírus de tal forma, mas o real é sem sentido, é algo indomável, insuportável, e que é muito cansativo a gente ficar tentando buscar um sentido para isso.

Essa busca é incessante, e a gente vai usando os significantes que a gente tem, as ideologias e tudo mais para dar sentido e conseguir se segurar em alguma coisa para tentar dar conta do real. Cada um vai fazer isso mais ou menos com o que tem e para algumas pessoas parece que é mais precário, que você tem que recorrer a alguns discursos, sejam autoritários ou extremistas ou baseados em querer destruir discursos de outras pessoas. E aí pega o que aparece na frente e salve-se quem puder. 

Nosso último escândalo político, com um parlamentar pego com dinheiro na cueca, evidenciou uma banalização do ridículo. A Psicanálise explica esse fenômeno? 

É quase como se não existisse mais escândalo… Mas acho que tem versões e versões da história. Talvez o que mais esteja complicando é essa noção de pós-verdade, que é uma coisa tão antiga, mas que seriam meio essas táticas que existem de manipulação da informação. O quanto esses recursos de fake news começam a se tornar uma forma de normalizar o absurdo... Se você está em um dia em que você não quer muito lidar com isso, você diz: ‘Ah, não, isso aí é fake news’, ‘isso aí foi implantado por outro grupo’, ‘é uma manipulação política’. É o ‘vou acreditar naquilo que me convém’, que me ajuda a validar as minhas crenças porque minhas crenças já estão muito precárias, já estão muito frágeis, é uma forma de se defender dessa angústia e até desautorizar o poder do outro. 

Gosto muito do termo que fala em distopia cognitiva, como se fosse quase uma questão cognitiva mesmo, cerebral, de você não saber muito bem em que acreditar, no que é informação, no que é desinformação, o que começa a se tornar uma guerra cultural. E aí tem o Gabinete do Ódio, toda essa criação de fake news e de alimentar essa cultura, porque aí você faz alguma coisa absurda ― quando você é pego com dinheiro na cueca talvez ― você pode afirmar que isso é fake news também.

Você vai alimentando essa roda e fica todo mundo meio barata tonta não só tentando entender o que é verdade e o que é mentira, mas em qual realidade que você vai operar, como se tivesse um menu de realidade em que você pode escolher no que acreditar e no que rejeitar. 

Tem coisa que você até sabe que aquilo não é verdade, mas você pensa: 'isso aqui é tão divertido ou tão polêmico de compartilhar, meu grupo no WhatsApp vai gostar tanto de ver, vai dar o que falar, vou ganhar views'. Então, você compartilha e vai alimentando um pouco isso que não é sobre verdade ou mentira, mas sobre pontos de vista.

Dados do Instituto Reuters mostram que aumentou de 15% para 22% a quantidade de pessoas que pararam de ler notícias na pandemia no Reino Unido. Há quem escolha ignorar, não saber, não ver. É possível anular uma parte da vida? 

É, é escolher a realidade e a consciência; ela é limitada, é um pedaço. Se você pensar nas coisas que você sabe, tem coisas que você sabe que se fizer um esforço consegue chegar lá, tem outras coisas que você sabe que pode precisar de anos de análise para chegar até elas. Nosso espaço mental é limitado, é impossível você estar onisciente de tudo que está acontecendo o tempo todo, você não dá conta. A gente faz algumas escolhas, até onde você consegue ir.

Isso aconteceu muito no início da pandemia principalmente, das pessoas sofrendo muito com excesso de informação, e a informação sendo um gatilho para elas se sentirem cada vez mais angustiadas ou sem esperança, contaminadas pela informação. Aí você começa a negar um pouco, a dizer que é melhor não saber para se sentir mais confortável. 

Mas tem um limite, quando você começa um nível de alienação, todo mundo está alienado na sua realidade, mas nossa realidade tem que ter uma certa maleabilidade para conseguir passar por esse filtro de um pouco daquilo que eu não queria saber, preferia não saber, fico sabendo e nem sei o que fazer com isso, como uma queimada no Pantanal, uma destruição. O que eu vou fazer com isso agora? Para que eu quero saber disso? Então, claro que isso vai fazer mal, mas ao mesmo tempo eu não saber o que está acontecendo é muito alienante, e um pouco também daquilo que eu não concordo — o que passa pela divergência de opinião. 

E a gente começa a ser radicalmente enganado pelos nossos algoritmos, de pensar que todo mundo pensa como a gente, acredita no que a gente também acredita, e isso está nos desorientando. A gente precisa um pouco de contradição, de retórica, porque senão a gente só comprova o que acredita, o que sabe, o que gosta. Isso é muito perigoso porque as pessoas não só entram em uma bolha, mas também nessas teorias de conspiração, e você não consegue enxergar mais o que está fora na sua teoria. Isso envolve a queimada na Amazônia, a cloroquina, o alienígena, as celebridades de Hollywood, o tráfico de crianças, o Trump, a China, o PT e o Robinho...

A gente tem tanta informação, com tanta intensidade, tanta reação tão impulsiva de tudo, que a gente fica meio perdido sem saber no que acreditar.

Por que tem sido tão difícil para parte da sociedade lidar com as pessoas que não compartilham da mesma realidade?

Isso aparece muito na clínica. Há alguns anos já a gente vê a política entrando nesses discursos muito de ódio, de destruição um do outro. Acho que é um desafio de baixar a guarda da competição. Claro que tem muita coisa em jogo, muito poder em jogo, muita coisa sendo ameaçada, mas… 

Se você tem um grupo de uma organização LGBTQIA+ que todo mundo se escuta, se fortalece, mas aquele grupo fica só fechado em si mesmo e você não consegue escutar um homem cis que é trasnfóbico para entender porque ele tem ódio, o que tem por trás da sua história, o que ele pode escutar, conhecer de uma pessoa trans para mudar um pouco essa conversa, a gente está se fechando em bolhas, a gente está escolhendo e identificando inimigos e tentando destruir esses inimigos e aí vira uma guerra, ataque e defesa. 

Claro que quando tem muito ataque, você tem que se defender também, mas ao mesmo tempo tem que conseguir deixar que outras coisas passem para engrandecer e enriquecer mais o simbólico. 

Pela ótica da saúde mental, como vamos sair dessa pandemia?

Sem querer ser muito ingênuo, tem uma parte muito legal que é essa grande revisão que todo mundo de algum jeito começou a fazer. Primeiro, sair do automático já é muito legal. Você sair de uma vida em que você não questionava muito o que você fazia, por que você fazia, com quem você mora, como você usa seu tempo e seu dinheiro. Uma série de coisas que estavam muito fixas caiu na vida de muita gente e nos levou a repensar nossas práticas. Isso é muito interessante, nossas escolhas políticas, o que eu preciso do outro, para que eu preciso me relacionar. Tudo isso é muito válido. 

Acho que aí tem desdobramentos muito variados, muito singulares, e depende também de como a pessoa se organiza. Talvez uma pessoa que tivesse já uma inclinação mais introvertida ou mesmo anti-social, ela pode hoje estar em um sofrimento até mais acentuado, meio fóbico. “Já que é para continuar não encontrando ninguém, eu não vou encontrar ninguém custe o que custar, ninguém vai me tirar de casa.” Isso pode desencadear em várias coisas, numa depressão, suicídio. Uma série de coisas. 

Ou a forma como eu lidava com a minha sexualidade, o que era o sexo para mim, e aí nos últimos meses eu fiquei sem transar ou transei com menos pessoas. Será que o sexo para mim mudou de lugar, representa outra coisa? Será que vou enxergar de outra forma ou deixar as conversas preliminares ganharem um pouco mais de sentido ou que eu posso ter uma relação meio virtual, de não tanto contato físico?

Seu Instagram tem uma série de memes que nos colocam em frente às nossas vulnerabilidades. Por que escolheu usá-los para falar de saúde mental?

Acho que é uma questão muito de linguagem, acho que de alguma forma a saúde mental já vem ganhando uma facilidade maior de se falar a respeito, está mais no repertório das pessoas. É muito positivo, mas ainda assim é um assunto muito complicado, complexo, que tem muito tabu. A gente está falando basicamente de sofrimento humano; dar risada desse sofrimento é algo que fica ali no fio da navalha do que pode e do que não pode fazer. Acho que tem muito meme de saúde mental que eu vejo e até acho engraçado, mas não compartilho, acho que passa por um lugar que pode gerar gatilho para as pessoas. 

Vejo o meme como uma grande expressão do tempo cultural que a gente vive, é uma figura de linguagem que é muito relevante. Ela deixa uma abertura para o subjetivo, em que a pessoa pode fazer a sua leitura, sua interpretação, pensar em alguma coisa da sua vida, conseguir talvez dar uma risada de algo que é sério e isso pode gerar uma aproximação, gerar um afastamento de um certo assunto. Tem o lance do chiste, o chiste freudiano que é o gracejo, a gracinha, que você dá uma risada, mas não sabe muito bem por que você está rindo... Você se identifica com uma coisa que não queria ter se identificado, e tem alguma coisa no subtexto e esse subtexto é muito importante, pode falar muito. Acho que essas ambiguidades são muito legais. 

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