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02/08/2019 08:18 -03 | Atualizado 02/08/2019 14:33 -03

'Moro e Bolsonaro estão tentando me ameaçar', diz Glenn Greenwald

Ao HuffPost, fundador do The Intercept Brasil falou sobre portaria que prevê deportação de estrangeiros, segurança cibernética no País e LGBTfobia.

Adriano Machado / Reuters
Glenn Greenwald vê traços de LGBTfobia nas ameaças que sofre por mensagem.

“Juntos Sérgio Moro e Jair Bolsonaro estão obviamente tentando me ameaçar. Isso é o tipo de perseguição mais severa possível vinda do governo.” A afirmação é do advogado e jornalista americano Glenn Greenwald, em entrevista exclusiva ao HuffPost, uma semana após a edição de portaria do Ministério da Justiça que autoriza deportação sumária de estrangeiro “perigoso ou que tenha praticado ato contrário aos princípios e objetivos dispostos na Constituição Federal”.

Glenn é responsável pela série de reportagens publicadas desde 9 de junho no site The Intercept Brasil, que revela diálogos ocorridos nos bastidores da Operação Lava Jato e põe em questão a relação entre juiz e acusação — Moro, que era o juiz da 13ª Vara Criminal Federal em Curitiba, e Deltan Dallagnol, chefe dos procuradores da Lava Jato.

A publicação da troca de mensagens de Telegram, atribuídas a Moro e Dallagnol, ficou conhecida como #VazaJato. Além de Intercept, Folha de S.Paulo, Veja e BandNews FM participaram da depuração do material. As conversas indicam que Moro orientou a atuação de Dallagnol e interferiu em negociações de delações de acusados.

Na conversa por telefone com HuffPost nesta quinta-feira (1º), Glenn disse que a portaria 666, editada um dia após a prisão dos hackers que a Polícia Federal afirma serem os responsáveis por invadir os celulares de autoridades, incluindo o presidente Jair Bolsonaro, “foi uma tentativa de intimidar”. Um dos hackers presos seria a fonte das conversas do Judiciário, reveladas pelo Intercept.

A conduta de Glenn como jornalista foi tachada de crime pelo Planalto. O presidente negou que ele seria deportado, mas disse que ele poderia “pegar uma cana no Brasil”.

Em quase meia hora de entrevista, o jornalista falou sobre segurança cibernética, que considera falha no Brasil, defendeu a liberdade de imprensa, e ressaltou estar certo de não ter cometido crime. “Eu não acredito que Moro e Bolsonaro podem me prender sem mostrar evidência concreta e crível para os tribunais de que eu fiz alguma coisa criminosa. E eu também sei que essa evidência não existe. É por isso que não saio deste País.” 

Glenn diz que recebe ameaças todos os dias — seja via telefone, e-mail, redes sociais. O jornalista vê traços de LGBTfobia nas mensagens: “O ódio que eles [equipe de Bolsonaro] estimulam contra mim é parte do ódio que eles estimulam contra LGBT”. 

Ele, o marido — o deputado federal Davi Miranda (PSol-RJ) —, os dois filhos de 10 e 11 anos, além de outros membros da família, só andam com segurança. “Quase não saio de casa”, completou.

Leia a íntegra da entrevista:

HuffPost: Você acha que está sendo perseguido pelo governo?

Glenn Greenwald: Obviamente estou. O presidente da República disse por três dias consecutivos, usando meu nome, que eu devo ser preso. Além disso, lembramos que a Polícia Federal, comandada pelo [ministro da Justiça e Segurança Pública] Sérgio Moro, iniciou uma investigação pedindo para o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) um relatório sobre minhas atividades financeiras. E também também tudo começa com o Sérgio Moro usando uma linguagem para criminalizar o nosso jornalismo. Nunca nos chamando de jornalistas, sempre de “os aliados dos hackers”. Então, juntos, Sérgio Moro e Jair Bolsonaro estão obviamente tentando me ameaçar com prisão. Isso é o tipo de perseguição mais severa possível vinda do governo. 

Você teme “ir em cana”, termo que o presidente Jair Bolsonaro comumente usa? 

Se tivesse muito medo, eu sairia deste País a qualquer minuto, como eu posso. Todos sabíamos, quando começamos a fazer essa reportagem, que os riscos seriam altos. Eu sabia que ia ser mais do que no caso do [Edward] Snowden [que vazou arquivos secretos dos EUA e os tornou públicos junto com Glenn]. Mas essa é a luta que nós escolhemos. Eu entendo os riscos, acredito que são reais. Por outro lado, estou totalmente dedicado ao trabalho que estamos fazendo e vou continuar fazendo, independentemente de ameaças, riscos e qualquer coisa que eles tentem fazer. Porque este País é meu lar. É o País do meu marido, dos meus filhos. Eu acho que o Brasil tem que escolher se vai continuar sendo democracia ou País repressivo, uma ditadura, tirania. E essa causa é muito importante para mim, para minha vida, para meu trabalho. Sim, eu conheço os riscos. Acho que os riscos são sérios. Mas, por outro lado, esse trabalho é exatamente o que eu queria fazer quando entrei no jornalismo. 

O que achou da portaria 666, que fala em deportação sumária de estrangeiros considerados perigosos?

Ficou totalmente claro que isso foi uma tentativa de me intimidar. Porque Sérgio Moro acordou e decidiu decretar que ele tem o poder de mandar deportado e expulsar sumariamente? Obviamente, foi uma tentativa para criar um clima onde eu vou ficar intimidado. É verdade que a lei, formalmente, exclui pessoas como eu, casado com brasileiro, com filhos brasileiros. Então, ele não pode usar essa lei contra mim. Mas obviamente o motivo foi me mostrar que ele tem muito poder e pode fazer coisas contra mim. Todo mundo entendeu isso. Ninguém teve dúvidas sobre isso.

E você se sentiu intimidado?

Olha, não… Obviamente, conheço muito bem as leis nos Estados Unidos e no Reino Unido, os direitos dos jornalistas, porque era advogado, e porque falamos muito com advogados durante a reportagem do Snowden. Mas aqui no Brasil ainda não conhecia as leis tão bem como eu conhecia lá. Então encontrei com os melhores advogados no Brasil e todos disseram que, na verdade, a Constituição brasileira é mais forte para jornalistas que nos Estados Unidos ou no Reino Unido. Eu li muitas decisões judiciais que eles me deram, falando que é muito claro que os jornalistas não estão cometendo crime nenhum reportando material, mesmo se esse material foi obtido ilegalmente pela fonte. Eu sei até agora que eu tenho o direito para reportar esse material. Além do fato de que eu acho que Sérgio Moro e Jair Bolsonaro são ameaças graves à democracia brasileira, eu confio mesmo nas instituições brasileiras para produzir os direitos e garantias para os cidadãos brasileiros. Eu não acredito que Moro e Bolsonaro podem me prender sem mostrar evidência concreta e crível para os tribunais de que eu fiz alguma coisa criminosa. E eu também sei que essa evidência não existe. É por isso que não saio deste País. Porque eu acredito que eles não podem fazer nada contra mim legalmente — obviamente, violência é outra coisa.  

O porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, disse que você cometeu crime mas não disse qual. O que você acha dessa falta de consistência nas afirmações do governo? 

Todos sabemos que Bolsonaro tem mentalidade que pessoas devem ser presas mesmo sem cometerem um crime, especialmente adversários dele politicamente. Ele ameaçou colocar Fernando Haddad na prisão. Pessoas esquecem aquele discurso totalmente maluco de três ou quatro dias antes do segundo turno ameaçando que todos os inimigos dele vão precisar sair do País. Ele tem uma mentalidade de ditador. Ele sempre foi assim durante últimos 30 anos. Então nada do que ele está fazendo deve ser surpresa para ninguém. Ele era essa pessoa e ainda é. A questão é se ele vai poder fazer essas coisas. Acho que tem uma geração de 30, 35 anos agora na democracia brasileira, em que as pessoas estão aprendendo, acreditando em valores democráticos, em instituições, no Judiciário, no Congresso Nacional, Uma geração que já está resistindo em muitos aspectos. 

A única coisa que ele disse, quando foi pressionado para especificar qual crime eu cometi, foi que eu cometi receptação. Porque ele disse que eu recebi material, que ele disse que foi roubado, e ele disse que isso é um crime. Mas se isso for um crime, o jornalismo mais importante nos últimos 30 anos também é criminoso. Muito jornalismo feito pelo The New York Times, pelo Washington Post. Coisa interessante é que se Bolsonaro acreditar que é crime jornalista usar informação roubada, por que ele não tem a coragem para exigir não só a minha prisão, mas a prisão dos editores na Veja e na Folha, que estão usando o mesmo material, o mesmo acervo que nós estamos usando para reportar? Ele é um covarde. É muito fácil falar que o Glenn Greenwald deve ser preso porque é estrangeiro, gay, sou casado com um membro do Congresso no partido socialista. Mas se ele está sendo consistente, se acredita que isso é mesmo um crime, por que ele não está falando a mesma coisa sobre editores e repórteres na Veja e na Folha? 

ASSOCIATED PRESS
Davi Miranda e Glenn Greenwald em manifestação em defesa do jornalista e da liberdade de imprensa no Rio de Janeiro.

Que tal a manifestação esta semana no Rio em prol da liberdade de imprensa, que te homenageou?

Foi muito lindo porque tinha muitas pessoas de tipos diferentes unidas, não em minha defesa, mas em defesa da imprensa livre e, sobretudo, em defesa da democracia. Tinha pessoas lá que foram punidas sob o regime militar, que já passaram essa experiência, naquela época muito horrível para este País. E o fato de eles terem aparecido lá para apoiar o trabalho que estamos fazendo… Havia três mil pessoas lá. Me fortaleceu muito, me inspirou muito! Já mostrou quanta coragem enfrentou a ditadura militar. E o fato também de que meus filhos estavam lá, meu marido do meu lado, fortaleceu a todos nós. 

O senhor falou em ter “causa” ao ingressar no jornalismo. Acha que pode ser considerado um ativista para além de jornalista?

Tinha esse debate muito grande na época do Snowden. Acho que todo jornalista tem opiniões, alguns são honestos sobre suas opiniões, e outros que fingem que não têm. Acho que não existe jornalista sem opinião. A única questão relevante para mim sobre jornalismo é se você está divulgando informação de interesse público e lidando com cautela jornalística e se todas as informações que publicamos são verdadeiras, foram confirmadas, verificadas através de vários outros veículos da mídia. Estamos divulgando nos melhores jornais, na Folha de S.Paulo, na revista Veja. Então todas as atividades que estamos fazendo são jornalismo puro. E acho muito interessante quando pessoas falam que não sou jornalista, quando tenho um escritório cheio de prêmios jornalísticos. Tenho muita confiança de que o trabalho que estou fazendo é jornalismo.

Você acha que toda essa questão das invasões dos celulares das autoridades que vieram à tona, com a prisão dos hackers, revela uma vulnerabilidade digital da República? De tudo o que você já viu lá fora, o Brasil está atrás dos demais países?

Não posso comentar nada sobre nossa fonte. Na realidade, nós não sabemos se as pessoas que eles prenderam são as nossas fontes. E também, a PF e o Ministério Público não apresentaram nenhuma evidência apoiando as acusações que eles estão apontando e vazando. Então eu não sei tudo e se alguma coisa do que eles estão falando é verdade. 

Uma coisa interessante é que a primeira vez que eu comuniquei com o Edward Snowden foi em 2012. A única vez que o vi com raiva, porque ele é um cara muito calmo, foi naquele dia quando o Sérgio Moro divulgou conversas privadas de Lula e Dilma. E ele não estava zangado porque ele achou que Moro fez alguma coisa de errado, porque ele não sabe de questões legais. Ele estava zangado porque ele sacrificou e arriscou a liberdade e a vida dele para mostrar para brasileiros e para todo mundo como EUA estão invadindo a privacidade deles. Nós fizemos muitas reportagens aqui no Brasil sobre como o País foi alvo do NFA. E eu encontrei naquela época com senadores, com governo, e todos disseram naquela época: “meu Deus, não sabíamos dessa capacidade sobre invadir celulares, vamos fazer muito para crescer na segurança da comunicação”. Mas ele [Snowden] não conseguiu acreditar que, três anos depois que eu fiz essa reportagem, a presidente da República do Brasil estava falando em linha aberta, sem segurança, sem criptografia, como a ex-presidente [Dilma]. Foi por causa disso que ele estava tão zangado, porque Brasil não fez quase nada para fortalecer segurança digital e privacidade depois das revelações que nós conseguimos. Acho que até agora o Brasil tem segurança digital muito fraca e isso é um problema para o governo mesmo. 

Falando um pouco da sua vida pessoal. Você e sua família, vocês têm tido uma rotina normal? Ou mudou algo após as publicações do Intercept?

Não temos uma vida normal. Em 2018 sofremos uma tragédia horrível quando uma das nossas melhores amigas, do meu marido, a Marielle Franco, foi assassinada. Ele sentava ao lado dela na Câmara de Vereadores [do Rio de Janeiro], tinham uma trajetória de vida muito parecida, cresceram na favela, negros, LGBT, mesma causa, mesmo partido. Desde aquele evento horrível, nós sentimos, porque a violência foi muito perto. Mas depois que David entrou no Congresso, quando o Jean [Wyllys] saiu do País, Davi [Miranda] se tornou muito visível como um dos únicos LGBTs no Congresso. Ele já estava recebendo ameaças muito graves. Aumentamos nossa segurança pessoal, na nossa casa, na nossa família uns cinco, seis meses atrás, em janeiro, quando isso aconteceu [Davi, suplente de Jean, assumiu a vaga dele, após o deputado se licenciar da Câmara]. 

Obviamente as ameaças aumentaram radicalmente desde que eu comecei a fazer essas reportagens. A estratégia do movimento do Bolsonaro era para personalizar a reportagem comigo, mesmo quando eu não tenho envolvimento, quando a Veja publica artigos [sobre os vazamentos], eles usam tudo comigo, falam “O Glenn Greenwald vazou mais documento”, eles usam fotos de mim, protestos em grupos de WhatsApp que estão se espalhando. Não posso sair na rua sem segurança. Recebo ameaças todos os dias. O ódio que eles [equipe de Bolsonaro] estimulam contra mim é parte do ódio que eles estimulam contra LGBT. Sempre tentando personalizar isso em mim, para mostrar que isso está sendo feito por um estrangeiro, esquerdista, gay.  

A segurança que temos agora é muito intensa. Tentamos criar um clima em que filhos possam ter uma vida o mais normal possível. Mas, sim, foi necessário discutir com eles, com 11 e 10 anos, explicar por que sempre temos seguranças em casa, por que quando viajamos com a família precisamos ter pessoas com armas acompanhando a gente. Mas eles já passaram por muitas coisas difíceis em suas vidas antes de adotarmos eles. E são muito fortes por causa disso. 

É difícil, mas por outro lado, para ser totalmente honesto, Davi e eu também estamos muito gratos de termos essa oportunidade. Temos uma plataforma pública para lutar em defesa, por valores em que acreditamos muito. Nossa vida é muito difícil. É difícil ouvir palavras feias sobre meus filhos, saindo da boca do presidente da República, dizendo que os adotamos para ter proteção sobre deportação. Mas não me arrependo de nada. Se precisássemos escolher de novo, escolheríamos a mesma coisa. Davi entrou para a política e eu para o jornalismo para fazer exatamente esse tipo de luta.