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18/06/2020 12:50 -03

Caso Queiroz: O que a prisão do ex-assessor de Flávio Bolsonaro pode esclarecer

Entre as movimentações suspeitas está um cheque de R$ 24 mil para Michelle Bolsonaro, pagamento de uma dívida, de acordo com o presidente.

O policial militar aposentado e ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) Fabrício Queirozfoi preso na manhã desta quinta-feira (18) em uma ação da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo, coordenada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Queiroz é peça-chave da investigação sobre um suposto esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio quando ele era deputado na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro).

A Operação Anjo cumpre outras medidas cautelares autorizadas pela Justiça do Rio relacionadas ao inquérito que investiga esquema em que servidores da Alerj devolveriam parte dos seus vencimentos ao então deputado estadual Flávio Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro.

De acordo com o MP do Rio, a decretação de medidas cautelares nesta quinta incluem busca e apreensão, afastamento da função pública, comparecimento mensal em juízo e proibição de contato com testemunhas. Além de Queiroz, são alvos da operação o servidor da Alerj Matheus Azeredo Coutinho, os ex-funcionários da Casa legislativa Luiza Paes Souza e Alessandra Esteve Marins, e o advogado Luis Gustavo Botto Maia.

A partir da operação de hoje podem ser esclarecidas algumas questões ainda pendentes na investigação, como o fato de Flávio alegar desconhecer as atividades de um dos seus principais assessores por 10 anos e o motivo de Jair Bolsonaro ter supostamente emprestado dinheiro a alguém que costumava movimentar centenas de milhares de reais.

Entre as movimentações suspeitas de Queiroz está um cheque de R$ 24 mil para Michelle Bolsonaro, primeira-dama. De acordo com o presidente Jair Bolsonaro, o valor refere-se ao pagamento de uma dívida de Queiroz com ele.

O que se sabe das movimentações de Queiroz?

As investigações foram iniciadas a partir de um relatório prévio do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), finalizado em janeiro de 2018. O documento mostra que Queiroz movimentou R$ 1,2 milhão de janeiro de 2016 a janeiro de 2017.

Em 2019, relatório do Coaf revelado pelo Jornal Nacional em 2019 identificou 48 depósitos em um mês na conta de Flávio Bolsonaro, no total de R$ 96 mil. De acordo com o documento, entre junho e julho de 2017, foram feitos depósitos no valor de R$ 2 mil. O fato de terem sido feitos de forma fracionada desperta a suspeita de ocultação da origem do dinheiro, segundo o Coaf. O Conselho não identificou quem fez os depósitos. 

O novo relatório foi feito a pedido do Ministério Público do Rio, que investiga movimentação financeira atípica de assessores parlamentares da Alerj.

Ao todo, 13 funcionários participaram da “rachadinha”, de acordo com os promotores. Foi identificado o recebimento de 383 depósitos na conta bancária de Queiroz, em valores que, somados, passam de R$ 2 milhões. Ele é apontado como operador do esquema que teria Flávio como chefe.

Assim como Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz não explicou as movimentações suspeitas. Ele faltou aos depoimentos marcados no MP do Rio, em dezembro de 2018. Suas ilhas, Nathalia e Evelyn Queiroz, também faltaram a um depoimento marcado pelo MP. Elas também são citadas no relatório do Coaf.  

Nathália Queiroz foi lotada no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj de agosto de 2011 a dezembro de 2016, quando passou para o gabinete do então deputado Jair Bolsonaro na Câmara, em Brasília, onde ficou lotada até outubro de 2018. A filha de Queiroz, contudo, atuava como personal trainer no Rio no período em que esteve lotada nos 2 gabinetes.

Em entrevista ao SBT na época, Queiroz chegou a dizer que “fazia dinheiro” com a compra e revenda de carros, mas afirmou que só prestaria esclarecimentos detalhados à Justiça. O filho do presidente nega todas as acusações e diz ser vítima de perseguição.

NELSON ALMEIDA via Getty Images
Documento do Coaf mostra que Queiroz movimentou R$ 1,2 milhão de janeiro de 2016 a janeiro de 2017.

Como funcionava a rachadinha?

O senador Flávio Bolsonaro é apontado pelo Ministério Público do Rio como chefe de uma organização criminosa que atuou em seu gabinete em um esquema de lavagem de dinheiro que envolveria imóveis e uma loja de chocolates no Rio da qual o senador é sócio. Nesta quarta-feira (18), a loja foi alvo de busca e apreensão.

Queiroz era operador do esquema, segundo o MP. Ele empregava funcionários fantasmas e exigia parte do salário de volta. Foram identificados 3 grupos envolvidos no esquema: a família de Queiroz, a família Siqueira e pessoas ligadas a milicianos. 

O grupo da família Siqueira inclui 10 pessoas ligadas a Ana Cristina Valle, ex-esposa de Jair Bolsonaro, suspeitas de serem funcionárias fantasmas do gabinete de Flávio. Segundo as investigações, elas moravam em Resende (RJ) na época em que foram contratadas e muitas não tinham nem mesmo crachá para entrar na Alerj. Entre 2007 e 2018, foram sacados R$ 4 milhões de suas contas bancárias.

Rachadinha abastecia milícia, segundo MP

Já o grupo de suspeitos de serem funcionários fantasmas ligado a milicianos inclui Danielle Mendonça da Costa Nóbrega, viúva do ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega, acusado de chefiar o Escritório do Crime; e Raimunda Veras Magalhães, sogra de Adriano. O miliciano foi morto em fevereiro, em confronto com policiais após ser localizado no município de Esplanada, na Bahia.

Queiroz e Adriano trabalharam juntos na Polícia Militar. Em junho de 2005, Adriano foi condecorado pelo então deputado Flávio Bolsonaro com a Medalha Tiradentes da Alerj. Flávio exaltou o ”êxito” do então PM de “prender 12 marginais” em uma favela, além de apreender armas e drogas.

O Escritório do Crime, milícia que teria sido chefiada por Adriano, é suspeita de matar a vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) e o motorista Anderson Gomes em março de 2018.

De acordo com a investigação, Danielle e Raimunda receberam R$ 1,03 milhão do gabinete de Flávio e repassaram ao menos R$ 203 mil a Queiroz. Segundo a Promotoria, contas de restaurantes que seriam de Adriano foram usadas para fazer os repasses. 

A loja de chocolate de Flávio Bolsonaro

Além dos funcionários laranja, o Ministério Público identificou 3 outros grupos suspeitos de fazerem parte do esquema de lavagem do dinheiro desviado de salários da Alerj.

O MP suspeita que uma franquia da loja chocolate Kopenhagen, da qual Flávio Bolsonaro detém 50%, foi usada para lavar dinheiro. Segundo os investigadores, o volume de dinheiro em espécie depositado na conta da loja era desproporcional em relação ao faturamento. 

As quantias depositadas coincidiam com as datas em que Queiroz arrecadava parte dos salários da Alerj. O montante de dinheiro lavado no estabelecimento pode chegar a R$ 1,6 milhão entre 2015 e 2018, de acordo com a Promotoria.

Também é investigada a relação de Flávio Bolsonaro com Diego Sodré de Castro Ambrósio, sargento da PM e dono da empresa de vigilância Santa Clara Serviços.

Em outubro de 2016, Ambrósio pagou um boleto de R$ 16.564,81, emitido no nome de Fernanda, esposa de Flávio. O pagamento se referia a uma prestação de apartamento comprado pelo casal no Rio e Flávio disse que pediu ajuda para pagar a conta porque não tinha aplicativo do banco no celular na época. Segundo o PM, a quantia foi devolvida pelo senador, mas ele disse não lembrar quando.

Também em 2016, Ambrósio efetuou transferências para dois funcionários do gabinete de Flávio. Foram identificados ainda depósitos feitos na conta da loja de chocolates do atual senador entre 2015 e 2018 no valor total de R$ 21 mil. 

Uma terceira frente de investigação envolve a compra e venda de imóveis. O MP apura a suspeita de lavagem de R$ 638,4 mil na compra e venda de dois imóveis em Copacabana. O investidor americano Glenn Howard vendeu a Flávio os imóveis com preços abaixo do mercado. O valor foi depositado em dinheiro na conta de um corretor em 2012.

Dois anos depois, o filho do presidente vendeu os apartamentos. Ele declarou ter lucrado 292% no mesmo período em que a valorização imobiliária na região não ultrapassou 11%.