OPINIÃO
23/09/2020 04:00 -03 | Atualizado 23/09/2020 04:00 -03

'Enola Holmes': Millie Bobby Brown encanta com aventura teen empoderada

Atriz de 16 anos é o veículo perfeito para o filme atingir seu público-alvo com mensagem feminista sem abrir mão do entretenimento.

Ao longo de mais de 130 anos de história, o detetive Sherlock Holmes já foi retratado das mais diversas formas e nos mais distintos formatos. De um Holmes ainda inexperiente em O Enigma da Pirâmide (1985) - um clássico da Sessão da Tarde - até a versão moderna e hiperativa da série da BBC estrelada por Benedict Cumberbatch, o ilustre personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle no século 19 já viu de tudo nesse mundo na literatura, cinema e televisão.

Mas como ele mesmo diria, é elementar que ainda haja espaço para novidades. Ainda mais em se tratando de uma protagonista que tem o sobrenome Holmes, mas que não é Sherlock. Ela é Enola Holmes, a irmã mais nova do famoso detetive britânico, heroína de uma série de livros lançados a partir de 2007 que acaba de ganhar uma adaptação cinematográfica que estreia na Netflix nesta quarta (23).

Transposição direta do primeiro livro da autora americana Nancy Springer, O Caso do Marquês Desaparecido, o filme dirigido por Harry Bradbeer (das séries Fleabag e Killing Eve) é um pastiche das marcantes histórias de Conan Doyle com boas pitadas de empoderamento feminino feito para o público teen. E quem melhor para se encaixar na descrição desse produto do que Millie Bobby Brown?


Parece que Enola Holmes foi criada para ser vivida por Millie. Tanto que ela própria, mesmo com apenas 16 anos, também assina a obra como produtora. Não faz nem 5 anos que Millie estreou como a enigmática Eleven na série Stranger Things e a jovem atriz inglesa já tem muito definido para onde direcionar sua carreira. Garota esperta. 

Quase tudo que dá certo em Enola Holmes se deve ao carisma e talento de Millie Bobby Brown. Ela convence o expectador como a destemida, independente e astuta irmã mais nova de Sherlock da primeira à última cena de um filme que está longe de ser perfeito, mas que cumpre com leveza seu objetivo de entreter um público naturalmente disperso passando uma mensagem feminista. Claro que guardando as devidas proporções e profundidades que um produto como esse exige.

Na trama, a adolescente Enola (Millie Bobby Brown) foi criada por sua mãe, Eudoria (Helena Bonham Carter) para poder se virar sozinha na machista sociedade britânica da era vitoriana. Por conta disso, ela aprende desde cedo a exercitar a mente e o corpo, lendo milhares de livros e aprendendo a lutar jiu-jitsu. Até que em um belo dia, Eudoria desaparece, deixando para Enola uma boa quantia de dinheiro para cair no mundo. 

Ao recebe a visita de seus dois irmãos mais velhos que não vê desde criança, o agente secreto Mycroft (Sam Claflin) e o famoso detetive Sherlock Holmes (Henry Cavill), ela descobre que será mandada a um colégio interno para meninas, mas foge e inicia uma investigação para tentar descobrir o paradeiro de sua mãe de ideais revolucionários que podem faze-la correr grande perigo.  

A narrativa, cheia de artifícios secundários que à princípio parecem dispersar a trama, funciona como a materialização da mente de Enola, que opera à mil por hora, no limite do déficit de atenção que seu público-alvo se identificará de cara. O abuso da quebra da quarta parede - quando um personagem conversa diretamente com o público - chega é às vezes um pouco irritante, mas, convenhamos, é difícil manter a atenção de adolescentes com um smartphone na mão. Se já é complicado fazer isso no cinema, imagine na TV.  

Divulgação
Millie Bobby Brown como Enola Holmes em uma de suas muitas "interações" com o público.

Aqui, Sherlock é um personagem bem secundário, que serve apenas para personificar o mundo adulto desconectado emocionalmente das gerações mais jovens. Ele não combina em nada com o jeito de Enola viver a vida, e descobre com o tempo que ela é bem mais esperta que ele imaginava. Aquela típica atitude de desdém dos “mais experientes”. 

O filme é acertadamente feito para Millie brilhar como Enola, e ela cumpre sua missão com uma naturalidade surpreendente para um atriz tão jovem. Mas essa impressão pode ser fruto do mesmo preconceito com que Sherlock encara Enola na história. Quem disse que alguém cm um currículo ainda tão pequeno não pode já mostrar serviço logo de cara?

O fato é entre as produções originais da Netflix lançadas em 2020, Enola Holmes está - para se usar um sistema métrico vitoriano - há léguas de distância de muitas outras que a plataforma de streaming nos empurra goela abaixo toda a semana.

É claro que isso não quer dizer lá grande coisa, pois a barra não é das mais altas, mas mesmo assim, Enola Holmes é um filme simpático que passará a seu público uma mensagem legal sem grandes pretensões e sem abrir mão do entretenimento. Exigir aqui algo profundo e marcante seria um pouco demais.   

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