OPINIÃO
01/09/2020 02:00 -03 | Atualizado 01/09/2020 02:00 -03

'Boas companhias' fazem toda a diferença no combate à violência contra a mulher

"A violência contra mulheres não se encerra nas mulheres. Não há família, empresa ou sociedade saudável construída com base na desumanização."

“A minha história começou com muita dor e sofrimento, mas ao final a conquista não foi só minha, mas de todas as mulheres do meu País. A minha luta foi coroada com a criação de uma lei que veio para resgatar a dignidade da mulher brasileira, batizada com o meu nome, o que representa uma grande responsabilidade para mim. (...) A empresa pode sim ser uma porta de saída para a mulher em situação de violência. E muitas são.”

A frase acima é de Maria da Penha Fernandes, presidente e Fundadora do Instituto Maria da Penha e cuja lei que visa combater a violência contra mulher leva seu nome. Com as palavras acima, na semana passada, um grupo de 118 empresas integrantes da Coalizão Empresarial pelo Fim da Violência Contra Mulheres, celebrou o seu primeiro ano de existência.

Não coincidentemente, este aniversário acontece no mesmo mês em que o Brasil celebra 14 anos da Lei Maria da Penha, este avanço legal que, nas palavras de sua inspiradora, “resgatou a dignidade da mulher brasileira”.

Entre as muitas alegrias que o meu trabalho me trouxe nos últimos anos, conto a oportunidade de ter encontrado, mais de uma vez, a Maria da Penha. Eu sempre saí destes encontros instigada, inspirada e admirada. Mais do que a fama que o nome da lei lhe trouxe, o que me chama atenção nesta mulher icônica está expresso na mensagem que ela trouxe às empresas: a dor e o sofrimento particulares, podem conter sementes de uma conquista coletiva.

De certa, forma, era isto que tínhamos em mente quando, há um ano atrás, tendo perdido uma funcionária vítima de feminicídio, sonhamos com um movimento que pudesse mobilizar a inteligência coletiva, a inovação e a capacidade de criar valor das empresas para assumirem o seu papel de atores sociais e arquitetos da sociedade em que queremos viver.

Naquele momento, não tínhamos nenhuma ideia se alguma empresa se sensibilizaria, mas tínhamos muita esperança. Não a crença de que as coisas sairiam como esperávamos, mas a crença de que valeria a pena tentar. Neste sentido, fizemos um chamado a todas as empresas e CEOs que conseguimos alcançar, junto com a ONU Mulheres e a Fundação Dom Cabral.

A violência contra mulheres não se encerra nas mulheres. Não há família, empresa ou sociedade saudável construída com base na desumanizaçãoDaniela Grelin
Ponomariova_Maria via Getty Images
"É um processo de corresponsabilização e de construção coletiva, a partir das habilidades únicas de cada um de nós", escreve Daniela Grelin.

A resposta ainda nos surpreende todos os dias. Um ano depois, celebrados com 118 empresas signatárias, participantes de 6 sessões de aprofundamento no tema, que juntas lançaram três campanhas de comunicação, tendo alcançado organicamente 12 milhões de pessoas e 1,5 milhões de trabalhadores estamos buscando o que Maria da Penha afirmou ser possível: preparar a empresa para ser uma porta de saída para a mulher em situação de violência. E que responsabilidade isto representa.

Se podemos escolher e nos preparar, podemos, por outro lado, nos omitir. Trata-se de uma escolha e cada uma das alternativas traz consigo suas próprias recompensas. Quem escolhe ver o problema começará a perceber que ele é muito mais prevalente e próximo do que imaginava. Uma vez visto, nunca mais se deixa de enxergar. Começa aí o processo de preparação das portas de entrada para que a mulher possa pedir ajuda, ser ouvida sem julgamento, acolhida e orientada.

É um processo de corresponsabilização e de construção coletiva, a partir das habilidades únicas de cada um de nós. Pois a violência contra mulheres não se encerra nas mulheres. Não há família, empresa ou sociedade saudável construída com base na desumanização. Por outro lado, pode-se escolher não enxergar, ou não se envolver. O problema não irá desaparecer, pelo contrário, mas podemos pensar que não é problema nosso. A questão é que as coisas avançam com, sem ou apesar da nossa vontade, enquanto abrimos mão de influenciar a direção do futuro que cabe a nós construir.

A beleza da primeira opção é que à medida em que nos apropriamos do problema, conquistamos o direito de nos apropriar da esperança. Ao trabalhar juntos em busca de alternativas, construímos comunidades de valores compartilhados e uma cultura coesa, diversa e integradora. No final, a empresa se parecerá mais com uma rede à qual todos pertencemos, pois todos ajudamos a construir. Como uma casa que construímos juntos.

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