MULHERES
13/06/2019 07:58 -03 | Atualizado 13/06/2019 19:42 -03

Empresas aderem à tradição e vão parar também em jogos da Copa feminina

Pela 1ª vez, corporações abraçaram evento e vão interromper atividades durante jogos do Brasil, assim como na Copa masculina.

ASSOCIATED PRESS
Na estreia da Copa do Mundo de Futebol feminino, o Brasil venceu a estreante Jamaica por 3 a 0. Cristiane (à direita) foi a grande estrela da partida.

De quatro em quatro anos, o Brasil para quando a seleção masculina entra em campo na Copa do Mundo. Além das ruas pintadas de verde e amarelo pelo País, comércios, bancos e repartições públicas fecham; fábricas paralisam atividades e funcionários são dispensados. Mas essa tradição não se aplicava, até agora, à Copa feminina. Em 2019, pela primeira vez na História do Mundial, empresas decidiram parar para assistir Cristiane, Formiga e outras jogarem.

“O Brasil tem um símbolo social muito importante que é o futebol. Nada mais justo do que parar para assistir à seleção feminina também”, afirma Eduardo Fonseca, diretor de assuntos institucionais do Grupo Boticário ao HuffPost Brasil. A empresa, que não é patrocinadora do evento ou de atletas da seleção, enxergou a Copa como oportunidade de incentivar o futebol delas. 

A gente nunca olhou pra isso como uma possibilidade negativa. Para gente, tudo foi muito natural.Eduardo Fonseca, do Grupo Boticário

Criado em 1991, o torneio mundial foi ignorado durante muitos anos não só por emissoras de televisão abertas e fechadas no Brasil, mas pelo público em geral. Até 1979, a prática do esporte era proibido para mulheres no País.

Pela primeira vez, a Rede Globo transmitirá todos os jogos da seleção brasileira. Na Copa de 2015, apenas alguns jogos foram transmitidos pela TV Bandeirantes, pelo SporTV e pela TV Brasil — e havia pouco interesse sobre o tema.

Em cinco das marcas do Grupo Boticário (O Boticário, Eudora, quem disse, berenice?, Vult e The Beauty Box), linhas de produção, centros de distribuição e escritórios vão funcionar como em 2018, na Copa masculina.

Atividades serão paralisadas durante os jogos e haverá transmissão em telões para os funcionários ― nos escritórios, a paralisação varia de acordo com o horário dos jogos em sintonia com o horário dos funcionários, que pode ser alterado nesses dias.

“A gente nunca olhou pra isso como uma possibilidade negativa. Para a gente, tudo foi muito natural. Não paramos pra fazer conta sobre o quanto o Grupo iria deixar de ganhar por causa disso [a paralisação]. Nós vimos uma oportunidade de expandir, na prática, aquilo que a gente acredita como empresa, que é a importância da igualdade e da diversidade”, explica Fonseca.

O diretor conta que, inicialmente, a ideia era fazer uma campanha interna na empresa para o Dia da Mulher, mas que, devido à repercussão externa, o projeto ″#Comvocejogomelhor” ganhou novas proporções. O grupo criou uma plataforma online para estimular outras empresas a apoiar a Copa feminina.

Até o momento, outras 110 empresas como Oracle, Roche e Unilever aderiram e, no total, o grupo estima que 120 mil colaboradores sejam afetados no total.

Divulgação
Assim como na Copa do Mundo de Futebol masculina, a Nubank decidiu paralisar suas atividades durante jogos da seleção feminina na Copa da França, em 2019.

Com iniciativas semelhantes, outras empresas que não aderiram à campanha também criaram formas de se mobilizar para a Copa feminina. A empresa de tecnologia Nubank é uma delas. Já na abertura da Copa, no dia 7, os funcionários acompanharam o primeiro jogo entre França e Coreia do Sul em um telão dentro da empresa ― e retomaram suas atividades posteriormente. “Acreditamos que a seleção feminina merece tanto apoio quanto a masculina na busca pelo título”, diz nota da empresa que tem 40% de seu staff feminino.

A empresa informou que espalhou cartazes pelo escritório com horários da transmissão dos jogos e informações sobre outras seleções de países que são parceiros da companhia como Argentina, França e Estados Unidos. Durante o intervalo dos jogos do Brasil, a Nubank vai promover mini-campeonatos de embaixadinhas e tiro ao alvo, com brindes para os vencedores.

Avon informou que disponibilizará um telão no refeitório do escritório central da empresa, em São Paulo, para jogos próximos ao horário de almoço. Em partidas que acontecem no final da tarde, funcionários poderão ser dispensados mais cedo. “Grandes corporações têm um papel muito importante na mudança da sociedade. Refletir a diversidade é dar voz e representatividade, é ser consciente e responsável. Com o esporte não seria diferente”, disse em nota.

O Grupo Heineken, por meio de comunicado, divulgou que vai repetir a Copa masculina e irá transmitir todos os jogos do campeonato feminino na área de convivência da empresa, na Vila Olímpia, em São Paulo, que também é usada como bar para confraternizações em geral. Em cervejarias e centros de distribuição, a transmissão dos jogos também está liberada e poderá ser organizada pelas equipes locais de recursos humanos.

A marca ainda informou que, para funcionários que assistirem às partidas dentro ou fora da empresa, horas não serão descontadas e gestores terão autonomia para negociar o uso do banco de horas com seus times respectivos. “Essa é uma iniciativa que reforça os valores da empresa, que tem Inclusão e Diversidade como um pilar estratégico do negócio”, diz nota da empresa.

A empresa de entregas expressas Loggi instalou um telão no auditório de sua sede, em São Paulo, para que seus funcionários possam torcer pela seleção feminina. Comunicado informa que funcionários que quiserem também serão liberados para assistir o jogo fora da empresa e que, atualmente, dos mais de 600 funcionários da startup brasileira, 47% são mulheres. Segundo a empresa, esta é uma ação da área de diversidade da empresa, chamada “Você Importa”, liderada pelo movimento interno ”#ElasPodem”. 

A Votorantim Cimentos divulgou que terá horários especiais de expediente em dias de jogos da seleção brasileira. No jogo de hoje, dia 13, empresa autorizou que funcionários façam horário de almoço estendido. Para a partida contra a Itália, no dia 18, o expediente será encerrado duas horas antes do jogo e funcionários estão liberados para assistir em televisões do escritório.

Entre os patrocinadores, a Ambev, que é dona da marca Guaraná Antártica ― e é patrocinadora da seleção feminina no Brasil ― vai transmitir os jogos no escritório para seus funcionários e fez um apelo para que outras empresas apoiem o futebol feminino, inclusive, em campanhas publicitárias no País.

Como parte da ação, jogadoras Cristiane, Andressinha e Fabi Simões fizeram um ensaio fotográfico que simula a participação em propagandas de diversos segmentos, como produtos esportivos, cartão de crédito, entre outros.

Já a Visa, que é patrocinadora oficial do mundial, transmitirá os jogos da seleção brasileira no escritório e já recebeu visitas da mascote oficial da Copa, Ettie. Empresa também informou que funcionários participam de um campeonato interno de videogame exclusivamente com times femininos. 

Por que é importante parar e assistir aos jogos delas

Elsa via Getty Images
Cristiane celebra ao lado de suas colegas de time -- um de seus três gols na partida contra Jamaica na Copa feminina em 2019.

Como o torneio mundial feminino é bem recente ― começou a ser disputado oficialmente em 1991 ― , foi ignorado por anos não só por grandes empresas e corporações, mas também por emissoras de televisão abertas e fechadas.

Em 2019, o evento começou com a promessa de ser um momento histórico em termos de visibilidade e são os números que podem indicar transformação, de forma otimista, sobre como o futebol feminino é visto no Brasil e no mundo.

Esta é a 1ª vez em que a TV Globo, maior emissora do País, transmite jogos da seleção feminina. A TV Bandeirantes também exibirá os jogos. SporTV e Band Sports, na TV fechada, exibirão todos os jogos do campeonato da França.

Dados do instituto Kantar Ibope Media, indicam que a estreia da seleção brasileira contra a Jamaica, no último domingo (9), dobrou audiência do horário da emissora em comparação com os quatro domingos anteriores.

Só no Rio de Janeiro, a transmissão rendeu 20 pontos ― contra 10, dos domingos anteriores. Na proporção de televisões ligadas para assistir ao jogo no horário, saltou de 25% para 48%. Em São Paulo, o jogo atingiu 19 pontos, nove a mais que a média anterior. E participação de 25% para 43%.

No total, somando os dados divulgados sobre os canais de TV aberta, números expressivos são contabilizados: o alcance medido das transmissões da seleção chegou a 32 milhões de pessoas. E a expectativa é de que isso só aumente. 

 

Um sonho distante (pelo menos até agora)

Naomi Baker - FIFA via Getty Images
Cristiane e Formiga argumentam com juíza em partida contra a Jamaica na Copa feminina.

O sonho brasileiro de levar a taça para casa, no entanto, tem se mostrado distante nos últimos anos. Até agora, o melhor resultado da seleção brasileira na história das Copas femininas foi em 2007, na China - quando conseguiu chegar na final, mas perdeu para a Alemanha, que já é dona de dois títulos.

Hoje, sob o comando de Vadão ― que vai para a sua segunda Copa com a seleção brasileira ―, o time entra em campo com o peso de ser o 10º colocado do ranking, somando 12 vitórias, um empate e 10 derrotas acumuladas. A última vitória do Brasil foi em julho de 2018, contra o Japão.  

Além disso, o time já teve quatro baixas até o momento. Primeiro, a atacante Adriana, que rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho, e a lateral-direita Fabi Simões, que sofreu uma lesão na coxa direita. Érika foi a terceira baixa da seleção, com uma lesão em um músculo da panturrilha. A quarta foi Marta, mas ainda há expectativa que a atacante volte nos próximos jogos. 

O Brasil entra em campo nesta quinta-feira (13), contra a seleção da Austrália, às 13h ― segundo e adversário mais difícil para a seleção brasileira no mundial. Ainda há a expectativa de que Marta entre em campo neste segundo jogo.