OPINIÃO
28/05/2019 15:02 -03 | Atualizado 28/05/2019 16:57 -03

Udo Kier sobre Bacurau: 'Em 50 anos de carreira, foi a primeira vez que chorei numa première'

Ator alemão fala sobre os bastidores de seu trabalho no filme brasileiro que levou o Prêmio do Júri em Cannes.

Divulgação
Udo Kier em cena de "Bacurau" (2019)

Vencedor do Prêmio do Júri no 72º Festival de Cannes, o filme brasileiro Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi um dos grandes destaques dos 12 dias na Croisette.

Mistura de sci-fi com western, o longa tem elenco brasileiro e internacional, incluindo dois grandes atores do cinema global: a brasileira Sonia Braga – protagonista de Aquarius, filme anterior de Kleber Mendonça Filho – e o ator alemão Udo Kier, que nos últimos 50 anos estrelou títulos de diretores festejados, como Lars Von Trier, Gus Van Sant e Rainer Fassbinder.

Em Bacurau, Udo interpreta Michael, o líder do grupo de estrangeiros, e fala com seu sotaque alemão original. Uma das cenas do filme joga com esse estigma. Alguém o chama de nazista, ao que ele responde: “Vivo nos Estados Unidos há 35 anos. Sou mais americano que você”.

Udo era um dos mais emocionados após a première de Bacurau no Grand Théâtre Lumière. “Foi a primeira vez em que chorei numa première em cinquenta anos de carreira. Para mim, não foi apenas o filme, mas toda a experiência de filmá-lo”, disse no dia seguinte, em entrevista exclusiva na Praia do Majestic.

A conversa, que pode ser conferida abaixo, traz uma reflexão sobre a indústria e o Brasil, e tem uma das melhores – e mais simples – definições de cinema dessa última edição de Cannes: “Luz e sombra. Nada mais que isso”.

O filme tem estreia prevista no Brasil no dia 30 de agosto.

Como foi a experiência de Bacurau para você?

Udo Kier: Conheci Kleber no festival de Palm Springs. Depois ele entrou em contato, e recebi o roteiro. Li e gostei. O personagem é tão estranho, nunca explicamos por que estou fazendo o que faço, nem para quem trabalho. É uma pessoa que adora poder. Se ele mata, ou mata seu próprio pessoal, não temos explicação. Quando cheguei ao aeroporto, dirigimos cinco horas até o interior, e eu vi o verdadeiro Brasil. Passamos por vilarejos, e finalmente chegamos aonde ficaríamos. Foi como no filme. Um hotel de cidadezinha de interior, só um hotel com cama e chuveiro (muito importante), um restaurante para pedir comida. Só tinha visto algo assim em cidadezinhas da Itália talvez. Pessoas em cafés, jogando cartas, cães selvagens pedindo comida no meio da rua. Se eu tivesse ido para o Rio, São Paulo ou Brasília e depois viajado para lá, talvez entendesse a cidade como um set. Mas para mim aquilo foi a realidade. Estava feliz em conhecer Sonia Braga pois, claro, eu a conhecia desde o filme O Beijo da Mulher Aranha, e sei que é uma lenda no Brasil. No mundo.

Divulgação 2019
Udo Kier e Sonia Braga em cena de "Bacurau" (2019)

Sua cena com ela é uma das melhores do filme.

Foi como dois animais selvagens se medindo, cada vez mais próximos. Então ela diz, “venha aqui”. Me convida a comer o ensopado. Quase provo, mas aí penso: “deve estar envenenado”. Derrubo a mesa. E vou embora. Não foi uma grande cena, mas foi muito importante para nós, porque promove a reunião desses dois personagens. Ela é uma atriz maravilhosa. É uma pena que não tenha vindo para Cannes. Queria ter feito o tapete vermelho com ela. Para mim, o filme foi um experimento de realidade. Tentei absorver como as pessoas se movem, como andam, aprendem. Foi o meu experimento. Vivo nos Estados Unidos há 25 anos e gosto da indústria de cinema. Quem não gosta, quando se é ator? Os Estados Unidos têm dois lados, filmes comerciais, como Amargeddon, mas também intelectuais, de Gus Van Sant. Prefiro filmes independentes. Mas também gosto de grandes filmes com trailer e Bruce Willis. Já fiz um filme com Pamela Anderson. Não preciso desses grandes trailers, de toda essa atenção. Mas é bom absorver tudo isso e saber o que você prefere. Mesmo o filme com Mel Gibson, de orçamento muito baixo. Atores de sucesso – como Nicole Kidman – também querem fazer filmes de arte, como Dogville, de Lars Von Trier.

Como você interpreta o filme Bacurau?

Se você é um diretor talentoso, como Kleber e Juliano, não vai fazer um filme ruim. As pessoas podem amar ou odiar, não vão ficar em cima do muro. Sou um homem de sorte pois trabalho com vários diretores que não podem fazer um filme ruim. Gus Van Sant não pode fazer um filme ruim. Lars Von Trier não pode fazer um filme ruim. Mesmo o filme de Gus com Matthew McConaughey (Mar de Árvores). Ninguém gostou. Ninguém queria ver, naquele momento, um filme em que as pessoas vão para a floresta para se matar.

Quando você vai ao cinema, o que gosta de ver?

Não vejo muita aventura. Por exemplo, não vi Spiderman. Há duas razões por que vou ao cinema: uma delas é entretenimento – sempre gostei de James Bond, e, claro, o melhor James Bond é Sean Connery. “My name is Bond” [na voz do ator]. Gosto de ver filmes antigos, pelo simples fato de que não são feitos mais. Como Sunset Boulevard. É um de meus filmes favoritos, reflete Hollywood tão bem. Uma estrela se apaixonando por um homem mais jovem. E depois matando-o porque ele não corresponde. Gosto de filmes com Rita Hayworth. Tivemos um festival em Palm Springs, e vi Robert Mitchell. As estrelas de antigamente eram estrelas de verdade. Hoje você tem estrelas de Internet.

Qual a diferença entre uma estrela de verdade e uma estrela de internet?

A diferença é que se você tem dinheiro, consegue promover estrelas de internet. E o filme vai ser bem-sucedido. Antes, você tinha que ser Rita Hayworth. Ou, minha favorita, Bette Davis. Você tinha que ser Joan Crawford. Não havia internet ou smartphones. A experiência de assistir a De Repente, no Último Verão, com Elizabeth Taylor, por exemplo, era outra coisa. Conhecemos esse marido [interpretado por Paul Newman no auge da carreira] que na verdade gostava de meninos. Não havia filmes de baixo orçamento nessa época. Devemos lembrar também que todos esses filmes vieram depois da Segunda Guerra Mundial. As pessoas queriam entretenimento – não uma família morando no sótão.

E hoje, por que vamos ao cinema?

Vemos um filme como Bacurau porque vem de um país que não conhecemos muito bem. Queremos ver como isso reflete a situação do país. Em Bacurau, temos muitas camadas e elementos. Você tem música disco, mas também a música do interior. Filmes mudam, claro. Tudo muda. Quando eu era jovem, não podia acreditar que dava para colocar uma carta numa máquina e ela aparecer nos Estados Unidos. O tempo passa muito rápido. Tivemos filmes Dogma. Hoje, temos filmes que entram em competição com vídeos de smartphones. Você pode gostar, mas também querer lembrar de uma época em que o principal objetivo era o entretenimento. Como Sunset Boulevard, ou os filmes de Hitchcock. Hitchcock, o mestre das sombras. Cinema é sombra e luz. Nada mais que isso. Ele soube usar com maestria. Alguém descia a escada – só podíamos ver a sombra, um pouco distorcida – e logo descobríamos que não era quem a gente pensava. Temos novos filmes muito bons. Mas não gosto desses filmes com 2 bilhões de dólares de bilheteria. Todas as celebridades estão lá, todo homem voador, todo mundo. Como um composto de vários filmes juntos.

Assistindo a Bacurau na quinta (15) à noite, o que pensou do Brasil? Você estava bem emocionado...

Primeiro, preciso dizer que faço filmes há 50 anos e nunca chorei em uma première. Foi a primeira vez. Não quero explicar por que. Estava lá, e não queria me controlar. Simplesmente me liberei. Não gostei muito da câmera na minha cara. Para mim, o filme não foi apenas vê-lo na première, mas toda a experiência de filmá-lo.