OPINIÃO
28/08/2020 19:20 -03 | Atualizado 28/08/2020 19:57 -03

Elisa Lucinda fez milagre e me presenteou com algo belo: divido ambos com você

"Hoje o filme que foi um milagre dela concorre no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro."

Divulgação
Elisa Lucinda como DEUS em “Alfazema” (2019).

Era fevereiro de 2019, véspera de carnaval. Faltavam poucos dias para entrarmos no set do meu oitavo filme, o curta-metragem Alfazema. A produção era B.O (baixo orçamento), pois não havia tempo e nem disposição para pensar em captação de recursos, inscrição de projeto, em editais, essas coisas.

Aquele era um filme urgente e, como tal, precisava ser executado na urgência do momento. Amigos se mobilizaram em crowdfunding. Alguns parceiros, marcas e empresários se juntaram. Levantamos pouco mais de 7 mil reais.

Todo mundo aceitou trabalhar de graça. Shirley Cruz, Bruna Linzmeyer, Bianca Joy Porte, Victor Albuquerque. Artistas amigos de prestígio como Vívian Caccuri e Marc Krauss se juntaram também. Júlia Zakia, diretora de fotografia e diretora de cinema, amiga, parceira, fotógrafa do meu filme anterior, Rainha (2016), foi convocada, às pressas, de São Paulo. A eles se juntaram ainda outros tantos artistas e técnicos queridos como Bem Medeiros na montagem, Vitor Kruter no som, Beto Mendonça, Uca Rocha e Alex Domingos na caracterização.

Era um filme de e sobre o carnaval de uma mulher preta e feliz. E, àquela altura, ainda precisávamos encontrar DEUS. Mas não qualquer um. Não qualquer uma. A DEUS de Alfazema tinha que ser uma mulher preta. Mas não uma mulher preta. Teria que ser A MULHER preta. E ela chegou aos 45 do segundo tempo na nossa produção.

Quando Elisa Lucinda aceitou o chamado, o milagre se fez. Rodado em um único take, o filme se fez graças ao poder DELA. Hoje o filme que foi um milagre concorre no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, na categoria Melhor Curta, junto com outros quatro grandes pequenos filmes de outras quatro grandes mulheres.

Fato é que Elisa Lucinda, a DEUS, dia desses ouviu a história da avó da minha avó. E como somente DEUS é capaz de criar coisas belas, criou isso aqui que vou dividir com vocês:

Arquivo Pessoal
Dona Aldenora Fidalgo, minha avó e neta de Prudência Fidalgo.

Desejo de existir 

Vamos pensar numa paisagem sem horizontes, numa estrada sem possibilidades, sem saídas, um porvir sem esperança. Era essa a peça que o destino havia pregado à Prudência. Mas não. Com ela não seria assim. Chega. O passado de pertencer a outros, a vida de ser mercadoria transportada em trágicos negreiros no Atlântico, tudo isso tinha que ficar definitivamente para trás. Agora ela ia aproveitar então que Hilário, seu patrão, a havia chamado para pôr na mesa suas intenções e desejos. Prudência caminha no grande corredor da casa de fazenda sobre o piso de madeira corrida, o sol entrando cor de poente como uma luz que acompanhasse. Tudo dentro de um latifúndio de perder os olhos.

Ali, na fazenda, quase não havia castigo, vale dizer. E caso castigo houvesse, era prudente que Hilário não soubesse, uma vez que era um homem bom, apesar de branco. Prudência respondia ao chamado do seu senhor, ainda trazendo no corpo, por debaixo da roupa, o frescor do banho de rio tomado na mesma tarde, toda nua dentro daquele corpo firme e reluzente.

- Queria falar com vosmecê, Prudência. Não tive filhos, vosmecê sabe, não me casei, vosmecê também sabe. Por isso, o que eu quero é fazer em vida o que eu puder pelos que me ajudaram a construir este império e me ajudam a triunfar.  Portanto, quero realizar um desejo seu. Escolha dois presentes.

Prudência parou, olhou firme nos olhos dele e disse:

- Do senhor eu quero duas coisas. A primeira delas, terras. Quem possui a terra possui o homem que mora nela, e eu não quero mais pertencer a ninguém.

Hilário ficou calado olhando pra ela. Sorriu levemente e disse:

- Até aqui não estamos pensando diferente. Quero te dar, Prudência, para vosmecê e para os seus, um bom bocado desses hectares todos meus. Até depois do rio,  até beirar a cerca do coronel Bartolomeu. Tudo assinado, tudo seu.

Prudência sorriu:

- Acho que nem vou estranhar porque desde que eu me entendo por gente que eu labuto nessas terras, parece até que o senhor está me dando o que é meu. Mesmo assim eu sinto gratidão, o senhor compreendeu?

- Deixa de prosa, mulher, e me diga logo a segunda coisa que vosmecê quer.

- Agora o senhor pode rir de mim até, se quiser, mas preciso pedir uma coisa diferente, e também é um pedido que só interessa à gente. Não serve para outro tipo de bicho.

- Prudência, estou ficando curioso. É um pedido ou é um segredo que vosmecê esconde?

- Não, seu Hilário, vosmecê vai me entender: o que quero agora receber é um sobrenome.

- Sobrenome? Tudo bem! Serve Silva, Cruz, Gomes?

Prudência ficou calada.

- Escolha, mulher! Fale algo.

- Já escolhi: Fidalgo.

- Fidalgo? Mas Fidalgo não é nome de gente, Prudência, é uma atribuição, é uma categoria da nobreza, como Conde, Visconde, vosmecê entende?

- Entendo, mas não aceito. Entendo mas não estou nem aí. Se quer dizer realeza, é comigo mesmo, é com a mamãe aqui! Se é isso que quer dizer, o nome é meu de direito. Escravizaram mãos, escravizaram pés, acorrentaram o corpo todo, mas ninguém tira de nós a fidalguia de berço, ninguém tira o ancestral cantado de boca em boca, que no livro da história ninguém contou. Já vi muito rei, já vi muito príncipe morrendo no tronco. Sua realeza ninguém matou.

- Pois bem, então, Prudência Fidalgo a partir de agora, será seu nome, sem dever nada a ninguém, nem dinheiro, nem favor.

Prudência abraçou o senhor no silêncio da tarde. Era um homem que gostaria muito de ter nascido mulher. Um homem que passou a vida na falta de poder realmente ser o que ele realmente é. Seu Hilário, divertido, alegre, e sempre apaixonado por outro homem, escondido do mundo. Sempre atormentado, ocupado em esconder sua natureza. Esse era o vazio dele. A tristeza. O preço de ser da alta sociedade.

Sob a última luz do poente, Prudência agora anda rainha completa, no mesmo corredor por onde passara há pouco, deixando pra trás a porta pela qual havia entrado quando não tinha nem sobrenome, nem terra, nem nada. Quando era o vazio.

Elisa Lucinda Inverno quente, Brasil profundo, fim de julho, 2020

(Livre inspiração sobre a história contada, sobre a tataravó da cineasta Sabrina Fidalgo.)

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