ENTRETENIMENTO
19/09/2020 05:00 -03 | Atualizado 19/09/2020 05:00 -03

Leia trecho do novo livro de Elena Ferrante, ‘A vida mentirosa dos adultos’

Fãs da enigmática escritora italiana saíram do jejum após cinco anos de espera; Netflix anunciou que obra será adaptada em série, ainda sem data de estreia.

“Dois anos antes de sair de casa, meu pai disse à minha mãe que eu era muito feia”. É assim que começa a jornada da narradora Giovanna Trada, uma garota de 12 anos, em A vida mentirosa dos adultos, novo livro de Elena Ferrante, pseudônimo da aclamada e enigmática escritora italiana responsável pela “tetralogia napolitana”. Este é o primeiro livro dela após 5 anos de hiato.

A jovem começa o livro contando que, no passado, ouviu seu pai dizer que “está ficando a cara de Vittoria”, sua tia e persona non grata da família. Este comentário a faz entrar em uma busca solitária até essa tia, que se converte na descoberta de que a vida dos adultos, antes perfeita, é cheia de mentiras, o que a faz entender que é capaz de contar as suas próprias e sentir prazer. 

Lançada em novembro de 2019 na Itália, a obra chegou ao Brasil neste mês pela editora Intrínseca. Transformações, desencantos, traições e, sim,  mentiras estão envoltas na busca pela própria identidade e, claro, beleza. Tudo isso costura a trajetória desta adolescente que pouco sabe da vida, mas que diz respeito à experiência de que, sim, podemos ser estranhos a nós mesmos.

É com a história desta jovem que Ferrante se aprofunda no que há de mais intenso e sombrio na adolescência.

A obra é ambientada em Nápoles, mas desta vez no nobre bairro de Vomero, e não mais na periferia de Lila e Lenù, protagonistas da célebre série de início em A Amiga Genial - que já vendeu mais de 10 milhões de cópias em todo mundo. A vida mentirosa dos adultos é o primeiro romance inédito de Ferrante desde A História da Menina Perdida, quarto e último volume da tetralogia, em 2014.

Giovanna mora nas avenidas da cidade alta, mas cresceu sabendo que há outra cidade lá embaixo, onde seu pai passou a infância, parte de sua família ainda vive e é um lugar que esconde novas histórias. “Para visitá-los, era preciso descer, descer, continuar descendo, nas profundezas de Nápoles”, escreve Ferrante no livro.

Em maio deste ano, a Netflix anunciou que a obra será transformada em série - assim como a HBO fez com A Amiga Genial recentemente. Ainda sem data de estreia, a adaptação será realizada em parceria com a produtora italiana Fandango, uma das mais tradicionais do país.

Leia abaixo um trecho exclusivo do novo livro de Ferrante:

Divulgação
Capa da edição brasileira de "A vida mentirosa dos adultos", de Elena Ferrante.

Aquelas explosões repentinas de afeto em meio a um tom quase sempre de desagrado aumentaram e a tornaram cada vez mais necessária para mim. O tempo vazio entre os nossos encontros passava com uma lentidão insuportável e, no intervalo em que não a via ou não conseguia telefonar, eu sentia a necessidade de falar a seu respeito. Acabei, por isso, me abrindo cada vez mais com Angela e Ida, após ter exigido juras de extremo segredo. Eram as únicas pessoas com as quais eu podia me vangloriar da relação com minha tia, mas, no início, elas me ouviam pouco, queriam logo contar historinhas e casos de seus parentes excêntricos. Mas logo tiveram de ceder, os parentes dos quais falavam não se comparavam a Vittoria, que — como eu a descrevia — vinha de um mundo totalmente diferente. As tias e primas e avós delas eram senhoras abastadas do Vomero, de Posillipo, de Via Manzoni, de Via Tasso. Eu, por outro lado, situava fantasiosamente a irmã do meu pai em uma região de cemitérios, de riachos, de cães ferozes, de chamas de gás, de esqueletos de edifícios abandonados, e dizia: ela teve um amor infeliz e único, ele morreu de desgosto, mas ela vai amá-lo para sempre.

 

Certa vez, contei para elas em voz muito baixa: quando tia Vittoria fala de como eles se amavam, usa “trepar”, me disse quanto e como ela e Enzo treparam. Angela ficou impressionada, sobretudo, com esse último ponto, me interrogou demoradamente e talvez eu tenha exagerado nas respostas, coloquei na boca de Vittoria coisas sobre as quais eu fantasiava havia tempo. Mas não me senti culpada, o sentido geral era aquele, minha tia havia falado daquela maneira. Vocês não imaginam, disse comovida — que linda amizade nós temos: somos muito próximas, ela me abraça, me beija, costuma me dizer que somos idênticas. Evidentemente não falei nada das brigas que ela tivera com meu pai, das discussões sobre a herança de um casebre miserável, de como ele a dedurou, tudo aquilo me parecia pouco digno. Mas falei de como Margherita e Vittoria viveram após a morte de Enzo em um espírito de admirável colaboração e cuidaram dos filhos como se os tivessem parido alternadamente, um pouco cada uma. Aquela imagem, devo confessar, surgiu na minha mente por acaso, mas a aprimorei nas histórias sucessivas, até eu mesma acreditar que as duas haviam por milagre feito Tonino, Giuliana e Corrado. Especialmente com Ida, quase sem perceber, faltou pouco para que eu não atribuísse às duas mulheres a capacidade de voar pelo céu noturno ou inventar poções mágicas colhendo ervas encantadas do bosque de Capodimonte. Certamente contei que Vittoria conversava com Enzo no cemitério e ele a aconselhava.

 

- Eles conversam como nós duas estamos conversando aqui? — perguntou Ida.

 

- Conversam.

 

- Então foi ele que quis que sua tia também fosse mãe dos seus filhos.

 

- Sem dúvida. Ele era policial, podia fazer o que quisesse, tinha até um revólver.

 

- Quer dizer, é como se minha mãe e a sua fossem mães de nós três?

 

— Isso.

Aquelas explosões repentinas de afeto em meio a um tom quase sempre de desagrado aumentaram e a tornaram cada vez mais necessária para mim.

Ida ficou muito perturbada, mas Angela também se deixou levar. Quanto mais eu contava, recontava e floreava aquelas histórias, mais elas exclamavam: que lindo, estou com lágrimas nos olhos. De qualquer forma, o interesse delas cresceu especialmente quando comecei a falar de como Corrado era divertido, de como Giuliana era bonita, do fascínio de To nino. Eu mesma me surpreendi com o calor que usei para descrever esse último. Foi uma descoberta para mim  também o fato de gostar dele, para ser honesta, ele não havia me impressionado muito, pelo contrário, me parecera o mais inconsistente dos três irmãos. Mas falei tanto dele, inventei-o tão bem que, quando Ida, especialista em romances, afirmou: você se apaixonou, eu admiti — especialmente para ver como Angela reagiria — que era verdade, eu o amava.

Foi nesse clima que, quase sem me dar conta, comecei realmente a espiar meus pais.

Criou-se assim uma situação na qual minhas amigas pediam o tempo todo novos detalhes sobre Vittoria, sobre Tonino, sobre Corrado, sobre Giuliana e sobre a mãe deles, e eu não me fazia de rogada. Até certo ponto, tudo correu bem. Depois elas começaram a me pedir para conhecer pelo menos tia Vittoria e Tonino. Eu disse que não, era uma coisa minha, uma fantasia que me fazia bem enquanto durava: eu havia ido longe demais, a realidade teria destoado. E eu intuía que a boa vontade dos meus pais acabara, para mim já era uma grande dificuldade manter tudo em equilíbrio. Bastaria um movimento errado — mamãe, papai, posso levar Angela e Ida à casa da tia Vittoria? — e, em um piscar de olhos, se deflagrariam os sentimentos negativos. Mas Angela e Ida estavam curiosas, insistiam. Passei um outono desnorteado, encurralada entre as pressões das minhas amigas e as de Vittoria. A primeira queria verificar se o mundo do qual eu estava me aproximando era de fato mais emocionante do que o mundo em que vivíamos; a segunda parecia prestes a me afastar daquele mundo, de si mesma, se eu não admitisse que estava do seu lado e não do lado dos meus pais. Então eu já me sentia esmaecida com meus pais, esmaecida com Vittoria, sem uma fisionomia verdadeira com as minhas amigas. Foi nesse clima que, quase sem me dar conta, comecei realmente a espiar meus pais.

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