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24/06/2020 14:41 -03 | Atualizado 25/06/2020 05:53 -03

Como os protestos do movimento Black Lives Matter podem afetar as eleições nos EUA

Em meio à pandemia do novo coronavírus e às manifestações contra o racismo, os números de Donald Trump nas pesquisas estão despencando.

NICHOLAS KAMM via Getty Images
Presidente Trump faz comício em ginásio esvaziado em Tulsa, Oklahoma no último dia 20.

Os protestos generalizados contra o racismo nos Estados Unidos provocaram uma mudança profunda na opinião pública no país que pode se refletir na escolha para a Casa Branca em novembro.

Desde o assassinato de George Floyd por um policial em 25 de maio, o apoio ao movimento Black Lives Matter disparou. De acordo com uma pesquisa recente do HuffPost/YouGov, quase dois terços dos americanos apoiam os protestos, e a maioria vê a morte de Floyd como parte de um padrão no modo como os policiais tratam homens negros.

Os resultados refletem uma grande mudança de atitude, principalmente entre os americanos brancos, em relação à disseminação da discriminação racial na ação da polícia e na sociedade como um todo.

Os números também mostram que os índices de aprovação do presidente Donald Trump caíram em meio à contínua agitação social e ao aumento no número de mortes e prejuízo econômico causados pela pandemia do novo coronavírus.

A última pesquisa Gallup mostrou que o índice geral de aprovação de Trump caiu para 39% no início de junho, uma queda de dois dígitos em duas semanas – estava em 49% em 13 de maio.

Mas talvez o mais significativo seja a queda do apoio de Trump entre dois grupos religiosos que compõem uma parte central da sua base: brancos católicos e evangélicos.

Esses grupos religiosos foram os que mais manifestaram apoio a ele nas eleições de 2016, e Trump precisa contar com seus voto se quiser ser reeleito em novembro.

Preocupação na Casa Branca

Anadolu Agency via Getty Images
Policiais reforçam segurança em frente à Casa Branca durante um protesto após a morte de George Floyd.

A Casa Branca parece estar abalada. Em abril, quando as pesquisas apontaram uma pequena vantagem do candidato democrata Joe Biden sobre Trump nas eleições gerais, o presidente menosprezou esses resultados.

“Não acredito em pesquisas, acredito que as pessoas desse país são inteligentes. Não acho que elas vão eleger um homem incompetente”, disse Trump à Reuters.

No entanto, como os números de Trump caíram ainda mais, essa indiferença sumiu. Neste mês, quando uma pesquisa da CNN revelou que Trump estava 14 pontos atrás de Biden, a campanha de reeleição do republicano exigiu que a CNN retirasse essas informações e pedisse desculpas pela pesquisa, argumentando que ela foi “projetada para enganar os eleitores americanos” (a CNN respondeu que confirma os resultados da pesquisa).

Nos bastidores, Trump também gastou milhões de dólares em propaganda em estados onde venceu em 2016 – como Ohio, Iowa e Arizona –, um sinal de que as eleições deste ano podem ser mais competitivas do que Trump e seus apoiadores previam inicialmente.

Ohio, que já foi essencial no campo de batalha, tem uma tendência republicana há anos, mas pesquisas recentes mostram que Biden está liderando as pesquisas nesse estado. Se Biden vencesse em estados como o Arizona ou a Geórgia, o caminho de Trump para a reeleição seria extremamente difícil (no entanto, como ficou comprovado pela vitória surpresa de Trump em 2016, as pesquisas não preveem o futuro). 

Tom Brenner / Reuters
Trump caminha por fileiras de policiais no Lafayette Park, em frente à Casa Branca, para fazer uma foto em frente à igreja St John's durante protestos contra desigualdade racial.

Ainda faltam meses para a eleição

Se Trump está cada vez mais preocupado com as perspectivas de reeleição, seus aliados estão tranquilos, pelo menos publicamente.

Os principais senadores republicanos dizem que é muito cedo para se preocupar, porque ainda faltam meses para a eleição, e a economia está começando a se recuperar dos estragos causados pela pandemia do novo coronavírus (embora provavelmente demore anos para que a economia realmente se recupere, e uma segunda onda de contágio pode acabar rapidamente com qualquer ganho econômico).

“Novembro ainda está distante, muito mais distante do que o impeachment que ficou no passado, que parece que foi há séculos”, disse o senador Roy Blunt ao HuffPost US esta semana.

Mitt Romney, senador republicano de Utah e crítico habitual do presidente, também disse que espera a vitória de Trump.

“Estou dizendo há muito tempo que o presidente será reeleito, e continuo acreditando nisso”, disse Romney ao HuffPost.

Além disso, os conservadores religiosos podem até desaprovar Trump no momento, mas isso não significa que não votarão nele.

“Trump ainda conta com o apoio desse grupo”, disse John Fea, especialista no comportamento de grupos evangélicos no Messiah College, ao HuffPost. 

“Eles devem apoiar Trump porque precisam que ele vença em novembro para que suas questões sociais mais importantes, como a liberdade religiosa e a proibição do aborto, possam avançar, na tentativa de ‘fazer os Estados Unidos voltarem a ser potência’, ou seja, ‘fazer os Estados Unidos voltarem a ser uma nação cristã’”.

Para Trump, a crise atual é uma oportunidade

Erik McGregor via Getty Images
Imagem de George Floyd é carregada por manifestantes em Nova York.

Mesmo caindo nas pesquisas, Trump aproveitou a crise atual para se apresentar como o presidente “da lei e da ordem”, transformando a campanha eleitoral em uma guerra cultural em que os republicanos poderiam obter vantagem.

Enquanto Biden se encontrou com a família de George Floyd e diz que “sente e compartilha a profunda tristeza e frustração daqueles que pedem mudanças”, Trump adotou uma postura firme contra o aumento de pedidos para cortar as verbas destinadas à polícia.

Em uma reunião com policiais na Casa Branca recente, Trump disse que esses profissionais são ”ótimas pessoas” e assumiu uma posição irredutível contra pedidos de reformas ou fechamento de departamentos de polícia.

“Não vamos cortar verbas. Não vamos desmantelar nem acabar com a polícia”, disse Trump.

Embora a ideia de cortar a verba da polícia tenha assumido rapidamente o protagonismo nos debates políticos, as pesquisas indicam que essas mudanças continuam bastante impopulares entre os americanos.

Uma pesquisa HuffPost/YouGov revelou que a maioria dos americanos apoia reformas como a proibição de estrangulamentos, que esclareceriam em quais circunstâncias os policiais podem usar a força e facilitariam ações judiciais. Apenas 7% dos americanos dizem que o sistema policial do país é bom e basicamente não precisa de alterações.

No entanto, quando o assunto é o corte da verba destinada à polícia, apenas 27% dos americanos apoiam a ideia.

Mesmo quando os eleitores foram questionados se seriam a favor de disponibilizar menos dinheiro para a polícia e mais para assistentes sociais e profissionais de saúde mental, os resultados não refletem amplo apoio à realocação dos fundos: apenas 44% apoiam essas mudanças, enquanto 46% se opõem a elas.

Biden esclareceu esta semana que não apoia o corte de verbas da polícia, possivelmente para responder às críticas do presidente, mas os apoiadores de Trump ainda acreditam que podem vincular o candidato democrata ao movimento.

Na quinta-feira, a campanha de Trump divulgou um anúncio alegando que Biden “não assume uma posição firme contra os esquerdistas radicais que lutam para cortar a verba ou até acabar com a polícia”.

“Os democratas estão acenando a favor do corte de verbas da polícia, mesmo que Biden esteja se protegendo”, disse um assessor da Casa Branca ao HuffPost.

Outro assessor da Casa Branca deixou claro que os apelos da oposição para cortar a verba da polícia seriam uma peça central da campanha de Trump, mesmo que os democratas não defendam a ideia com tanta ênfase. 

“Foi o melhor presente que poderíamos ter recebido”, disse o assessor.

Para vencer, Biden precisa do apoio dos eleitores negros

ASSOCIATED PRESS
Joe Biden fala, por vídeo, enquanto familiares e amigos participam de funeral de George Floyd.

Os apoiadores de Biden acreditam que a capacidade de aproveitar a força do movimento Black Lives Matter pode ser fundamental para o sucesso nas eleições. 

A popularidade dele entre os eleitores negros mais velhos, em grande parte conquistada durante o tempo em que foi vice-presidente de Barack Obama, ajudou a garantir a indicação do partido democrata este ano.

No entanto, Biden tem dificuldades para inspirar a geração mais jovem de eleitores negros, que criticam seu apoio às políticas severas contra a criminalidade nas décadas de 1980 e 1990, que, segundo eles, contribuíram para a prisão em massa de pessoas negras. 

Ele também enfrentou acusações por não valorizar o voto dos eleitores negros. Em maio, Biden foi forçado a pedir desculpas depois de afirmar durante uma entrevista: “quem não sabe se vota em mim ou em Trump não é negro”.

“Eu falei demais, fui muito arrogante”.

Os jovens que não votaram em Biden durante as primárias “são os mesmos que estão protestando nas ruas agora, que consideram o histórico político dele responsável pela dor que estão sentindo”, explicou ao jornal Politico o pesquisador democrata Terrance Woodbury, que liderou uma série de grupos de foco do movimento Black Lives Matter no início deste ano para avaliar por que os jovens eleitores negros não estavam animados em votar. “Ele precisa pedir desculpas ou fazer algum tipo de reparação”.

Cresce cada vez mais os pedidos para que Biden escolha uma mulher negra como candidata a vice-presidente para estimular os eleitores negros e sinalizar seu compromisso em combater a injustiça racial.

O medo dos democratas não é que os jovens eleitores negros apoiem Trump. O problema é que, se estiverem descontentes com Biden e céticos sobre a possibilidade de ver mudanças sistêmicas reais, esses jovens podem decidir ficar em casa no dia das eleições, o que contribuiria para a vitória de Trump.

Outros problemas, como o caos que muitos americanos enfrentaram na Geórgia nesta semana, onde milhares de eleitores esperaram até sete horas em filas que se estendiam por quarteirões durante as eleições primárias do estado, também poderiam desestimular o voto dos negros em novembro.

“As pessoas estão desiludidas com as instituições”, disse ao jornal Politico Branden Snyder, diretor-executivo de uma organização de Detroit que trabalha para mobilizar eleitores negros e pardos.

“Estou preocupado porque muitos jovens eleitores podem optar por não votar nas próximas eleições”.

Reportagem do HuffPost EUA.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.