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01/09/2019 15:30 -03 | Atualizado 26/10/2019 16:47 -03

Macri X Fernández: Qual impacto da eleição argentina para o Brasil

"Será difícil a relação com Bolsonaro se Fernández for eleito, mas a Argentina e o Brasil estão obrigados a conviver", diz cientista político argentino.

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Moratória anunciada por Argentina é considerada por parte dos analistas como fator definitivo para o fracasso eleitoral de Macri em outubro.

Uma grave crise econômica na Argentina e a incerteza sobre a política externa no governo de Jair Bolsonaro. Esses são os dois principais desafios apontados por especialistas ao analisar o possível impacto das eleições presidenciais do país vizinho no Brasil. O favorito na disputa é o peronista Alberto Fernández, criticado pelo presidente brasileiro.

Titular na chapa que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como vice, Fernández venceu as primárias em 11 de agosto com 47,3% dos votos, 15 pontos percentuais acima dos 32,2% do atual presidente, Mauricio Macri, apoiado por Bolsonaro. A tendência é que o quadro se repita na disputa final neste domingo (27 ).

Na verdade, a distância entre os adversários aumentou, segundo as sondagens mais recentes. Fernández tem 52% de apoio enquanto Macri conta 32%.

Para o cientista político da Universidade Católica de Buenos Aires Ignacio Labaqui, uma mudança nesse cenário dependeria de quatro fatores. “Teria de aumentar a quantidade de eleitores para acima de 80% [o voto não é obrigatório na Argentina]. Seria necessário que os eleitores que votam em outubro e não votaram em agosto sejam a favor de Macri e que Macri consiga votos de outros candidatos, como Roberto Lavagna, José Espert e Juán José Centurión. Também seria preciso que caíssem os votos em branco. Que todas esse fatores ocorram juntos é como atirar dados 5 vezes seguidas e sair sempre o mesmo número”, comparou Labaqui ao HuffPost Brasil.

A provável vitória de Fernández, contudo, não tem sido bem recebida por Bolsonaro. No dia seguinte às primárias, o presidente sugeriu que a volta do peronismo levaria a Argentina a um quadro como o da Venezuela, sob um regime ditatorial e diante de uma grave crise econômica. “Povo gaúcho, se essa ‘esquerdalha’ voltar aqui na Argentina, nós poderemos ter no Rio Grande do Sul um novo estado de Roraima”, disse em evento em Pelotas (RS), em referência aos imigrantes venezuelanos no norte do País.

No mesmo discurso, o presidente afirmou que “a turma da Cristina Kirchner, que é a mesma da Dilma Rousseff, que é a mesma de [Nicolás] Maduro e [Hugo] Chávez, e Fidel Castro, deram sinal de vida aqui”, em uma associação entre a candidata argentina, a ex-presidente brasileira e chefes de regimes de exceção.

O clima eleitoral no país vizinho também ressuscitou o sentimento de Bolsonaro contrário ao Mercosul. Ele já ameaçou a saída do Brasil do bloco econômico. “O atual candidato que está à frente na Argentina, ele já esteve visitando o [ex-presidente] Lula, já falou que é uma injustiça ele estar preso, já falou que quer rever o Mercosul. Então o [ministro da Economia] Paulo Guedes, perfeitamente afinado comigo, falou que se criar problema, o Brasil sai do Mercosul, e está avalizado”, disse em 16 de agosto.

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Bolsonaro apoia o atual presidente argentino, Mauricio Macri, na disputa com o peronista Alberto Fernández.

A atuação bolsonarista até o momento no campo internacional torna difícil uma previsão. “Este é o governo da incerteza. Na política externa é uma grande interrogação sobre qual a diretriz”, afirmou ao HuffPost Brasil a pesquisadora Lia Valls, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Fundação Getulio Vargas). 

Mesmo com a dúvida, a especialista ressalta que há limites para a divergência política. “A Argentina é nossa vizinha. Independentemente de qualquer coisa, está aqui do lado e não pode ser ignorada. Vai estar na agenda brasileira. Tem uma fronteira; seria bom sempre ter relações boas... Enfrentamento não vai levar a nada”, completou.

Apesar do discurso do presidente, há uma aposta entre parte dos economistas e cientistas políticos de uma atuação mais pragmática, devido às relações comerciais entre os dois países. Mesmo com a crise econômica argentina, o país vizinho continua sendo importante para o mercado brasileiro. Na América Latina, a Argentina é o principal parceiro comercial do Brasil. As exportações para lá somaram um total de US$ 14,9 bilhões em 2018.

Comércio entre Brasil e Argentina

Ignacio Labaqui acredita que o aspecto econômico vai prevalecer. “Será difícil a relação com Bolsonaro se Fernández for eleito, mas a Argentina e o Brasil estão obrigados a conviver. O Brasil é o principal destino de exportações argentinas. Não creio que haverá represálias por esse lado”, afirmou à reportagem.

A Argentina é a maior compradora de industrializados brasileiros. Os números caíram com a crise, mas continuam a representar uma fatia importante do setor. Mais de 60% dos carros comprados na Argentina vêm daqui, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e do Ministério da Indústria e Comércio Exterior brasileiro.

Devido à relevância nas trocas comerciais, a situação econômica argentina tem impacto relevante no cenário doméstico. A exportação de veículos para lá caiu 41% de janeiro a julho deste ano, segundo a Anfavea.

A expectativa é que o Brasil ainda sofra esses reflexos no médio prazo, independentemente do resultado nas ruas. “Mesmo que o Macri fosse reeleito, não ia melhorar logo. No curto prazo, qualquer pessoa eleita está numa situação difícil”, afirmou Lia Valls.

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Segundo dados do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina, em 2018, a pobreza atingia 33% da população.

Crise econômica na Argentina 

Ao contrário das promessas de campanha, o governo Macri levou a um cenário de aumento da pobreza, da inflação e do desemprego e desvalorização da moeda argentina, que afetou diretamente a população e aumentou a impopularidade do presidente. A gestão atual também frustrou a expectativa de aumento de investimentos externos. 

Segundo dados do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA), em 2018, a pobreza atingia 33% da população.

Já a inflação chegou a 47% no ano passado. Para 2019, a previsão era de 40%, mas o número pode aumentar com os últimos acontecimentos.

Apesar do relativo fracasso de Macri, o mercado tem mais simpatia por ele do que por Fernández, o que influencia as previsões econômicas. As turbulências financeiras resultaram em uma depreciação de quase 30% do valor do peso argentino e uma alta maior que 2.000 pontos no índice de risco-país após o resultado das primárias que indicaram a vitória do peronista.

“Não há tanta clareza sobre o grau de autonomia que ele [Fernández] vai ter, se for eleito. Se está só como um coadjuvante da Cristina Kirchner, que tem posturas de maior enfrentamento”, afirmou Lia Valls.

Ao declarar moratória (adiamento do pagamento) da dívida de curto prazo da Argentina na última quarta-feira (25), o ministro da Fazenda, Hernán Lacunza, afirmou que “inexoravelmente” a negociação terá de ser concluída pelo próximo governo.

O país também irá renegociar as dívidas de médio e longo prazos, inclusive a parcela referente a empréstimos com o FMI (Fundo Monetário Internacional). A linha de crédito adquirida por Macri em junho de 2018 equivale a US$ 57 bilhões. 

De acordo com a pesquisadora da FGV, já havia uma previsão de revisão do acordo com o FMI. ”É um acordo muito duro. Teria de ter alguma renegociação e acerto”, afirmou.

Do ponto de vista político, a decisão pela moratória, anunciada em um dia em que o dólar voltou a ultrapassar a casa dos 60 pesos e manifestantes ocuparam a Praça de Maio, é considerada por parte dos analistas como fator definitivo para o fracasso eleitoral de Macri em outubro.

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Cristina Kirchner é investigada por envolvimento em um esquema de corrupção em contratos de obras públicas durante a sua presidência conhecido como “caderno das propinas”.

Por que Macri não deve ganhar as eleições

Pouco depois de assumir a Casa Rosada, em 2015, Macri descongelou as tarifas dos serviços como de transportes públicos, luz e gás. O governo anterior, kirchnerista, mantinha os preços baixos artificialmente, a fim de conter a inflação. Esse tipo de medida, contudo, reduzia lucros e gerava prejuízos às empresas que prestam esses serviços. 

Além do impacto para população, o “tarifaço” gerou uma pressão dos preços que levou pequenas e médias empresas a diminuírem suas atividades, o que aumentou o desemprego.

Após as primárias, Macri anunciou medidas no sentido contrário, em busca de recuperar a popularidade, mas a expectativa é de que elas tenham pouco efeito prático no cenário econômico e político. O pacote incluiu congelamento do preço dos combustíveis por 90 dias, aumento de 25% no salário mínimo, redução do imposto de renda para pessoas de baixa renda e redução das obrigações tributárias das pequenas e médias empresas.

Na avaliação de Lia Valls, o presidente falhou no equilíbrio das contas públicas. “O Macri não fez o ajuste fiscal que deveria ser feito. Por exemplo, retirou imposto de exportação de produtos, principalmente da soja. Os agricultores reclamavam desse imposto na Argentina há muito tempo, mas em um momento em que você precisa fazer ajuste fiscal, não sei se era o ideal tirar esse imposto”, destacou.

Ignacio Labaqui, por sua vez, aponta como outro fator de impopularidade a reforma da previdência em 2017, que mudou o cálculo das aposentadorias. “Foi uma primeira quebra mais simbólica entre Macri e a opinião pública”, destaca. Por outro lado, a unificação do peronismo ajudou Fernández.

De acordo com o cientista político, a situação econômica é o fator chave das eleições. Isso porque é o tema de maior peso para fatia do eleitorado considerada decisiva para o resultado das urnas, que representa cerca de um terço dos votos.

Os outros grupos seriam compostos por quem considera graves as acusações contra a ex-presidente, vice na chapa de Fernández. Cristina Kirchner é investigada por envolvimento em um esquema de corrupção em contratos de obras públicas durante a sua presidência conhecido como “caderno das propinas”.

Já os kirchneristas se dividem entre quem vê as investigações como perseguição e os que minimizam esse fator. “Nesse grupo, a corrupção não é um tema que preocupe muito, não por uma questão ideológica, mas porque são [pessoas] de origem econômica baixa. Se preocupam com ter emprego, comer, com o dia a dia. Qualquer agenda institucional é relevada a segundo plano”, afirmou Labaqui.