OPINIÃO
09/02/2020 12:00 -03 | Atualizado 09/02/2020 12:00 -03

Movimento Pendular

Como a polarização pode acabar resgatando o centro na política dos Estados Unidos.

Brendan McDermid / Reuters
Em debate do partido Democrata, Pete Buttigieg, Bernie Sanders, Joe Biden e Elizabeth Warren em Manchester, New Hampshire.

O mundo vive um período peculiar na política. A polarização passou a fazer parte de muitos tabuleiros eleitorais ao redor do globo. A ascensão de regimes de cunho populista, sejam pela direita ou pela esquerda, está intimamente ligada a esse sistema binário, que ao se retroalimentar elimina opções ao centro e rejeita a política como instrumento fundamental de democracias vivas e vibrantes.

Fato é que vivemos em um movimento pendular, onde os extremos precisam de seu oposto para abastecer o combustível eleitoral que os move. A ascensão de governos populistas de direita, que passam longe do viés tradicional conservador, são um claro sintoma de um processo que, ao afastar-se do centro, passa a gravitar entre entes antagônicos, como uma direita populista e uma esquerda radical.

O processo de polarização já foi sentido na Europa, que levou ao Brexit e também nos Estados Unidos, representado pela eleição de Donald Trump. O movimento pendular, entretanto, pode acabar por gerar surpresas nos processos eleitorais.

Na mesma medida que um extremo é forjado dentro do sistema, isso cria uma força de reação de igual medida que pode deslocar o poder para o extremo oposto. A oscilação de Obama para Trump explica esse fenômeno e portanto pode gerar o efeito contrário com a eleição de um nome antagônico ao presidente norte-americano neste ciclo eleitoral.

Isso explica a popularidade de nomes como Bernie Sanders, Elizabeth Warren e Pete Buttigieg entre os democratas. Os três possuem traços antagônicos em relação a Trump, o que os torna nomes competitivos para este ciclo eleitoral.

Sanders encarna a figura do outsider, mesmo que esteja na política há três décadas. Seu jeito desarrumado contrasta com o estilo do presidente e pode empolgar os eleitores.

Warren é outro caso interessante, pois possui um discurso firme contra os bancos e o sistema financeiro e saberia antagonizar com veemência contra Trump em um debate que colocaria dois populistas em colisão.

Mas talvez o nome mais interessante deste processo eleitoral tenha surgido para o grande público durante o caucus de Iowa e se chama Pete Buttigieg. Suas credenciais, aliadas a uma campanha bem conduzida e organizada, podem causar estragos caso ele enfrente Trump na disputa.

Declaradamente gay, o política centrista de Indiana pode estar começando a dar os primeiros passos de uma vitoriosa carreira política usando os elementos estratégicos inaugurados por Barack Obama.

Buttigieg é filho de imigrantes, formado em Harvard e pós-graduado por Oxford. Tenente da Reserva Naval dos EUA, tendo servido no Afeganistão, condecorado com a Joint Service Commendation Medal.

Sua visão econômica liberal faz que transite com facilidade no meio financeiro e sua juventude é vendida como a renovação do Partido Democrata. Como percebemos, possui atributos suficientes para antagonizar com Trump na mesma medida que consegue transitar por territórios inexplorados para os democratas.

ASSOCIATED PRESS
Qual democrata vai disputar a Casa Branca com Donald Trump, na tentativa de se reeleger?

Como vemos, se a escolha recair sobre um destes três nomes, teremos a certeza que a teoria pendular estará gerando um movimento consistente para o lado contrário.

Com Sanders e Warren, as chances são de uma reviravolta de teor épico na política, entretanto, com Buttigieg o antagonismo ficará claro, ao mesmo tempo que conseguirá transitar com maior desenvoltura no mundo político.

Uma enorme mudança que, depois de Trump, seria uma guinada progressista que poderia significar a entrada de uma nova geração na política, revigorando instituições e rompendo barreiras no mesmo estilo inaugurado por Obama.

Seria usar a polarização do sistema contra suas estruturas, devolvendo o centro político para debate, restabelecendo o diálogo como instrumento central de uma democracia vibrante.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.