MULHERES
25/02/2019 16:34 -03 | Atualizado 25/02/2019 19:31 -03

Mulher espancada por 4 horas diz ter certeza que agressor queria matá-la

"Qual motivo de uma pessoa fazer isso gratuitamente? Eu não faço mal para ninguém", questiona Elaine Caparroz ao "Fantástico".

Reprodução/Fantástico/Rede Globo
Nas imagens da reportagem, a empresária aparece com o rosto ainda muito machucado e com hematomas. “Eu não me sinto humilhada, eu me sinto muito forte."

A empresária Elaine Caparroz, 55 anos, vítima de uma tentativa de feminicídio, acredita que foi alvo de uma vingança. Ela afirma que Vinícius Batista Serra, 27, tinha intenção de matá-la e que tem certeza que foi dopada.

“Não sei por que, mas eu achei muito estranho. Qual motivo de uma pessoa fazer isso gratuitamente? Eu não faço mal para ninguém. Deve ter algum motivo”, disse em entrevista ao Fantástico deste domingo (24).

Elaine, que é paisagista, foi encontrada desacordada em seu apartamento na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, no último dia 16 de fevereiro, após ser agredida brutalmente durante quatro horas. Ela havia marcado um primeiro encontro com o agressor. Há 8 meses, eles conversavam por uma rede social.

Nesta segunda-feira (25), o inquérito da investigação foi concluído e o agressor foi indiciado por tentativa de feminicídio. A delegada Adriana Belém, da 16ªDP (Barra da Tijuca), responsável pela investigação, informou que acredita que o crime foi premeditado. 

“Ficou claro que ele planejava matar a Elaine. Ele forçava todo tempo para que os encontrassem a sós. Disse que não queria encontrar com ela em balada, porque era uma atleta e não podia beber. Esse rapaz tem que ficar preso. Ele é nocivo para a sociedade”, disse Belém.

A delegada ainda afirmou que existe a possibilidade de investigar se o que aconteceu com Elaine foi, de certa forma, uma vingança contra Rayron Gracie, lutador de jiu jitsu e filho da vítima. Elaine é viúva de Ryan Gracie, que também praticava a arte marcial. A família é uma das precursoras do esporte no Brasil.

Eu achei essas perguntas dele estranhas, por que ele ia perguntar isso? E por que ele fez isso comigo? Não sei.

“Ela relata ter tido lapsos de memória. Lembra de algumas coisas, como o fato de que ele fazia com que ela voltasse a si. Me parece que ele tinha satisfação de fazer a pessoa sofrer”, afirmou ao jornal o Globo.

Elaine prestou depoimento no início da tarde desta segunda (25), na 16ªDP, da Barra da Tijuca. ”É minha busca por justiça. Por todas as mulheres que já passaram por isso”, disse a paisagista ao chegar no local.

A delegada informou que cerca de dez pessoas envolvidas no caso foram ouvidas. O agressor será ouvido em juízo.

 “Ele quase me matou, eu quase morri.”

À reportagem do Fantástico, a paisagista contou que, durante o encontro, seu agressor mencionou a história de um suposto amigo que, motivado por vingança, gostaria de matar uma pessoa. Ele pediu a opinião dela sobre: “Eu falei: ‘Nossa, que conversa, né? Que conversa mais louca’”. Ela também estranhou o pedido dele para assistir a um filme de terror.

Ela acredita que uma agressão como a que sofreu não pode ter acontecido de forma “gratuita”. “Eu achei essas perguntas dele estranhas, por que ele ia perguntar isso? E por que ele fez isso comigo? Não sei. Talvez alguma rixa, não é? Mas não posso afirmar isso. Tem que ser investigado porque eu acho que é uma agressividade gratuita, ele quase me matou, eu quase morri.”

Elaine relata que teve “apagões”, como se estivesse perdendo os sentidos, e que lembra pouco do que aconteceu naquela noite. Por isso, julga que foi dopada. “A última coisa que eu lembro foi eu deitando no ombro dele e depois disso, não sei dizer quanto tempo depois, eu já estava no chão com ele em cima de mim desferindo vários socos horríveis no meu rosto.”

A violência democrática

Dados mostram que casos como o de Elaine Caparroz não são isolados. Só no ano passado foram registrados 288 casos de tentativa de feminicídio em todo o estado do Rio de Janeiro, segundo o Instituto de Segurança Pública. O número de tentativa de feminicídios é 16% mais alto do que o registrado em 2017, quando houve 248 ocorrências deste tipo no estado.

Relatório mais recente da ONU detalha que os assassinatos de mulheres por parte dos seus companheiros fazem que o lar seja o “lugar mais perigoso” e que, sendo assim, ”é frequentemente a culminação de uma violência de longa duração que precisa ser combatida”. Assim, o relatório conclui que a cada 6 horas uma mulher é vítima de feminicídio no mundo.

Nas imagens da reportagem do programa da TV Globo, a empresária aparece com o rosto ainda muito machucado e com hematomas. “Eu levo susto todos os dias, todos os dias quando eu me olho no espelho”, disse à reportagem. Ela teve alta na última quinta-feira (22), após uma semana de internação. 

Como consequência das agressões, Elaine sofreu um deslocamento de retina, fraturou o nariz, os ossos que cercam os olhos, perdeu um dente e precisou de quase 60 pontos na boca. Ela levou mordidas e socos nos braços e pernas. Ainda não se sabe se ela precisará de uma cirurgia reparadora.

Um crime premeditado?

Vinícius Batistas Serra, de 27 anos, estudante de Direito e também lutador de jiu jitsu, foi preso em flagrante por tentativa de feminicídio. Aos policiais, afirmou que dormia com a vítima, acordou e teve um surto. Ele foi encaminhado para um presídio psiquiátrico e passa por avaliação.

Serra já havia sido denunciado pelo próprio pai, em fevereiro de 2016. Ele relatou à polícia que foi acordado por gritos de madrugada e, quando chegou no quarto, Serra estava aplicando golpes de jiu-jítsu no irmão com deficiência. A polícia quer ouvir os pais para dar continuidade à investigação.

Um outro ponto que intriga a investigação é o fato de o agressor ter dado um nome errado ao ser anunciado no prédio da vítima. Ao invés de Vinícius, ele disse que seu nome era Felipe. A polícia foi chamada após um funcionário do condomínio, alertado sobre os gritos, passar em frente ao apartamento e ver a porta entreaberta. Ele encontrou Elaine inconsciente.

O que dizem especialistas

“Nós evoluímos, temos a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio, mas a primeira coisa que chama atenção é como ainda existe uma noção equivocada do quão grave é a violência contra a mulher”, avalia a promotora do MP-SP Silvia Chakian, que coordena do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (GEVID).

Após o caso ser divulgado e imagens do rosto desfigurado da vítima circularem nas redes sociais, manifestações de solidariedade e indignação foram publicadas. Mas, ao mesmo tempo, “o que ela deve ter feito para fazer isso” também começou a ser questionado nas redes sociais.

A promotora Silvia Chakian rechaça as críticas  e explica que ”basta um homem achar que tem poder sobre uma mulher para cometer esse tipo de violência”.

“A violência que aconteceu com Elaine acontece com muitas outras mulheres que conhecem outros homens em outras circunstâncias. Novamente, é um caso em que temos imagens da violência, ela está comprovada, e a vítima mais uma vez é culpabilizada. É importante frisar que a culpa nunca é dela.”

“Eu não me sinto humilhada, eu me sinto muito forte”, disse Elaine ao Fantástico, ao citar a demora do socorro. “Eu não queria perder a oportunidade de falar pra todo mundo fazer tudo o que pode para proteger o próximo de qualquer forma. Porque eu pedi muito socorro e acho que demorou muito.”

“Eu acho que ao ter esse socorro, eu acho que as pessoas quando ouvem alguém pedindo socorro elas tem que tomar uma providência imediata. Porque eu não precisava ter passado por tudo o que eu passei”, concluiu.